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2.10.14

is this love? (capítulo vinte)


O turbilhão de sentimentos continuava a pautar os batimentos do coração de Miguel. Por um lado, as boas notícias. O nascimento da filha e o estado de Alexandra davam-lhe alento e faziam-no sorrir. Por outro, temia o que poderia acontecer a Alexandra ao longo das próximas 48 horas e assustava-o a eventualidade da filha vir a ter problemas no futuro. Porém, depois do que tinha passado ao longo das últimas horas, percebeu que o momento era de alegria. As próximas horas não as podia controlar. E os próximos meses ou anos muito menos. E foi no momento mais importante da sua vida, o nascimento da filha, e em tudo o que representava para eles que se centrou enquanto caminhava para o primeiro encontro com a bebé.

“Está pronto para ver a sua filha?”, gracejou o médico. “Esperei a minha vida inteira por este momento”, respondeu Miguel com uma rapidez que deixava a nu o verdadeiro sentimento de cada palavra dita. “Força! Abra a porta e fique à vontade que só a sua filha é que está aqui. Agora vem a parte chata. Vou pedir-lhe que não demore muito tempo”, disse Marco Aurélio. “Não há problema”, referiu Miguel enquanto abria a porta, com o desejo de fixar os olhos na filha.

Assim que entrou no quarto, notou que duas enfermeiras estavam junto da bebé, o que impedia que a pudesse ver. Passo a passo, foi-se aproximando lentamente como alguém que tem medo de destruir tudo com um simples passo. Uma das enfermeiras reparou no excessivo cuidado de Miguel. “Pode aproximar-se à vontade. Não há problema”, disse com um sorriso no rosto. Miguel assim fez e quando se estava a aproximar a segunda enfermeira voltou-se para si, num momento que nunca esquecerá. Tinha a sua filha ao colo e entregou-a a Miguel “Aqui está o teu pai, princesa”, foi o que disse no primeiro momento em que pai e filha se viram.

Miguel chorou. Agora sim, tinha percebido o que era ser pai. Com receio pegou na filha. “És perfeita”, soltou num momento em que a alegria se misturava numa sintonia perfeita com as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. A bebé tinha acabado de nascer mas para Miguel tudo era nítido e facilmente perceptível. “Tens a beleza da tua mãe. És linda como ela. Tens o nariz dela. Os olhos dela. Tudo é dela”, pensava enquanto admirava a filha. Naquele momento tudo mudou para Miguel. A vida passou a ter um sentido que até então não existia. Tudo fazia sentido. E sentia já uma responsabilidade diferente. Sabia que a partir daquele momento existia uma vida que dependia de si. E encarava tudo isso sem qualquer medo. Ver a filha e sentir que a vida tinha mudado deu ainda mais sentido ao nome que entretanto tinha escolhido. “O nome é perfeito para ti. Aposto que a tua mãe vai adorar”, disse, beijando depois a filha antes de a colocar novamente nos braços da enfermeira.

Durante alguns minutos Miguel sentiu-se imóvel. Não conseguia deixar de olhar para a filha, o que fazia com que não se movesse. Até que o médico entrou no quarto. “Miguel, a Alexandra acabou de acordar. Quer ir ver a sua mulher?”, perguntou. “Claro!”, respondeu enquanto caminhava para junto do médico. Já no corredor, Marco Aurélio perguntou a Miguel como tinha sido ver a filha pela primeira vez. “É a melhor sensação do mundo. Tudo passou a fazer sentido na minha vida. Tudo encaixa na perfeição”, disse. “E a minha filha é a mais linda do mundo”, acrescentou, motivando uma gargalhada a Marco Aurélio. “Todos os pais dizem isto, não é?”, perguntou Miguel. “Sim. Mas aposto que cada pai e mãe sente essas palavras e isso é que importa”, explicou Marco Aurélio.

Chegara o momento de estar com Alexandra. Já no quarto, agarrou a mão da mulher e deixou-se contagiar pela alegria do momento que viviam depois do enorme susto. “Desmaiaste no carro e obrigaste-me a vir para aqui à pressa. Isto vai sair-te caro”, gracejou junto ao ouvido de Alexandra. “O que tens na mão?”, balbuciou Alexandra. “É o resultado do estado de nervos em que me deixaste. Não te preocupes que não é nada de grave. Descansa e não te preocupes com isto”, respondeu Miguel, antes que Alexandra fechasse os olhos e voltasse a adormecer. Miguel beijou-lhe a mão e sussurrou-lhe “Amo-te mais que tudo na vida” ao ouvido antes de sair do quarto.

Apesar de tudo estar a correr bem, Miguel recusou sair do hospital, preferindo ficar perto da mulher e da filha. Nos momentos em que estava acordado dividia o tempo entre os quartos das duas. Quando o cansaço era insuportável acabava por se deixar dormir num pequeno e gasto sofá branco que estava junto do quarto da filha. As horas continuavam a passar e tudo estava bem com Alexandra. Tal como a filha, com todos os exames a indicarem que estava em perfeitas condições de saúde. Aproximava-se o momento em que os três poderiam abandonar o hospital, dando início a outro capítulo – o mais importante – das suas vidas. Foi num dos momentos em que estava a dormir que foi abordado pelo médico. “A sua filha vai agora para o quarto com a mãe. Acredito que também queira ir”, disse, fazendo com que Miguel parecesse o homem mais desperto do mundo, tal era a ânsia do primeiro momento a três, agora que Alexandra estava melhor.

E lá foram, com Miguel com um passo muito mais apressado do que o médico. Marco Aurélio ainda tentou acompanhar Miguel mas este começou a correr em direcção ao quarto de Alexandra esquecendo por completo que estava num hospital. Nada mais interessava do que estar junto de Alexandra e da filha. E assim correu o mais rápido que conseguiu. Quando chegou ao quarto e abriu a porta encontrou a filha já nos braços de Alexandra. Miguel e Alexandra olharam-se nos olhos e nenhum conseguiu controlar as lágrimas. Mas, desta vez, pouco choraram. Os sorrisos e o brilho nos olhos acabaram por se destacar. Alexandra estava prestes a falar quando Miguel se aproximou para a beijar. “Amo-te muito”, disse-lhe antes que Alexandra pudesse dizer o que quer que fosse.

“A nossa filha é linda. É perfeita”, disse Alexandra.

“Olho para ela e vejo-te. Até a tua força encontro na nossa filha”, referiu Miguel.

“A Carolina vai ser muito feliz. Tenho a certeza”, acrescentou a mãe.

“Não se vai chamar Carolina”, soltou Miguel.

“Não?!? Não era esse o nome escolhido”, perguntou, com espanto.

“Era. E se quiseres mantém-se. Mas a forma como a nossa filha nasceu e as longas horas de angústia no corredor levaram-me a pensar noutro nome. Acredito que irás gostar”, contou.

“E qual é o nome que sugeres?”, perguntou.

“Hema”, respondeu.

“Com H”, acrescentou, expectante.

“Hema... Hema... Hema...”, foi repetindo Alexandra.

“Não gostas?”, questionou Miguel assustado.

“Gosto. Muito. Mas o que te levou a querer mudar?”, perguntou.

“A forma como o nascimento aconteceu. É um nome que serve para homenagear as duas”, explicou.

“Tem algum significado especial?”

“Significa Dourada. Tem origem grega e está associado a uma Santa. Além disso acredita-se que quem tem este nome tem uma sensibilidade fora do normal, que será uma pessoa que dificilmente se irá abaixo e que tem como missão salvar o mundo. Acho perfeito para vos homenagear”, justificou.

