9.10.13

is this love? (capítulo cinco)


Permaneciam no carro. Ela extasiada. Sorridente. Estava num carro. Mas a sua mente estava noutro lugar qualquer bem mais romântico do que o interior de uma viatura que tem um aroma, suave mas incomodativo, a tabaco. A companhia seria a mesma. Mas o cenário seria completamente distinto dos bancos de pele. Da manete das mudanças com uma bola preta com o número oito ao estilo da bola mais desejada dos jogadores snooker. Por ela, estariam a quilómetros dali. Numa praia idílica seria perfeito. Já ele divide-se num misto de sensações. Por um lado, a satisfação extrema perante algo que não passava de um simples sonho. Parece que não acredita que os corpos ainda há pouco minutos estavam colados numa sintonia perfeita, sendo apenas um. Por outro lado não percebe o que acabou de acontecer. Os motivos que os levaram até ali. Até porque, que ele saiba, ela tem um namorado.

Ela impediu-o de falar. Pediu-lhe um abraço. Disse não querer julgamentos. Eles respeitou tais pedidos. Mas a verdade é que há precisamente 23 minutos que não falavam um com o outro. Ele consegue precisar o tempo porque não tirou os olhos do relógio enquanto divagava no meio de tantas dúvidas. “Sei que me pediste para não dizer nada. E para não te julgar mas tenho de te perguntar isto. Não te vou julgar. Nem sequer questionar o que quer que seja. Mas preciso de saber porque decidiste fazer isto se tens namorado. Espero que percebas o que te digo”, disse. “Sabia que terias de falar nisso. No teu lugar faria o mesmo. Aliás, nem sei se tens alguém neste momento ou não. Mas digo-te que decidimos dar um tempo à relação depois daquela zanga. E isto que acabou de acontecer entre nós prova que não seria feliz com ele. Sou incapaz de voltar para ele. E, caso o fizesse, teria de contar o que tinha acontecido. E isso ia dar-lhe motivos para me chamar ainda mais nomes, para me acusar de ser uma oferecida e aposto que diria que tinha razão para desconfiar de ti. E isso é algo que não quero. Por isso, não tens que te sentir mal com nada”, referiu.

“Quero que fique bem claro que adorei o que acabou de acontecer entre nós mas sinto-me confuso. Fizeste com que me sentisse mal. Senti-me a maior merda do mundo. Vim ter contigo a medo e a noite acaba desta maneira. Neste momento comparo-te a um chocolate que acabei de desembrulhar e dar uma dentada. Sendo que não sei se vou comer o chocolate todo ou se alguém me vai roubar o bocado que falta”, tentou explicar ele num jeito atabalhoado. Algo a que ela está habituada porque ele nunca teve jeito para conversas destas. De sorriso nos lábios, ela disse perceber o que ele queria dizer. “Sabia que te queria. Sabia que desejava isto mas não planeei nada do que acabou de acontecer. O motivo que me levou a querer estar contigo foi outro”, explicou. “Como assim?”, perguntou ele com medo da resposta que podia ouvir.

“Sabes que sempre tive o sonho de sair de Portugal. De mudar de país. E soube ontem que fui seleccionada para trabalhar numa empresa de Miami. Sou uma das dez pessoas escolhidas para um estágio remunerado de dois anos. No final, ficam com três pessoas. Fui ter contigo para te contar isto. E também para me despedir de ti. Pois a partida é para a semana. Mas o desejo falou mais alto e...”, disse, sendo interrompida por ele. “Espera. Tu fazes com que me sinta uma merda. Depois fazes com que me sinta especial. E agora dizes-me adeus que vais para Miami. O que se segue? Vais perguntar se espero por ti durante este tempo todo?”, perguntou, visivelmente chateado.

