7.12.12

o puto não come o peixe e o alentejano esconde o sal


Uma das coisas que mais me incomoda é visitar alguém num hospital. Impressionam-me os rostos, de quem está deitado numa cama, que revelam um misto de sofrimento e desespero. Até o próprio ar que se respira parece diferente. Mais pesado. Quase impossível de respirar. E tudo isto mexe comigo. Estas coisas passaram-me pela cabeço enquanto me deslocava ao hospital para visitar o meu pai. Apesar das palavras reconfortantes da minha mãe, temia ver o meu pai muito em baixo. Triste por estar onde estava pela primeira vez na sua vida e por ter ouvido horas antes que a primeira dor poderia ter sido fatal.

Felizmente, o meu pai era o rosto da boa disposição. Brincalhão como sempre. Alegre. Tal como o conheço. Como sempre o conheci. Só o cenário era diferente. E isso tornou tudo muito mais fácil. Acredito que estivesse assim pelo alívio de ver uma situação complicada resolvida em poucas horas. Apesar de ontem diversas pessoas terem feito a mesma intervenção do que o meu pai, apenas ele e mais um senhor foram obrigados a pernoitar no hospital. Felizmente para ambos, arrisco dizer que ficaram os mais divertidos. O parceiro de quarto do meu pai é o típico alentejano castiço. Sempre com uma piada pronta para cada situação. Daquelas pessoas que causam boa-disposição a quem as rodeia. Estando num hospital, isso é o melhor que pode acontecer. Dei por ele a esconder pacotes de leite com chocolate na gaveta e, todo orgulhoso, mostrou um pacote de sal para temperar a comida às escondidas das enfermeiras. “Não é um sal qualquer. É para os hipertensos”, disse como quem tenta desculpar o gesto.

Quanto ao meu pai, parecia meu filho. Parecia um puto que precisa de um raspanete porque não quer comer peixe e que arranja todas as desculpas para não comer.

“Então, não comes o peixe?”, digo eu.
“Já comi metade”, diz-me.
“Metade? Está tudo no prato. Come lá o peixe”, insisto.
“Não tenho muita fome”, responde.
“Se não tens fome, não comas as batatas e as verduras. Come o peixe”, insisto novamente.
“Não vou comer muito mais. Come tu metade”, desafia-me.
“Eu? Come lá o peixe”, continuei.

Pela primeira vez, senti-me pai do meu pai. E, desta vez escapou mas, para a próxima come o peixe todo. Ou isso ou não vai para a rua brincar com os amigos.

46 comentários:

  1. Que bom. Hoje respiras um pouco mais aliviado! E ser pai é facil? Ahah, só para veres o trabalho que já deste :p

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    1. Muito mais aliviado. Eu acho que comia bem. Diz a minha mãe.

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  2. Que bom que o encontraste bem. E sim, nestes momentos em que a vida nos troca um pouco as voltas, os papéis invertem-se mesmo...
    Rápidas melhoras :) Beijinho

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  3. Olha esse diálogo é mesmo ternurento :) Muito bom mesmo!
    Infelizmente sei do que falas do ambiente dos hospitais :( tu consegues presenciar num curto espaço tanta vulnerabilidade, quanto mais das pessoas que nos são próximas, que o peso era enorme. saía sempre com daqueles apertos de coração!

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  4. O meu pai dizia que preferia antes morrer do que comer as coisas insosas... Por isso... sei o que queres dizer!

    Comida de hospital é outra coisa...

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  5. ou então não come a sobremesa :)

    melhoras

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  6. Ahahah!Vejo que o excelente humor tambem e transmissivel geneticamente ;)Adoravel.Bjs "aos putos"

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  7. Tinhas que fazer o avião... ;)

    pippacoco.blogspot.com

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  8. É bom ver estes instantes de boa disposição até nos momentos mais difíceis. Ajuda muito!
    vidademulheraos40.blogspot.com

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  9. O ambiente do hospital é terrível, o cheiro a cara dos doentes o ar carregado das vistas, o medo cheira-se e sente-se.
    Quando a minha avó esteve no hospital eu ia lá todos os dias quando saia do trabalho e ficava até as enfermeiras me fazerem sair, já tarde.
    Ia na hora do jantar pois bem sabia que ela não ia comer nada se eu não estivesse lá.
    dizia "todos os dias a mesma comida" e eu dizia "não hoje é feijoada ou hoje é frango assado" só na brincadeira é que comia.
    Depois havia as outras velhotas que também já esperavam por mim para o jantar.
    Até que nos viemos embora para casa, o pior nesse dia foi ver quem fica e não têm ninguém que os vá visitar.