“Hema será. Adoro! Ouviste Hema? Nasceste há poucas horas e o teu pai já quer que salves o mundo”, disse sorridente.

“Mas há mais uma coisa que te quero dizer”, referiu Miguel.

“O quê?”, perguntou Alexandra.

“Sei que este não é o melhor sítio nem tinha pensado nisto. Mas vai de improviso”, disse.

“Estás bem?”, perguntou.

“Nunca estive melhor”, respondeu enquanto colocava um joelho no chão.

“Queres casar comigo e ficar comigo até ao final dos nossos dias? Até eu ser um velhinho insuportável?”, perguntou.

“Não devias ter um anel?”, brincou Alexandra.

“Pois é! É culpa do improviso”, disse, pegando numa garrafa de água de meio litro que estava ali perto. E de onde retirou o anel de plástico mais fino que prende a tampa.

“Aqui está ele”, referiu, enquanto colocava o anel improvisado.

“Está um pouco largo mas depois mandamos apertar”, gracejou.

“Queres casar comigo?”, voltou a perguntar.

“Não há nada que mais deseje na vida. Sim! Quero casar contigo. És o homem da minha vida”, respondeu antes de beijar Miguel.

“Este momento não podia ser mais perfeito. Nós os três é tudo o que sonhei”, disse Alexandra.

“Queres pegar na Hema?”, perguntou.

“Estava a ver que não perguntavas”, brincou.

“Não sei nem me importa se vais salvar o mundo. Salvaste-me e deste sentido à minha vida. E isso basta”, disse.

FIM

31.7.14

is this love? (capítulo dezanove)


O coração de Miguel batia como nunca antes tinha batido. Aquele era o momento mais intenso da sua vida. Era a altura em que, pelo menos era nisso que acreditava, ia saber o que se passava com Alexandra e com a filha de ambos. O seu coração batia tanto que parecia querer saltar do peito, rasgando a t-shirt que lhe cobria o tronco. “Doutor, não aguento mais. Diga-me por favor o que se passa”, disse Miguel. “Acompanhe-me por favor. Vamos conversar numa zona mais privada”, respondeu o médico mantendo a postura séria com que se tinha aproximado de Miguel.

Passaram a porta e caminharam mais alguns passos. Não mais de vinte. Como se tratava de uma zona de acesso restrito, o médico entendeu que poderia contar o que se passava a Miguel em pleno corredor, onde a probabilidade de serem incomodados não era grande. “Podemos ficar aqui a conversar que não seremos incomodados. “Ainda não me apresentei. Chamo-me Marco Aurélio e tenho estado a acompanhar a sua mulher”, disse. Miguel deu-lhe um aperto de mão que serviu também para interromper as palavras do médico. “Doutor, diga-me o que se passa que não sei nada”, implorou Miguel.

“Não lhe vou mentir. Foi algo grave o que aconteceu à Alexandra”, começou por dizer. Ao ouvir aquelas palavras, Miguel evitava, a todo o custo, chorar à frente de Marco Aurélio. “A Alexandra tem uma doença que se chama Pré-Eclâmpsia e que se caracteriza pela pressão alta”, explicou o médico. “Como assim?”, questionou Miguel. “Ela fez os exames todos e nunca acusou nada”, acrescentou. “Compreendo a sua indignação mas é algo que não é fácil de detectar e que só se manifesta no segundo ou terceiro trimestre da gravidez”, disse o médico. “Mas a situação fica pior”, prosseguiu Marco Aurélio. “É que a doença da Alexandra avançou para Eclâmpsia, uma patologia muito grave durante a gestação e que provocou a tensão alta e que pode levar à morte da grávida e do bebé”, explicou Marco Aurélio, num momento em que Miguel já não controlava as lágrimas.

“Não percebo doutor. Fizemos os exames todos. Fomos muito cuidadosos com tudo. Não percebo como é que isto foi acontecer”, disse Miguel já lavado em lágrimas. A conversa já se prolongava há alguns minutos. O tempo suficiente para que Miguel tivesse a lucidez necessária para compreender a situação. Analisando as palavras que ia ouvindo, Miguel mentalizou-se de que estava a ser preparado para uma má notícia. Era só nisso que pensava naquele momento. “Já me explicou o que se passou mas continuo sem saber como está a minha mulher. Acredito que todo o cuidado que teve na explicação foi para me preparar para algo que não quero ouvir. Por isso, força. Diga o que tem a dizer”, soltou Miguel, tremendo por todos os lados. “A Alexandra está bem. A sua mulher já está estável mas terá de ser controlada ao longo das próximas horas e terá de permanecer alguns dias no hospital”, pode ficar descansado”, disse Marco Aurélio.

Apesar do alívio, Miguel continuava a chorar. Se a má notícia não era sobre Alexandra, teria de ser sobre Carolina. “E como está a bebé?”, perguntou a medo. “Há pouco não me deixou explicar tudo sobre a doença. A Eclâmpsia resolve-se com o parto. Em alguns casos pode levar à morte da grávida, o que não aconteceu e também do bebé”, explicou Marco Aurélio, sendo prontamente interrompido por Miguel. “Está a querer dizer-me que a minha filha morreu? É isso”, insistiu.

“Não! Estou a querer dizer-lhe, apesar de não parar de me interromper, que já é pai. Que a sua filha já nasceu”, disse Marco Aurélio esboçando o primeiro sorriso da conversa. “Como? Importa-se de repetir?”, pediu Miguel. “Já é pai. A sua filha já nasceu”, voltou a dizer o médico. “Já sou pai”, gritou Miguel. Naquele instante, as lágrimas deram lugar aos sorrisos, acabando por abraçar o médico que devolveu o abraço. “Já sou pai! Já sou pai! Já sou pai!”, gritava vezes sem conta.

“Miguel, lamento interromper a sua alegria mas tenho mais coisas para lhe dizer”, disse Marco Aurélio. “Como lhe disse, a Alexandra terá de ser acompanhada e a sua pressão terá de ser monitorizada durante as próximas 48 horas mas não é tudo. Os bebés que nascem nestas condições têm quatro a cinco vezes mais probabilidade de ter problemas no pós-parto”, alertou. “Mas está tudo bem?”, perguntou Miguel. “Neste momento sim mas temos de dar tempo ao tempo”, disse o médico. “Quer ir ver a sua filha?”, perguntou.

“Claro que sim e garanto-lhe já que a bebé não terá qualquer problema pois tenho a certeza de que tem a força da mãe”, referiu Miguel aparentando toda a força e certeza que as suas palavras demonstravam. Enquanto caminhava ao lado de Marco Aurélio, Miguel era consumido por um pensamento. “Escolhemos Carolina mas esse não será o teu nome. Vais ter outro nome e aposto que a tua mãe vai querer”, era aquilo em que ia pensando enquanto caminhava para o primeiro encontro com a sua filha.

17.7.14

is this love? (capítulo dezoito)


Miguel permanecia sentado no chão. Com as costas encostadas à parede. E com a cabeça apoiada nos joelhos. As lágrimas eram cada vez em maior número. Apesar do barulho ensurdecedor do hospital, Miguel conseguia ouvir, com um estrondo muito mais sonoro do que o som mais audível do hospital, cada uma das suas lágrimas a bater no pavimento, onde acabavam por morrer. Pareciam blocos de cimento com toneladas de peso que eram largados do mais alto dos precipícios ao mesmo tempo que cada uma daquelas gotas parecia um pedaço da sua vida que o abandonava num reflexo do medo da morte das mulheres da sua vida.