“Eu não planeei isto. Desculpa. Cedi ao que sempre tinha controlado. E não me arrependo disso. Mas se quiseres que fique eu recuso a oferta. Basta que o digas. É o que queres?”, inquiriu. “Gosto muito de ti. Mais do que pensava ser possível. Mas estás a colocar o peso do mundo nos meus ombros. Estás a dar-me o poder de decidir a tua vida. De dar continuidade ou matar algo que sei que sempre quiseste. Isso é muito para mim”, respondeu. “Eu não quero nada disso. Só quero que me digas que me amas e que desejas que fique contigo. Se o disseres, o meu sonho passa a ser outro nesse preciso momento”, referiu. Ele levantou a cabeça. Olhou-a nos olhos. E a chorar respondeu... “Amo-te muito...” “Era isso que queria ouvir”, disse ela, interrompendo aquilo que ele dizia. “Espera. Amo-te muito. Mas não quero que fiques comigo. O teu sonho é maior do que qualquer amor. E não quero destruir nada. Nem quero que mais tarde me acuses de ter destruído algo. Agora sou eu que te peço que não digas nada”, disse-lhe, arrancando bruscamente com o carro.

A distância até à casa dela não era superior a cinco, seis quilómetros. Mas, para ambos pareceu a viagem mais longa e penosa do mundo. Não se ouviu uma única palavra. Nada. Apenas as lágrimas dela, que se seguiram às dele quando lhe disse que a amava mas que preferia que se fosse embora. Minutos mais tarde chegavam à rua dela. Ele parou o carro mesmo em frente ao prédio dela. “Por favor não me digas nada”, pediu-lhe. O choro dela acentuou-se. “Porquê? Acredita que não queria que esta noite fosse assim. Só quero ouvir-te dizer que não queres que apanhe o avião. Diz-me isso. Diz isso por favor. Se me amas diz”, pediu-lhe. “Já te disse. Amo-te muito mas quero que apanhes o avião e que sejas feliz a fazer o que tanto gostas”, foram as palavras dele. Ela abriu a porta e saiu. Antes, disse-lhe que o avião partia dali a seis dias, às 12h20. “Que tudo te corra bem. Irei amar-te para sempre”, disse, arrancando com o carro segundos depois. Ela, permaneceu imóvel, a chorar enquanto viu o carro desaparecer no escuro da noite.

32 comentários:

  1. Olá!
    Tenho vindo a seguir capítulo a capítulo esta estória, bem contada, de agradável leitura.
    Gosto!
    Aguardo novo desenrolar dos acontecimentos.
    Ainda faltam uns dias para a data da partida.
    Vamos esperar para ler o que acontece.
    Obrigada pela partilha.

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    1. Fico feliz por gostares :)

      Vamos ver no que isto dá!

      Obrigado eu.

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  2. Fantástico blog, vou continuar a acompanhar. Os homens não são todos iguais. Forte abraço

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    1. Ainda bem que gostas. E sim, os homens não são todos iguais.

      Abraço

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  3. "Cyborg"

    Doeu, porque foi exactamente o que pressenti, triste sina, parece a história da minha vida. Aguardo pelo restante desenrolar!

    Bjs

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    1. Não sei o que será da vida destes dois.

      beijos

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    2. "Cyborg"

      Nem eu. Tornou-se de repente tão incerto. Nem todas as histórias felizes duram, e existem outras que suportam a distância. Pelo menos na minha história, é uma certeza, após a partida, tudo ter-se-à terminado. Escolhas difíceis que exige discernimento quando o factor sobrevivência fala mais alto que todas coisas, inclusive o amor.

      Bjs

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  4. Estou sem palavras...
    Em parte, porque revi alguns momentos da minha vida nesse texto :/
    Mais uma vez a surpreender. Abraço

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  5. Gosto dele. Ama mas não prende... Não estava à espera deste desfecho.
    Espero por mais claro :)

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  6. Uiii... eu ja crio filmes na minha cabeça... ja tenho mil e uma ideias para um sexto capitulo.. oh.. adoro como escreves! :) Continua!!!
    Beijinho

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  7. "Espera. Amo-te muito. Mas não quero que fiques comigo. O teu sonho é maior do que qualquer amor. E não quero destruir nada. Nem quero que mais tarde me acuses de ter destruído algo. Agora sou eu que te peço que não digas nada”, disse-lhe, arrancando bruscamente com o carro." - Isto É amor... :)

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  8. Que... Totós.

