17.12.12

o embrulho engana


Ao longo da minha vida fui ensinado a não julgar as pessoas pelas aparências. A não avaliar o valor e a qualidade do chocolate pelo aspecto, melhor ou pior, do papel de embrulho. E, apesar de costumar acertar na primeira leitura que faço sobre alguém, costumo dar o espaço e tempo necessários para que se confirme ou altere aquilo em que pensei.

Esta minha forma de ser faz com que me desiluda facilmente perante falsas aparências. Acredito nas pessoas, nas suas aparentes convicções e acabo por ser iludido por uma realidade escondida. Isto é o que acontece na maioria dos casos. Os chamados casos perdidos. Confiança quebrada é algo que não tem solução para mim. Por mais voltas que se dê. Depois, existe o outro lado da moeda. Aquelas pessoas com quem não criei empatia no primeiro impacto mas que acabam por se revelar pessoas interessantes. Isto acontece-me poucas vezes e, curiosamente, quando sucede é com pessoas que acabam por ter uma presença marcante na minha vida.

Depois, há situações de falsas aparências sem qualquer importância na minha vida mas que me fazem sorrir. Tal como a que vivi hoje. Ao entrar numa bomba de gasolina deparei-me com uma empregada que tinha o típico aspecto rockabilly. Tinha os ingredientes todos. Penteado, acessórios e atitude. Um look a que até acho bastante piada. Além disto reparei na música que tocava num volume pouco comum para um estabelecimento comercial.

“Que pouco profissional”, pensei. “Acredito que goste deste tipo de músicas, tal como tenho as minhas preferências. Mas este volume é um exagero sem qualquer razão de ser”, prossegui. A verdade é que batia tudo certo. A música casava na perfeição com o visual. Era a conjugação perfeita. Só o local não era adequado para a atitude em relação à música.

Estava eu a pensar nisto quando descobri que o embrulho pode enganar. A dada altura, a funcionária pega no telemóvel e atende uma chamada. Nesse instante, a música que tocava em altos berros parou. Era o toque do aparelho, que nem sequer era dela. Era o telemóvel do local de trabalho que tocava sem parar. Pela primeira vez ouvi a música ambiente do espaço que era perfeita para o local em questão. Limitei-me a sorrir e a aprender, mais uma vez que as aparências iludem.

E este caso revela, pelo menos para mim, apenas que as aparências iludem. Quando menos se espera. E em episódios (e com pessoas) com maior ou menor importância nas nossas vidas. Cabe a cada um decidir o que fazer perante este cenário. Eu, desiludo-me diversas vezes. Mas não deixo que esses erros moldem o que vou pensar em casos futuros. Não coloco a hipótese “e se é igual ao que já aconteceu.” Porque, se assim fosse, não me aproximava de ninguém nem ninguém teria a possibilidade de se aproximar de mim. Vivia sozinho, no meu mundo a pensar que todos têm defeitos a mais para partilhar algo comigo. E seria infeliz. Prefiro errar, magoar-me e julgar alguém de forma errada. Custa mais, é certo. Mas dá um encanto e intensidade muito maiores à própria vida.

46 comentários:

  1. Eu raramente me engano em relação às pessoas.Chama-lhe feelings,não sei.Mas a verdade é que isso já me ajudou em diversas ocasiões.Não quer dizer que não me tenha já enganado em situações como a tua,na bomba de gasolina.Coisas banais.E depois envergonhar-me porque afinal não era nada daquilo que tinha pensado inicialmente.

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    1. Eu também costumo acertar à partida. Mas dou oportunidade para que me provem que estou errado. Acabo por me desiludir mas continuo igual.

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  2. Engana e muito. Mas olha, como é, o pai natal sempre entregas os presentes ou não? So falta uma semana!