A respiração ofegante e os soluços característicos de quem chora copiosamente permaneciam a um ritmo digno do mais rápido dos bólides que deslizam nas pistas de Fórmula 1. O inverso acontecia com cada batida do seu coração. Na realidade, o ritmo estava mais acelerado do que nunca. Mas essa realidade era imperceptível para Miguel. Para si, o coração estava prestes a parar. Ao mesmo tempo que cada batida, lenta e prolongada, se assemelhava a uma faca que era espetada no seu corpo. Para Miguel, o som das poucas batidas do seu coração tinham poder suficiente para fazer estremecer o hospital ao mesmo tempo que estilhaçavam cada um dos vidros do edifício.

Tudo isto fazia com que qualquer realidade que tivesse lugar naquele local fosse incompreendida por Miguel, que sentia o seu mundo desabar. Pela primeira vez na vida percebia o significado de ficar sem chão para andar, algo que já tinha ouvido algumas vezes mas que nunca tinha compreendido. Até que ouviu o seu nome ser chamado no intercomunicador do hospital. As lágrimas pararam nesse mesmo instante. Levantou-se e começou a correr sem direcção, procurando uma enfermeira, que acabou por encontrar no final do corredor. 

“Como está a minha mulher? Como está? Diga-me! Chamaram-me e quero saber como é que ela está”, dizia insistentemente, num tom de voz que não era o seu. “É o senhor Manuel?”, perguntou a enfermeira. “Não. Chamo-me Miguel e acabaram de chamar o meu nome. Como está a minha mulher?”, insistia. “Peço desculpa mas deve ter feito alguma confusão. Fui eu que falei no intercomunicador e chamei o senhor Manuel. Peço-lhe que aguarde mais um pouco, até que o chamem”, disse a enfermeira, não se mostrando muito afectada com o estado do homem que tinha à sua frente. Não por falta de compaixão mas uma defesa que tinha construído ao longo de anos a lidar com momentos menos positivos.

A energia que levou Miguel até à enfermeira desapareceu no momento em que teve a noção de que nunca tinha sido chamado. Que era apenas uma ilusão. Lentamente, passo a passo, arrastou-se até uma máquina de vending que vislumbrou no final do corredor. O caminho era curto mas Miguel conseguiu fazer dele uma maratona que parecia não ter fim.  Quando lá chegou, levou a mão ao bolso direito dos jeans velhos e rasgados, retirando as moedas que tinha consigo. Voltou a colocar o dinheiro no bolso, ficando apenas com uma moeda de um euro na mão. Moeda essa que introduziu na máquina para retirar uma garrafa de água. 

Sem grande atenção reparou que as águas estavas distribuídas por dois andares da máquina. E que nesses mesmos andares constava o número 23, que seleccionou. A máquina fez o tradicional barulho dos momentos em que entrega o produto. Num estado meio adormecido, Miguel levou a mão ao compartimento onde deveria estar a garrafa de água. Apalpou esse mesmo espaço que não tinha nenhum artigo para recolher. Não tinha reparado que o corredor 23 da máquina estava vazio e que tinha acabado de perder um euro. Para Miguel era a máquina que tinha defeito e não um erro cometido por si.

Num acto injustificiado de fúria deu um violento murro no vidro da máquina. A força foi tanta que o partiu, cortando-se na mão esquerda que começou imediatamente a sangrar perante o olhar de espanto das pessoas que estavam naquela zona. Pouco tempo depois aproximou-se uma enfermeira, a mesma com quem tinha estado anteriormente. “Está tudo bem?”, perguntou. Miguel começou a chorar. “Quero saber como está a minha mulher e a minha filha e ninguém me diz nada”, soluçou entre as lágrimas que escorriam pelo rosto. “Não se preocupe com os vidros. Já chamo alguém para os limpar. Acompanhe-me que vamos tratar dessa mão que tem um corte feio”, referiu. Miguel ficou sentado numa sala perto da porta onde Alexandra tinha entrado, deitada na maca. Recusava-se a afastar-se daquele local. “Calma, que vai correr tudo bem”, disse a enfermeira para o tentar acalmar, enquanto tratava do corte. “Nem lhe perguntei o nome”, disse Miguel. “Chamo-me Paula”, respondeu a enfermeira. “Obrigado pelo que está a fazer”, acrescentou.

Foi então que a porta se abriu.  À frente de Miguel surgiu um médico. “Miguel?”, perguntou. “Sim, sou eu”, respondeu sem esconder o medo que o consumia naquele que era o momento mais doloroso da sua vida. “Pode acompanhar-me, por favor”, disse com um ar sério. “Que se passa? Como estão elas?”, insistiu. “É melhor acompanhar-me”, respondeu o médico sem grande entusiasmo.

5.6.14

is this love? (capítulo dezassete)


“... uma menina. Vão ter uma menina”, foi o que ouviram. Naquele instante, as lágrimas escorreram pelo rosto de ambos. Miguel aproximou-se para beijar Alexandra. Quando se preparava para se afastar, foi puxado pela namorada. “Eu disse que era menina. A Carolina vai dar-te muitas dores de cabeça que vai partir muitos corações”, sussurrou-lhe ao ouvido, fazendo que um sorriso se misturasse com as lágrimas que lhe continuavam a escorrer pelo rosto.

Miguel, desde que soube que ia ser pai, sonhava ser pai de um menino. Imaginava-se a jogar futebol com o filho. Tal como idealizada um vasto leque de actividades que todos os pais fazem na companhia dos filhos. Porém, no momento em que soube que seria uma menina, automaticamente esqueceu aquilo que desejava até aquele momento. Até parecia que sempre tinha sonhado ser pai de uma menina. Tudo aquilo que imaginava deu lugar a tantas outras coisas que já sonhava fazer ao lado de Carolina.

Pouco tempo depois estavam prontos para abandonar o consultório. Estava tudo dentro do que era esperado e a felicidade de Alexandra e Miguel era total. Tanto que parecia que eram as duas únicas pessoas no mundo. “Sabes o que me apetece?”, disse Alexandra. “Acho que consigo adivinhar. Aposto que queres ir a Belém comer pastéis”, respondeu Miguel. “E o teu desejo é uma ordem para mim”, gracejou perante aquele que era o primeiro desejo de grávida de Alexandra.

Já em Belém, fizeram aquilo que tinham por hábito fazer. Quatro pastéis, dois para cada um, e um sumo de manga laranja que dividiram. E como era habitual, Miguel não resistiu a fotografar as bandejas cheias de pastéis de nata. Quer dizer, de Belém, pois sempre que dizia que eram de nata era corrigido pela namorada que tinha naquele doce o seu bolo preferido. “Não te cansas dessa foto?”, disse. “Não existem duas fotos iguais e existem espaços que nunca se esgotam. Este mar doce é um exemplo”, brincou.

Seguiu-se o passeio pelos jardins e uma ida ao Padrão dos Descobrimentos, onde tiraram aquela que tinha tudo para ser apenas mais uma selfie de ambos mas que acabou por ser especial. “nós e a Carolina”, foi o que Alexandra escreveu na legenda da fotografia que partilhou no instagram e onde se destacava o sorriso de ambos, o Tejo, a ponte 25 de Abril e também o Cristo Rei. As horas foram passando e acabaram por ir jantar ao restaurante preferido de ambos, em Lisboa.

