Há notícias que lemos no ecrã do telemóvel e que nos obrigam a parar, a respirar fundo e a ler outra vez. Não por falta de compreensão, mas porque a nossa mente se recusa a aceitar que o ser humano seja capaz de tamanha frieza. O caso que correu o país, sobre duas crianças encontradas sozinhas na zona de Alcácer do Sal, perto da Comporta, é uma dessas histórias que nos esmurra o estômago.
Se tens filhos, vais perceber a revolta imediata. Se não os tens, o sentimento de injustiça é exatamente o mesmo.
O "jogo" que escondia o pior pesadelo
Duas crianças, de apenas três e cinco anos, de nacionalidade francesa. Dois irmãos que, àquela idade, deviam ter nos pais a sua bolha de segurança absoluta. Em vez disso, foram vítimas de um plano que parece saído de um filme de terror psicológico.
Segundo os relatos recolhidos pelas autoridades e a indispensável testemunha que os encontrou, os pais terão vendado os olhos aos miúdos. Disseram-lhes que iam jogar às escondidas, que iam fazer uma "caça ao tesouro" na floresta à procura de um brinquedo. As crianças obedeceram, com a inocência pura que a idade carrega. Quando tiraram as vendas, os pais já tinham desaparecido na Estrada Nacional 253.
O detalhe das mochilas que denuncia o plano
Alexandre Quintas, o automobilista que viu os dois irmãos a chorar e a deambular à beira da estrada por volta das 19h00, percebeu imediatamente que algo estava muito errado. Ao inverter a marcha para os socorrer, deparou-se com o cenário que qualquer um de nós teme encontrar: o desamparo total.
Mas há um pormenor nesta notícia da SIC Notícias que transforma este caso num ato premeditado e cruel. As crianças traziam mochilas feitas. Lá dentro? Uma muda de roupa, um pacote de bolachas, duas peças de fruta e uma garrafa de água. Isto não foi um "perdemo-nos na praia". Foi um kit de subsistência deixado por quem decidiu, deliberadamente, abdicar do papel de mãe.
O herói que olhou para o retrovisor
Num mundo onde tantas vezes seguimos viagem e ignoramos o que nos rodeia, a atitude de quem salvou estas crianças merece ser sublinhada. O instinto de proteção deste condutor — que olhou pelo espelho, estranhou o choro e a berma da estrada, e decidiu voltar atrás — evitou uma tragédia ainda maior. Aquela hora, o final do dia, com o tráfego da zona da Comporta, o desfecho podia ter sido fatal.
O caso está agora, e felizmente, nas mãos da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e das autoridades judiciais. Os pais já foram identificados.
Como homem e como cidadão, custa-me colocar em palavras o que sinto em relação a esta progenitora (e padrasto). A psicologia explica muita coisa, mas a frieza de transformar o abandono de um filho num jogo infantil é de uma maldade que não encontra justificação em dicionário nenhum.
Fica o alerta para todos nós: que nunca nos falte o instinto de olhar pelo retrovisor quando o mundo lá fora parece precisar de ajuda.