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  3. Eu tenho o meu grupo de amigos há muitos anos e por isso não costumo estar à procura de novas amizades. De qualquer maneira, a verdade é que a última grande amiga que fiz começou por ser das pessoas mais irritantes que já tinha ouvido e, passado dois meses a ter que conviver com ela, dei por mim a rir-me das piadas dela, a achar que era uma castiça e uma boa amiga. Adoro estas boas surpresas. ;)

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  4. Será que quando a confiança é quebrada não há mesmo volta a dar? Se calhar toda a gente devia ter direito a uma segunda hipótese, mas falar é fácil e o difícil é voltar a confiar. E apesar de concordar com o que dizes, acho que por muito que conheças uma pessoa nunca a conheces totalmente, logo uma desilusão é possível a qualquer altura.
    Ou então sou eu que ando uma desconfiada do pior! :)

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    1. Eu defendo as segundas oportunidades para quem realmente as merece. Porém, quando quebram a confiança, não há volta a dar. A pessoa passa a ser diferente para mim.

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  5. Eu também aprendi a não julgar as pessoas.
    Quando entrei no secundário, fiz juízos de valor de uma rapariga. Confesso que, na minha cabeça, chamei-lhe uns quantos nomes que não são bonitos de dizer. Hoje, é das pessoas mais importantes da minha vida :)

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  6. Já tive várias surpresas, boas e más.
    Concordo, devemos dar a possibilidade das pessoas se revelarem.

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  7. Sou como tu. Tenho mente aberta sobre as pessoas. Mas à primeira desilusão, não volto a acreditar nessa pessoa. Continuo aberta às próximas e vou guardando uns poucos amigos por onde passo. As outras pessoas que não me interessam, deixo que passem ao lado.
    vidademulheraos40.blogspot.com

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  8. É verdade que muitas vezes fazemos uma leitura superficial das pessoas com quem nos cruzamos. Somos assim, é inevitável. A diferença está em ir além da leitura momentânea e superficial. Eu já me enganei MUITAS vezes.

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  9. eu tb me desiludo com muitas pessoas, que se fazem passar por aquilo que nao sao nem nunca foram...mas sou pessoa de dar oportunidades e nao meço tudo por igual. cada pessoa é unica. boa semana, bjo

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  10. Muito difícil restaurar a confiança depois de quebrada. Mas muitas vezes não são as pessoas que são diferentes do que parecem, somos nós que temos elevadas expectativas em relação a elas e não vemos o que tantas vezes está bem à vista.

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  11. Podem ser desilusoes que nos façam nunca mais querer ver essa pessoa, podem ser desilusoes em que as pessoas nos sejam completamente indiferentes e podem ser desilusoes "forçadas", em que queremos "arranjar" forma de nos "desiludirmos" com determinada pessoa porque a temos de manter longe, quer seja para nosso bem, quer seja para bem dela.
    Äs vezes temos de meter na cabeça que esta ou aquela pessoa é assim ou assado, para que a nossa sanidade metal (ou o nosso coraçao!!!) "fuja" e a transformem em alguem que na realidade nao existe! É mau, é doloroso, é injusto... Sim! é isto tudo! Podemos magoar a pessoa em questao e faze-la sofrer muito com o que estamos a fazer, mas nós também sofremos horrores... Só que esse sofrimento está "embrulhado" e só nós sabemos o que lá está dentro! ;)* (Isto dava pano pra mangas...)


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  12. devia de seguir o teu exemplo e voltar a dar-me às pessoas. eu fiz isso. foram tantas as desilusões que acabei por afastar-me do mundo, isolar-me. ainda por cima sou sensível de mais para o meu gosto e qd me magoam dificilmente me reconquistam.

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    1. Eu também sou assim mas nunca me fechei. Porque isso acaba por ser mau para mim que fico sozinho. É verdade que há muita gente má, mesquinha e falsa. Mas nunca podem ser mais importantes do que aqueles que nos fazem bem.

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  13. Sou muito de primeiras impressões. Tenho o mau hábito de conhecer as pessoas e automaticamente traçar um "perfil". Quando não vou à bola com a pessoa muito dificilmente mudo de ideias, muitas vezes porque nem lhes dou espaço para "corrigirem" essa primeira impressão. Tenho vindo a tentar mudar isso, e para já posso dizer que não tem dado grande resultado. Depois fico zangada comigo, porque tinha razão à primeira e insisti em contrariar-me.