Os dias, semanas e meses que se seguiram quase que podiam ser uma cópia exacta do dia que tinham vivido. A gravidez era tranquila. Sobressaltos e sustos eram praticamente nulos. Pelo menos a que dessem atenção. Tal como os enjoos que Alexandra tanto temia e que eram pouco frequentes. Tudo corria bem. E aquilo que faltava em matéria de enjoos, era compensado em desejos. Miguel perdeu a conta às idas a Belém, nem que fosse para comprar apenas um pastel que levava para casa. Ou as idas ao Santini para comprar caixas de gelado de Framboesa e outras tantas de Meloa, a combinação preferida de ambos.

E assim foi até à chegada da 38 semana de gravidez. Quando os enjoos começaram a aparecer com frequência. Quando Alexandra começou a conviver com a sensação de zumbido nos ouvidos. O peso tinha aumentado subitamente em dois dias. O que acabou por preocupar Miguel. “Vou levar-te ao hospital. Não podes estar assim”, disse. “Não quero ir. Quero descansar”, respondeu Alexandra. “Vais. Veste-te e vamos”, insistiu.”Tens as mãos inchadas e a cara também”, realçou Miguel, colocando a mão na testa de Alexandra. E de certeza que estás com febre. “Despacha-te e vamos já embora”, continuava a insisitir, cada vez mais nervoso.

Já no carro, tudo piorou. “Estou a sentir-me muito mal”, disse Alexandra, desmaiando segundos depois de proferir aquelas palavras. Miguel acelerou. Cada vez mais. Com os quatro piscas ligados e a buzinar sempre que se aproximava de um carro. Só medo conseguia ser maior do que o desejo de rapidamente chegar ao hospital. Miguel parou o carro à porta das urgências, saindo do mesmo aos gritos. “Ajudem-me! Ajudem-me! A minha mulher está grávida e desmaiou”, gritou do fundo dos seus pulmões.

Prontamente foi auxiliado e Alexandra já estava deitada numa maca mas sem qualquer reacção. Miguel não deixava a mulher. Gritava por ela como quem transforma as suas palavras em energia para acordar alguém. Porém, o seu esforço era inglório. Miguel foi até onde pode. Acabando por ser impedido de continuar ao lado de Alexandra. “Peço-lhe que fique aqui. Assim que tiver notícias da sua mulher venho ter consigo”, disse a enfermeira. Miguel encostou-se a uma parede, deixando o seu corpo deslizar pela mesma. Já sentado no chão, chorava como nunca tinha chorado na sua vida.

3.4.14

is this love? (capítulo dezasseis)


Alexandra acabara de sair do consultório. O medo de que tivesse algum problema ou pior, que o bebé tivesse algo grave tinha dado lugar a um alívio que se traduzia em alegria que por sua vez se espelhava num rasgado sorriso. Mesmo depois do telefonema para Miguel, a avisar que tudo estava bem, não conseguia parar de sorrir, atraindo os olhares das pessoas com quem se cruzava enquanto caminhava. A sua alegria era de uma rara dimensão. Tanto que quem olhava para Alexandra não evitava esboçar um sorriso, como que contagiado pelas suas boas vibrações.

Nem o facto de estar a ser consumida por uma nova dúvida fazia com que o seu sorriso esmorecesse. “Gostava tanto que fosse uma menina”, era aquilo em que pensava. “As roupas são mais giras. A oferta é muito maior e sempre quis ter uma menina. Já estou a imaginar, nós duas a escovar os cabelos uma da outra. Vai ser tão giro”, era aquilo que ia dizendo numa espécie de monólogo que em alguns momentos chegava a ser audível, apesar de Alexandra pensar que não passavam de meros pensamentos despidos de som.

Pouco tempo depois chegava a casa. Meteu a chave à porta e assim que a abriu encontrou Miguel. Quando os olhos se cruzaram, ele chorou. Nada disse e abraçou-se à namorada. Continuavam sem nada dizer. Mas o abraço dele ia aumentando de intensidade. Era cada vez mais forte. Mas Alexandra não se sentia apertada. Sentia-se protegida. Agarrada pelas duas únicas mãos do mundo que conseguem exercer esse poder sobre ela. O abraço foi ficando cada vez mais fraco. Não que Miguel quisesse largar Alexandra. Mas porque queria passar a mão na barriga da namorada. 

Meio tímido, com o receio típico de um homem que praticamente nada sabe sobre a gravidez e que teme que qualquer acto, por mais banal que seja, possa ser prejudicial, tocou ao de leve na barriga de Alexandra. Apenas com uma mão. Que gentilmente e suavemente percorria o ventre da namorada. As lágrimas continuavam a escorrer pelo seu rosto. E as palavras ganharam vida. “Tinha tanto medo que algo estivesse mal. Só pensava em coisas parvas”, sussurrou-lhe ao ouvido. “Está tudo bem. Não vale a pena ficares assim. Já passou”, respondeu Alexandra, num tom igualmente baixo, enquanto passava a mão pela cabeça de Miguel.

Já mais calmos, deram continuidade ao resto do dia. E todo aquele medo acabou por se diluir com o passar dos dos minutos. Até que deixou de existir. E assim foram os dias seguintes. E as semanas que se seguiram. Depois de muito tempo de turbulência e de amores e desamores, Alexandra e Miguel concordavam que viviam aquela que era a melhor fase das suas vidas. “Se um dia, um pintor quiser passar a perfeição para um quadro, pode vir ter connosco e passar este momento para uma tela. Se existe perfeição, é isto que estamos a viver”, costumava dizer Miguel. Alexandra desatava às gargalhadas. Emocionava-se com o que ouvia mas escondia essa emoção no sorriso como quem tem medo de estragar aquilo que tem. “Não te rias que estou a falar a sério”, acrescentava Miguel sem perceber que a atitude da namorada era uma mera defesa.

Os momentos tranquilos eram agitados quando decidiam falar sobre o sexo do bebé. Para Alexandra, seria uma menina. Por sua vez, Miguel queria um menino. “Vai ser uma menina linda como a mãe. Vai chamar-se Carolina. E vai ser o teu terror quando crescer pois vai partir muitos corações”, gracejava Alexandra. “Isso querias tu. Vai ser um menino. Vai chamar-se Bernardo e vai ser o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Vai ser capitão do Benfica, onde vai conquistar muitos troféus. Apesar das propostas milionárias, vai ficar sempre no clube do seu coração e vai ser campeão do mundo por Portugal”, respondia Miguel. “Adoro essa tuas divagações. Olho para ti e facilmente percebo que imaginas detalhadamente aquilo que dizes”, referia Alexandra.

“A roupa para as meninas é muito mais gira, assim temos mais por onde escolher”, defendia Alexandra. “Nisso tens razão mas vai ser um menino e vai ser lindo como o pai”, insistia Miguel. Assim eram passados os dias do casal. As discussões em torno do sexo do bebé era constantes. E talvez por causa delas, tanto Alexandra como Miguel nunca abordavam a remodelação do quarto, até então escritório, para receber o primeiro filho de ambos. Nem sequer compravam roupa ou acessórios. A excepção era uma única chucha que criava a ilusão de que o bebé tinha um farto bigode. De resto, ocupavam o tempo com as argumentações que serviam para justificar o porquê de desejarem uma menina e um menino.

De conversa em conversa, o tempo foi passando. E rapidamente chegou o dia da ecografia das 16 semanas onde Alexandra e Miguel iam ficar a saber o sexo do bebé. Enquanto se deslocavam para o consultório, continuavam a discutir, de forma animada. “É uma menina”, dizia Alexandra. “É um menino”, dizia Miguel num longo diálogo que não passava da repetição destas curtas frases. Chegaram na hora marcada. Não tiveram que esperar muito tempo e pouco tempo depois estavam a segundos de finalmente saber se era uma menina ou um menino. “Parabéns, vão ter....”