    Ela colocou a decisão de viver os seus sonhos nas mãos de alguém por quem nem sabia estar "apaixonada" antes de ser arrebatada por um impulso carnal (meia hora antes, portanto). Ou, se quisermos, colocou as decisões da sua vida nas mãos de alguém em nome de um amor que se esconde atrás de uma relação com outra pessoa (o ex), e que espera pacientemente durante anos que essa pessoa cometa um erro para, então sim, se libertar mas avançar não para os braços do grande amor mas para uma despedida definitiva dessa pessoa. Interessante. Ou seja, ela não viu a grande relação amorosa em potencial que ali estava assim que ficou livre como um passarinho e tinha o cérebro a funcionar em pleno sem distracções de cariz... biológico, mas depois sim, já valia a pena atirar tudo para o ar para viver aquela linda história de meia-hora. Realmente, apesar de curto, foi um momento especial e único; ele não viveu a mesma coisa -- breve & carnal -- com 153 pessoas diferentes no último ano. Oh wait... Hmm...

    E por falar nele... Entretanto, ele que já a amava há imenso tempo (apesar de dormir com todas que lhe davam bola num raio de 100km) e até se metia nos copos no final do dia por causa dela (muito sofrimento), achou que continuar a enfrascar seria muito melhor opção do que fazer as malas e ir com o amor da sua vida viver um sonho dela (e potencialmente construir o seu, ao lado desse grande amor). Ou seja: "Amo-te... desde que não tenha de sair da minha zona de conforto, tonta. Isto de mostrar que se ama é muito cansativo e, convenhamos, eu até tenho uma lista simpática de números de amigas no ombro de quem chorar". E vai embora a mil a hora (esperou anos para ter aquela conversa com ela, mas assim que teve a chance: foi embora o mais depressa que pôde. Qual era a pressa? Fugir da possibilidade de compromisso que se abriu?), desejando-lhe que corresse tudo bem (ahahaha), e notoriamente estupidificado para achar normal deixar o amor da sua vida a chorar no escuro, no meio da rua!

    O amor deles é muito bonito, de facto :P

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    1. "achou que continuar a enfrascar seria muito melhor opção do que fazer as malas e ir com o amor da sua vida viver um sonho dela (e potencialmente construir o seu, ao lado desse grande amor)."

      Não podes fazer por menos... Tens que dizer aquilo que eu penso...! :$

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  9. Devem ser as minhas hormonas que andam malucas, mas quase choro com esta história... O amor, ou os Homens conseguem fazer coisas mesmo estúpidas!

    Escreves muito bem, Parabéns!

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  10. Uma história mesmo como eu gosto, e como já não leio há muito tempo... O problema? Continua a não dar para virar a página e ver o que vem a seguir...
    E como contra factos não há argumentos... fico à espera do próximo capitulo...

    Beijinho

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  11. Não gostei do término do capítulo cinco...achei-o meio que arranjado para continuar com a história...Que sonho de vida é este, que ela tem e só nos conta agora?...Ok não houve espaço para frizar, poderia ser...mas e a relação anterior evaporou?...ela largou o namorado assim, quase do nada?...Agora te amo mas tenho de partir...Não gostei do término do capítulo 5...
    Post Scriptum...A cena de sexo foi única!

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    1. Compreendo-te mas existem coisas sobre eles que ainda não foram contadas. Este sonho dela era uma delas. Vamos lá ver no que dá :)

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  12. Estou a acabar de conhecer este blogue. Estou a A-D-O-R-A-R!!!!
    Por um amor sem escolhas. Que o que haja para prender entre estas 2 pessoas seja o amor, somente isso.
    Felicidades :)
    Beijinhos

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