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  10. Fico feliz por vcs!!

    Eu muitas vezes falo assim com o meu pai, mas ao contrário...para não comer o que lhe faz mal...

    E ele sai-se com "mas quem é esta macaca do fogo para me dar ordens??" ;)

    Também me incomoda o hospital, as visitas ao hospital...há demasiada dor ali...

    bjs

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  11. Estás no ponto de viragem, em que os nossos pais começam ser um pouco nossos filhos... Também já entrei nessa fase, e os meus têm apenas 58 e 59 anos. :)

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  12. Fico contente pelo teu pai estar a reagir bem :O)
    Infelizmente sei o que é ser mãe da nossa mãe, também já inverti os papéis. Foi mau, muito mau, mas por outro lado, fiquei feliz porque quando a minha mãe precisou de ajuda me tinha a mim e à minhas irmãs para a ajudar. Tristes as pessoas acamadas que não têm quem as ajude nestas alturas.
    Já me alonguei demasiado.
    Beijinhos e espero que o teu pai regresse a casa depressa.

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    1. Não te alongaste nada. É muito bom quando as pessoas têm quem as ajude.

      Já está em casa :)

      beijos

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  13. Apesar de não ser pelos melhores motivos, senti-me enternecida com a tua história. Bonitos os momentos em que por amor, os papéis se invertem.
    Desejo uma recuperação rápida.
    Beijos

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  14. Ainda bem que o teu pai está melhor!
    Sei o quanto essas visitas ao hospital são dolorosas e como o ar que se respira por ali é mesmo triste e pesado, mas depois acredito o quanto ficaste aliviado a ver que o teu pai está a reagir bem
    Melhoras e que ele regresse logo a casa e com essa boa disposição.
    :-))

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    1. O hospital tem um ambiente muito pesado.

      Já está em casa e bem-disposto.

      Obrigado :)

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  15. Pois é, às vezes os papéis invertem-se. Saudínha da boa!!!

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  16. Eu sei o que falas, estive 5 semanas interna... Custa, chega-se ao ponto de não se ter vontade de comer.

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  17. Esta coisa de segurar as lágrimas hoje não está fácil...e aqui estou eu outra vez a chorar ao ler um post, é a segunda vez hoje. Fico tão feliz por ti, pelo teu pai, por todos...acho muito bem que os papéis se invertam:) Que um pai possa contar com o filho para o obrigar a comer e já agora fazia-me jeito ter aqui as minhas meninas a abraçar-me e a dizer-me baixinho "vai passar, mamã, eu sei que vai...", como estou sózinha...não me parece que passe, hoje falta-me tudo...

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    1. Espero mesmo que passe. E que elas te digam depressa o que mais queres ouvir.

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  18. hsb...
    fico feliz por estar tudo "melhor" que assim continue
    muitos beijinhos

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  19. :) Ainda bem que o teu pai está a melhorar!
    Beijinhos

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  20. Ainda bem que tudo está a ficar bem :)
    Sim, o ambiente do hospital consegue ser carregado e triste... Mas acredita que se faz (e muito) para que o sofrimento seja o menor possível e que os dias sejam menos cinzentos. Uma palavra de conforto, um sorriso, é o que eu tento levar todos os dias para aqueles que estão na enfermaria.

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  21. Que sorriso enorme nos causas, HSB! :)))

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  22. As trocas de comida nos hospitais é constante. Recordo-me de ser operada ao nariz (por causa de sinusite) e como não conseguia saborear a comida trocava com a senhora da frente. Ehehhe. Ela fica toda contente e para mim não havia qualquer problema.
    A dos pacotes de leite tb se aplica a mim. Recentemente estive internada e qdo davam leite ou suplementos hiper-caloricos dava-aos às senhoras que estavam no mesmo quarto. Felizmente que nesta última operação estive sem quatro dia sem comer, sempre a soro, pq senão vomitava-me toda... :D

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