20.2.14

is this love? (capítulo quinze)


Alexandra tinha saído do consultório há aproximadamente meia hora. Mas não tinha rumado até casa. Continuava a deambular pelo jardim situado nas proximidades da clínica. Local onde tinha brincado, em pequena, algumas vezes com o seu pai nos dias em que a mãe tinha consulta. Irrequieta, não aguentava mais de dez minutos quieta e o jardim era a única solução que o pai encontrava. Apesar daquele espaço lhe trazer boas memórias, não se lembrava de nenhuma. Só pensava nas palavras da ginecologista.

Enquanto os alertas da médica ecoavam na sua cabeça pensava se estaria tudo bem consigo. Melhor, acreditava que tudo estava mal consigo. Desde tenra idade que Alexandra tinha a mania das doenças. Ao mínimo sintoma imaginava o final do mundo e da sua vida da forma mais trágica e cruel possível. Neste caso, o pânico era a dobrar. Temia por si e sobretudo pelo bebé. “E agora? O que vai ser de nós”, dizia vezes sem conta num tom de voz mais alto do que imaginava, o que fazia com que as pessoas do jardim olhassem para a mulher que não parava quieta enquanto falava sozinha.

Quase três horas depois do final da consulta chegou a casa. Assim que entrou, deu de caras com Miguel que olhava para si de forma assustada. “Será que se nota que tenho algum problema?”, pensou Alexandra, num dos típicos momentos em que era controlada pela mania das doenças. “Só agora? Já estava a ficar preocupado contigo. Está tudo bem?”, perguntou Miguel. “Só agora! Como assim?”, respondeu, não tendo a mínima noção de que a consulta já tinha terminado há muito. “Sim, a consulta não era às três? Já passa das seis. Estava preocupado”, disse.

Alexandra ficou mais aliviada e para esconder a sua mania das doenças optou por improvisar e mentir para se justificar. “Aquilo atrasou muito. Já estava farta de esperar. E a consulta foi muito demorada. Levei um raspanete porque não ia lá há muito”, referiu. “E está tudo bem com vocês?”, insistiu Miguel. “Sim. Mas como andava desleixada com as idas à ginecologista vou ter de fazer umas análises complementares. Amanhã trato disso”, disse Alexandra.

Miguel respirou de alívio. Já Alexandra, fazia os possíveis para esconder a sua faceta que dava a entender que tudo estaria mal. O resto do dia foi passado assim. Com Alexandra noutro planeta onde só existem doenças e mais doenças. Miguel dormiu praticamente a noite toda com a mão apoiada na barriga da namorada. Alexandra estava sempre a acordar por causa dos nervos e da ansiedade. Pouco passava das seis da manhã quando Miguel acordou com barulhos que ouvia.

Era Alexandra que já se despachava para fazer as análises. “Que estás a fazer a esta hora?”, perguntou Miguel. “Estou a despachar-me para ir para a clínica. Sabes que abre às oito e quero ser das primeiras para me despachar”, justificou. Miguel riu-se. “Mas ainda nem são sete horas e a clínica fica a dez minutos daqui”, acrescentou enquanto olhava para o relógio. “Anda deitar-te mais um pouco hipocondríaca. Ou deves pensar que não sei que estás toda nervosa com medo de que algo esteja mal”, disse. “Parvo!”, foi o que Alexandra disse enquanto atirava uma almofada para cima do namorado.

Vinte minutos depois da sete e Alexandra já estava à porta do posto. Tinha sido a primeira a chegar. Poucos minutos depois chegavam duas velhotas. “Bom dia menina! Também está com medo de que venha muita gente?”, perguntou uma dela. “Bom dia! É verdade. Quero despachar-me porque vai ser um dia muito comprido para mim”, respondeu, mentindo. “É pouco comum ver aqui meninas da sua idade a esta hora. Nós já somos clientes da casa, não é Alzira?”, disse, provocando um sorriso geral. “Daqui a pouco devem chegar mais pessoas mas tudo da nossa idade”, acrescentou. E assim foi.

Às oito já estava mais de uma dezena pessoas mais velhas à porta da clínica. Alexandra era a única da sua faixa etária. Mas dava-se por contente. Ia ser a primeira a ser atendida e isso era o que mais queria. Meia hora depois estava despachada. “Quando é que os resultados chegam?”, perguntou. “Assim que chegarem recebe uma mensagem para os vir levantar mas deve ser coisa de três dias, no máximo”, disse a funcionária.

As horas foram passando. Os nervos não se alteravam. “O que será que tenho? Nunca mais mandam a maldita mensagem”, disse para os seus botões, no próprio dia que tinha ido à clínica. O tempo foi passando. Nada mudava. Os mesmos nervos. As mesmas questões. Até que ao segundo dia o telemóvel tocou. “Chegaram os resultados dos seus exames. Pode passar na clínica para levantar os mesmos. Obrigado”, foi o que leu. Depois, foi a correr para a clínica.

Apesar de ter a mania das doenças, Alexandra era incapaz de ver os resultados dos exames e análises que fazia. Nem sequer tinha coragem de tentar ver se os valores estavam dentro do que é normal. Assim que saiu da clínica, ligou para a ginecologista. “Já tenho os resultados. Quando posso marcar a consulta?”, perguntou. “Foste rápida Xaninha. Ainda bem! Tive uma desistência e tenho vaga daqui a duas horas. Podes vir?”, disse. “Claro que sim. Até já.” Desligou o telemóvel foi logo para a clínica. Quando faltava uma hora e meia para a consulta.

“Já por aqui?”, perguntou a assistente. “Estava perto e não tinha nada para fazer”, respondeu, mentindo novamente. Até que chegou a sua vez. “Pode entrar agora”, foi o que ouviu. O seu coração batia mais rápido do que nunca. “Olá Xaninha! Tudo bem? Senta-te e mostra lá os resultados daquilo que te pedi”, acrescentou a médica. Num gesto extremamente rápido, Alexandra entregou o envelope à médica. Fitou os seus olhos enquanto fazia figas com as mãos escondidas do olhar da sua ginecologista.

“Ora bem. Deixa cá ver”, disse a médica com aquele ar característico dos médicos que observam resultados de exames à frente dos pacientes enquanto arrastam a voz. Alexandra respirava fundo. “Está tudo bem”, foi o que ouvi da médica, para seu alívio. “Mas a partir de agora não aceito desleixo nenhum. Combinado?”, perguntou. “Claro que sim. Pode ficar descansada”, disse Alexandra. À saída, fala com a Carla que te irá dizer quando tens de vir cá novamente. Alexandra assim o fez. Mas nem se lembra de o ter feito.

Já na rua, ligou a Miguel. “Já tive consulta e está tudo bem comigo e com o bebé”, disse com um enorme sorriso no rosto. “Ainda bem. Sei que deves ter ficado bastante nervosa. Agora relaxas. Até já, amo-te muito”, referiu Miguel. Mas Alexandra não relaxava. A dúvida que a consumia agora era outra. “Menino ou menina? Queria uma menina”, era aquilo em que pensava.