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    1. Também já me aconteceu o que dizes. Aquele momento "Sou mesmo parvo. Já sabia que ia ser assim", mas tenta que isso não seja algo inibidor para novas pessoas que apareçam na tua vida.

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  14. Já contei esta história algumas vezes, mas acho-a tão engraçada que aqui vai: Sempre me considerei uma pessoa transparente e é assim que gosto de ser, quando gosto de alguém a pessoa fica a sabe-lo nos primeiros instantes, quando não gosto o mesmo acontece. Mas a vida ensinou-me que nem sempre estou certa. Em tempos conheci um senhor que era um péssimo profissional, eu embirrei com o senhor desde o primeiro segundo, mas ao longo do tempo que tive de trabalhar com ele fiquei a saber que muita da lentidão ao trabalhar, tinha a ver com um sério problema de saúde dele...deixei automáticamente de ter coragem para implicar com ele e esperava o tempo que fosse preciso. O senhor que inicialmente começava a suar assim que me via a aproximar, no fim do trabalho, já conversava comigo normalmente e até "brincavamos"...quando o trabalho terminou ele disse-me uma coisa que eu nunca mais esqueci:
    "Sabe, à segunda vista, a senhora é muito boa senhora!"

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    1. Que história deliciosa. E a verdade é essa. Muitas vezes aquilo que parece não é...

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  15. Convivência com o outro é mesmo isso, umas vezes dá desilusão, outras boas surpresas. O segredo está em tratar com igual importância o que é bom e mau.

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  16. Melhor não podias ter dito :) Temos a tendência de fazer julgamnetos p´révios e às vezes as supresas acontecem, porque realmente não é o embrulho que dfine o conteúdo :) Mas é impossivel não fazeremos estas pequenas apreciações e cabe-nos a nós apeesar de erros que possamos cometer, aprendeere com elees e estarmos de mente mais aberta numa próxima!
    Mas eu confesso-te que nestas coisas confio bastante no meu instinto....mais do que primeiras impressões interessa-me o "feeling" que etenho face a uma certa peessoa ou situação :)

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    1. Eu também tenho esses feelings. Mas continuo a acreditar nas pessoas :)

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  17. Aprendi a ver as coisas de outra forma...qd aos 17 anos um senhor chinês em plena rua Augusta começou a ir atrás de mim a tocar um sino...e a gritar bruxa...bruxa...
    Não me importo de ser, mas sou das boazinhas garanto :)

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  18. Estamos sempre a aprender, não é assim? É o dinamismo das relações humanas que nos surpreende e como é bom podermos ser surpreendidos diariamente pelas pessoas com quem nos vamos cruzando.

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  19. Quanto a mim não é por as pessoas nos desiludirem que nos fechamos ás relações humanas, dou sempre hipóteses não sei viver sózinha isolada do Mundo nem quero viver fechada no meu mundinho familiar somente. É óbvio que me desiludo muitas vezes e ás vezes das pessoas que de alguma forma fizemos bem e que menos esperávamos, mas aceito que isso faz parte de um processo de aprendizagem que é a vida. Não sou de desistir ás primeiras, mas quando me afasto dificilmente tem retrocesso ou pelo menos de igual forma.

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  20. Também sou assim, faço uma análise visual, nao ao visual.
    E normalmente nao me engano...quando acontece dificilmente me engano para melhor...mas vou-me sempre convencendo que somos intrinsecamente bons e que alguma coisa nos tornou menos bons...nem sempre mas pronto, vamos acreditado assim!

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  21. Eu adoro pessoas e vou adorar sempre!
    Já levei com muita desilusão nos queixos mas também já tive muitas alegrias, por isso vou continuar a gostar de conhecer pessoas e de aos poucos as ir descobrindo.

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  22. Verdade: as pessoas não devem ser julgadas pela aparência.

    Adoro o estilo rockabilly :)

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