30.1.14

is this love? (capítulo catorze)


Alexandra e Miguel permaneciam no carro. Ela, totalmente nua, deitada no peito dele. Que por sua vez estava com as calças de ganga puxadas para baixo, apoiadas nos All-Star vermelhos. E com as costas, despidas e ligeiramente transpiradas, apoiadas no banco que é de Alexandra, pois Miguel tem por hábito ser o condutor. O silêncio era tão profundo que se conseguiam ouvir as batidas dos corações de ambos. “Não te queres vestir? Ainda aparece aqui alguém e vê-nos neste estado”, disse Miguel. “Não faz mal. Deixa-me estar assim. Em paz. Gosto de sentir o movimento do teu peito quando respiras ao mesmo tempo que me embalas com as batidas do teu coração”, respondeu Alexandra.

Tentando mexer-se o mínimo possível, Miguel esticou-se para agarrar a t-shirt que estava amarrotada no banco de trás do carro. Como o banco onde estavam estava deitado ao máximo, não foi necessário um grande esforço para agarrar na peça de roupa que utilizou para tapar o tronco de Alexandra. “Estás com medo que me vejam nua?”, brincou ela. “O teu peito está encostado ao meu, por isso ninguém te vê as mamas. E, para verem o rabo tinham de se aproximar muito do carro passando certamente aquele limite que nos assusta e que faz com que entremos para o livro de recordes do Guinness como o casal que se vestiu mais depressa dentro de um carro, estando os dois no mesmo banco”, gracejou ele.

O silêncio apoderou-se novamente do carro. Os corações voltaram a ouvir-se. E a bater numa perfeita sintonia. Alexandra rapidamente se deixou dormir. Miguel garante que não. Diz que estava a fazer contas de cabeça. Mas a verdade é que ambos dormiram mais de uma hora dentro do carro. Alexandra foi a primeira a acordar. De frio. Depois foi a vez de Miguel. Que continuava a garantir estar acordado. Foi já a caminho de casa que Alexandra se lembrou que tinha algo para contar ao namorado. “É verdade. Tinha-me esquecido de te dizer que amanhã tenho consulta na ginecologista. Aliás, deve ir dar-me na cabeça que não vou lá há muito tempo”, referiu. “És sempre a mesma coisa. Pensei que o tempo a idade fossem mudar essa maneira de ser. Sabes que não gosto nada desse deixa andar”, resmungou Miguel.

Já na cama, Miguel aproximou-se da namorada. Alexandra estava quase a dormir. Miguel começou a insinuar-se. Acariciando o peito com a mão direita, ao mesmo tempo que colocava a mão esquerda por dentro das calças do pijama de Alexandra. “Estás insaciável?”, perguntou ela. “Não te resisto”, respondeu ele, usando todos os truques possíveis para despertar Alexandra. Algo que não exigiu muito esforço da sua parte pois o desejo dela era ainda maior do que o dele. Segundos depois Alexandra estava nua, tal como Miguel. Ouviram-se gemidos de prazer. De ambos, que não se importaram com a possibilidade dos vizinhos partilharem sonoramente aquele momento íntimo.

Quando Alexandra acordou, já Miguel estava pronto para sair de casa. “Não consigo ir contigo ao médico. Não me tinhas dito nada e não consigo desmarcar a reunião com o Jorge, por causa daquele projecto de que te falei que nos pode dar algum dinheiro”, explicou. “Eu sei”, disse Alexandra entre bocejos. “Boa sorte. Espero que tudo corra bem na reunião”, acrescentou. Miguel beijou Alexandra, despediu-se e saiu de casa. Já ela, voltou a adormecer. E na cama ficou mais algum tempo.

As horas foram passando. Alexandra chegou ao consultório. Nervosa pelo que iria ouvir da ginecologista da família. Afinal, quase que nem se lembrava da última vez que tinha ido a uma consulta de rotina. “Dona Alexandra, pode entrar”, ouviu da boca da assistente da Drª Ana Sousa. Assim que fechou a porta do consultório, ouviu logo a voz mulher que continuava a chamar-lhe Xaninha. “Bons olhos te vejam Xaninha. Andavas desaparecida”, disse. “Pois...”, respondeu Alexandra, dando aquela resposta típica de alguém que não sabe o que dizer. “Que te traz por cá? Consulta de rotina?”, perguntou. “Mais ou menos... Estou grávida”, soltou Alexandra.

“Grávida?!?”, foi o que a médica disse com uma cara de espanto que Alexandra nunca esquecerá. “Dá cá dois beijinhos Xaninha. Os meus parabéns. E agora vem a parte profissional. A gravidez foi planeada?”, inquiriu. “Não. Aconteceu. Mas estou muito feliz com esta gravidez”, revelou Alexandra. “Não era isso que queria insinuar. É que é aconselhável fazer alguns exames de rotina para perceber se está tudo ok com a mulher antes da gravidez. E tu, pelo que vejo aqui na tua ficha, não fazes exames há muitos anos”, disse. “Pois...”, foi aquilo que Alexandra disse novamente por não saber o que dizer de modo a alterar o ar de reprovação que via nos olhos da sua médica.

Além da conversa e do raspanete, Alexandra foi sujeita a alguns exames. Além disso, a médica solicitou ainda que fossem feitas algumas análises complementares, já que nada fazia há muito tempo. Quando tiveres os resultados das análises, marca consulta e volta cá. Alexandra saiu assustada do consultório. A conversa da médica tinha provocado um receio inesperado. “Será que está tudo bem comigo?”, foi a pergunta que fez dezenas de vezes enquanto se encaminhava para casa.

23.1.14

is this love? (capítulo treze)


Alexandra e Miguel viviam as horas mais intensas das suas vidas. Depois de tudo o que tinha acontecido, estavam juntos. Ambos se tinham entregado a um amor que parecia agora indestrutível. E reforçado com uma gravidez inesperada mas que era o realizar de um sonho para ambos. Aliás, a notícia da gravidez era o principal motivo da alegria que os dominava. Depois de largos minutos de euforia, Miguel revelou a Alexandra aquilo que queria fazer ao longo do dia. “Hoje é o nosso dia. Já tenho tudo planeado. Vamos tomar banho. Despacha-te”, disse.

Cerca de quarenta minutos depois estavam prontos. Radiante, Alexandra preparava-se para abrir a porta quando foi agarrada por Miguel. “Onde pensas que vais?”, perguntou. “Não é para ir passear?”, respondeu. “É. Mas vou ter de te vendar os olhos antes de saíres de casa. Não quero que saibas onde vamos”, explicou Miguel, já com o seu cachecol preto favorito na mão. Como era de um material não muito grosso, servia o propósito de vendar os olhos de Alexandra. Assim que sentiu o tecido no rosto, Alexandra pressionou ainda mais o cachecol com as suas mãos. Adorava sentir o cheiro do perfume do namorado, que assim se misturava com o seu  aroma passando a ser um só. Aquilo a que gostava de chamar o cheiro deles.

Com os olhos vendados, lá foram para o carro. Seguiu-se uma viagem de cerca de meia hora. Sempre ao som das melhores músicas de Teddy Pendergrass, uma das preferências de Miguel, que tinha acabado de fazer o download das suas preferidas. De olhos vendados, Alexandra cedo perdeu a noção da direcção do carro. Ainda descortinou o percurso nos primeiros cinco minutos. Depois disso concentrou-se na música. E nas três vezes em que tocou Turn Off The Lights, a versão gravada ao vivo num espectáculo de 1982, o seu ano de nascimento. Até que o carro parou. “Posso tirar a venda?”, perguntou. “Claro que não”, respondeu Miguel, que saiu do carro para guiar a namorada até ao destino final. Sentou Alexandra e depois desfez o nó que prendia o cachecol. Assim que abriu os olhos, Alexandra sorriu. “Sabes onde estás?”, perguntou ele. “Claro que sei. Estamos no banco onde nos beijámos e onde começou o primeiro capítulo do nosso namoro”, disse, com a voz trémula e com os olhos a lacrimejar. Depois, beijou Miguel e suspirou. “Ficava o dia todo aqui”, soltou. “Mas não ficas. Vamos já embora”, referiu Miguel, que vendou a namorada, regressando ao carro de mão dada com Alexandra.

Nova viagem. Desta vez, o sentido de orientação de Alexandra não durou mais de um minuto. No rádio, com o volume alto, continuava a tocar Teddy Pendergrass. Agora, Miguel cantarolava You´re My Latest, My Greatest Inspiration. É certo que a voz dele não era nada de especial. Mas como ela adorava ouvi-lo a cantar só para ela. Não o trocava por nenhum cantor do mundo. Por ela, podiam passar horas naquilo. E foi com isso que se ocupou até que o carro parou novamente. No momento em que saiu do carro sentiu uma ligeira diferença na temperatura. “Estou em Sintra”, pensou. E acertou. Quando retirou a venda estava num local especial. “Vou poupar-te uma pergunta. Foi naquele café que lanchámos num dia muito especial para nós”, disse perante o espanto de alguns turistas que tinham observado a chegada de uma jovem vendada. Quando Alexandra e Miguel se beijaram, tudo aquilo passou a fazer sentido para os turistas, em especial para uma senhora de idade que não resistiu e acabou por fotografar o momento do beijo enquanto Alexandra segurava o cachecol com uma mão. “Poupaste-me uma pergunta. Também não preciso de dizer o que tens de fazer ao meu cachecol, pois não?”, gracejou Miguel. Venda posta. E mais uma viagem.

Desta vez, a viagem durou mais tempo. Sempre ao som de Teddy Pendergrass. Com Miguel a cantarolar todas as músicas que conhecia. Nesta viagem, com especial incidência em Love TKO. Alexandra já nem se preocupava com o sentido de orientação. Limitava-se a tentar adivinhar qual seria o destino, sabendo que seria especial para eles. A determinada altura sentiu o carro abanar mais do que o normal. “Posso estar enganada mas estamos na Ponte Vasco da Gama”, disse. “Não sei”, respondeu, entre risos, Miguel. A viagem continuou. Mais alguns minutos. Algumas curvas. Até que o carro parou num local onde não se ouvia qualquer barulho. “Algum palpite?”, perguntou Miguel antes de tirar a venda. “Tenho um palpite mas como não se ouve nada, não sei...”, disse. Já sem venda, Alexandra confirmou o seu palpite. “Bem me parecia que era o restaurante onde jantámos pela primeira vez. Estava na dúvida por causa do silêncio”, referiu. “Compreendo. O restaurante está fechado, o que é uma pena”, lamentou Miguel. “Era tão giro”, acrescentou. “Já sei o que vais dizer agora”, referiu Alexandra. “O quê?”, inquiriu ele com curiosidade. “Que naquela mansão ali em frente é que foi gravada a telenovela Anjo Selvagem. Era a mansão onde a Paula Neves era empregada. Dizias sempre isso”, respondeu, provocando uma gargalhada em ambos.

“Adorei. Obrigado por tudo”, disse Alexandra. “Mas quem é que disse que já acabou? Como esta está fechado e como já são duas horas, vamos procurar um sítio para almoçar que não quero a mãe do meu filho com fome”, brincou Miguel. Lá encontraram uma tasca castiça e por ali ficaram mais de duas horas, a recordar os momentos mais marcantes da história de ambos. Eram os únicos no restaurante mas o amor era tão contagiante que o dono sentiu-se incapaz de lhes pedir para abandonar o espaço de modo a fazer uma pausa antes dos jantares. Foi já perto das cinco da tarde que voltaram a entrar no carro. Olhos vendados. Teddy Pendergrass a cantar. E assim se iniciava mais uma viagem.

Trinta minutos depois chegavam ao destino. Desta vez não saíram do carro. Assim que o carro parou, e ao som de Just Because You´re Mine, Miguel tirou a venda a Alexandra. “Sabes onde estamos?”, perguntou. “Claro que sei. Estamos no parque de estacionamento da praia, onde vivemos uma das nossas melhores noites de amor. Longe de uma cama, claro”, gracejou Alexandra. “Fico feliz por te recordares de tudo tão bem”, enalteceu Miguel. “Agora sim, este dia está completo”, acrescentou. “Adorei. Foi um dos melhores dias da minha vida”, sussurrou-lhe ao ouvido enquanto o abraçava. “Sabes o que quero agora?”, perguntou Miguel. “Levar-te para casa e fazer amor contigo, tal como aconteceu no dia em que fomos passear a Sintra”, disse, sem que Alexandra tivesse tempo para dizer algo. “Gosto da ideia. Mas se a noite já está a cair e se já fomos tão felizes aqui, porque haveremos de ir para casa?”, referiu Alexandra que imediatamente começou a despir Miguel.

Segundos depois os corpos eram um só. Numa união perfeita e imperturbável. Nem sequer se incomodaram com a possibilidade de serem apanhados por alguém. Para eles, naquele momento, mais ninguém existia no mundo. Só eles os dois. Com os vidros embaciados ficaram agarrados um ao outro. Nus, deitados nos bancos rebaixados. “Há algo de mágico em relação a este local. Pelo menos no que ao sexo diz respeito pois a praia nem é uma das minhas preferidas”, gracejou Alexandra. Miguel riu-se. “Sabes aqueles momentos em que gostavas de congelar o tempo. Este é um deles. Parava o tempo agora. Quero-te muito. Ficas comigo para sempre?”, perguntou Miguel enquanto sentia a cabeça de Alexandra no seu peito.

5.12.13

is this love? (capítulo doze)


Permaneciam sentados na cama. Alexandra tinha acabado de descobrir que estava grávida. A chorar, de alegria, revelara a notícia ao namorado. Miguel, surpreendido, perguntou se era o pai da criança. “Noutra circunstância mandava-te à merda, dava-te um estalo, virava-te as costas e ia-me embora”, disse Alexandra. “Mas tenho de assumir que percebo a tua pergunta. Além de saberes que tinha namorado antes de estar contigo, sabes o que se passou comigo quando tinha dezassete anos”, acrescentou. “O motivo da minha pergunta é aquilo que se passou. Porque não sei se mudaste a tua decisão”, referiu Miguel.

“Como sabes tive um problema de pele. Na altura, a minha dermatologista aconselhou-me a não tomar pílula. Deixou a responsabilidade para mim, deixou-me à vontade para procurar uma segunda opinião, mas disse-me que a pílula, por mais fraca que fosse, iria agravar o problema que tinha. Na altura optei por deixar de tomar pílula. E com o passar dos anos não alterei essa decisão. Habituei-me a viver assim e a ser mais cuidadosa na cama”, explicou. “Quanto ao ex-namorado...”; começou a dizer, sendo prontamente interrompida por Miguel. “Não precisas de justificar mais nada. Basta-me que me digas se sou o pai ou não.” “Isso é muito bonito e nobre da tua parte. E sei que se não te explicar mais nada, nunca me irás fazer uma pergunta sobre o assunto. Mas não é justo que assim seja. Mereces mais do que isso e vou explicar-te tudo”, disse Alexandra, deixando Miguel nervoso com a insistência em explicar algo que poderia não querer ouvir.

“Na relação que mantinha tomava sempre as precauções. Com os problemas nos últimos tempos e com as discussões nem sequer havia desejo sexual, de parte a parte”, contou. “Agora, se bem te recordas, naquela noite em que nos entregámos um ao outro no carro não houve precauções. Por isso, sim, o bebé que tenho dentro de mim é teu”, disse. “A não ser que exista algum fenómeno que desconheço que me tenha deixado grávida”, gracejou, fazendo com que Miguel começasse a rir.

O sorriso motivado pela piada de Alexandra durou alguns segundos. Até que o rosto de Miguel se fechou, acabando por baixar a cabeça. “Que tens?”, perguntou Alexandra. Que não obteve qualquer resposta. “Olha para mim. Que tens? Estás triste?”, insistiu, colocando a mão no queixo do namorado para levantar a sua cabeça. Quando o fez, reparou que Miguel chorava. “Estás triste?”, perguntou. “Triste?”, soluçou. “Triste? Eu vou ser pai!”, exclamou. “Eu vou ser pai”, voltou a dizer, levantando-se. “Eu vou ser pai. Eu vou ser pai. Este é o dia mais feliz da minha vida”, gritou aos pulos em cima da cama.

De seguida, e apenas de boxers justos, foi a correr para a varanda. Local onde começou a fazer uma dança simples mas ao mesmo tempo patética. Alexandra observava à distância. E ria-se. Como não se ria há muito. “Que estás a fazer?”, perguntou. “É uma promessa?”, acrescentou. “É!”, respondeu. “Desde que vi A Fúria do Último Escuteiro que prometi a mim mesmo que no dia em que soubesse que ia ser pai ia dançar como o Bruce Willis dança numa das cenas mais giras do filme. E é isso que estou a fazer”, acrescentou enquanto abanava os braços como quem enrola algo e dava alguns passos. Alexandra já chorava de tanto rir.

Minutos depois, Miguel dava o espectáculo por encerrado. Assim que saiu da varanda correu em direcção a Alexandra. Abraçou-a fortemente. Beijou-a. Depois, colocou-lhe as mãos na cintura. Levantou-a e gritou bem alto: “vamos ser pais. Vamos ser pais”, continuou a gritar enquanto se movimentava em círculos com a namorada ao colo. “Estou a ficar tonta, põe-me no chão”, pediu Alexandra entre risos. Miguel assim fez. E voltou a abraçar a namorada antes de a encher de beijos. “Estou muito feliz. Mesmo muito feliz. Não te vou mentir que também estou assustado com os próximos meses. Mas estou muito feliz. Vamos ser pais”, voltou a gritar. “E tenho a certeza de que serás a melhor mãe do mundo”, referiu.

28.11.13

is this love? (capítulo onze)


Miguel e o pai de Alexandra continuavam na varanda. Com os copos de whisky cada vez mais vazios. E com os charutos já apagados e esquecidos no cinzeiro improvisado com um monte de papel prata, bastante útil nestas ocasiões. Na sala, Alexandra continuava a preocupar a mãe com a súbita má disposição. “Filha, queres que te prepare um copo com solução Stago? Pode ser que te sintas melhor”, perguntou. “Deixa estar mãe. Não é preciso. Isto já passa. Deve ter sido do vinho”, respondeu. “Quando o Miguel chegar não lhe digas nada. Sei como ele é e obriga-me logo a ir ao hospital”, acrescentou.

Menos de uma hora depois, Miguel e Alexandra estavam de partida para a casa dela. Sem que a indisposição de Alexandra fosse notada pelo namorado. Que estava excitado com o facto do jantar ter corrido muito melhor do que tinha pensado. “O jantar correu bem, não achas?”, perguntou Miguel enquanto conduzia. “Sim. Mas depois da conversa que tive com os meus pais não esperava outra coisa. Tu é que estavas demasiadamente e desnecessariamente nervoso”, referiu. “E conta lá o que conversaste com o meu pai na varanda”, acrescentou Alexandra. “Conversa de homens”, gracejou Miguel. “Não brinques”, pediu Alexandra. “A sério. Foi mesmo uma conversa séria. O teu pai pediu-me uma coisa que não te irei contar e que irei cumprir se esse dia chegar”, disse.

“Sabes que não gosto que me digas algo que não pretendes desenvolver. Se não me queres chateada contigo é melhor contares tudo”, explicou. “Ok. Se queres mesmo saber, o teu pai pediu-me para afastar de ti se algum dia tiver dúvidas em relação a nós”, revelou Miguel. “Não tinha nada que te dizer isso. Vou chatear-me com ele”. “Não vais nada. Não vais dar a entender que sabes o teor da nossa conversa. E além disso, ele tem razão no que diz e que me pediu. É teu pai e não te quer ver a sofrer, mais do que já sofreste”, referiu.

Minutos depois chegavam a casa. “Vi na programação que vai estrear um filme porreiro hoje. Vamos ver?”, perguntou Miguel. “Estou cansada. Fica tu no sofá que vou deitar-me”, respondeu Alexandra, ocultando do namorado a indisposição que a levava a querer deitar-se. “Está bem. Vou ficar por aqui um pouco. Até já. Amo-te muito”, disse Miguel antes de beijar a namorada. Enquanto via o filme acabou por se deixar dormir no sofá. Quando acordou já o filme tinha terminado. Ensonado e apenas com um olho aberto, foi para a cama. Chegado ao quarto ficou alguns minutos a observar a namorada. Antes de apagar a luz, beijou-a na testa. Depois, aninhou-se ao lado dela até se deixar dormir.

Pela manhã, Miguel acordou mais cedo. Era dia de ir jogar à bola com os amigos. Quando Alexandra acordou tinha um bilhete na almofada. “Esqueci-me de te dizer que era dia de futebol. Não te quis acordar. Tive de ir a casa buscar a roupa do futebol. Depois venho buscar-te para almoçar. Até já. Amo-te muito e já tenho saudades tuas”, era o que estava escrito. “Já não me sinto mal-disposta”, disse para si mesma Alexandra. Porém, sentia os seios doridos. Algo a que não deu muita importância.

Perto da uma da tarde, Miguel ligou a Alexandra. “Desce que estou a chegar. Vamos almoçar”, disse. Quando Alexandra entrou no carro, Miguel começou a falar do jogo. “Joguei muito bem. Marquei vários golos. Podia ter sido jogador de futebol”, brincou sem obter qualquer reacção da parte da namorada. “Que tens?”, perguntou. “Nada. Essa conversa não me interessa para nada”, respondeu bruscamente. “Desculpa. Estou de mau humor”, disse apercebendo-se de que tinha sido injusta.

O mau humor prolongou-se durante o almoço, alternando com poucos momentos de boa-disposição. E fez que quando chegassem a casa cada um fosse para o seu lado. Miguel agarrou-se à Playstation que tinha acabado de trazer da sua casa enquanto Alexandra levou o portátil para o quarto. Enquanto ouvia música na televisão ligou o portátil. Agora, começava a dar mais importância aos sintomas que sentia e que a preocupavam. E como costumava fazer escreveu tudo aquilo que sentia no Google. “Sintomas indisposição variações de humor peito dorido”, foi o que escreveu. Tudo aquilo que tinha escrito apontava para gravidez. Algo que a assustou. “Vou ter de sair. Tenho de ir a casa buscar mais umas coisas. Queres vir?”, gritou Miguel da sala. “Se não precisares de mim fico por aqui”, disse. “Estão fica a descansar. Até já.” Assim que Miguel saiu, Alexandra vestiu-se à pressa. Da janela observou o namorado afastar-se. Saiu de casa. Entrou no carro. E rumou à farmácia do centro comercial. Quando chegou a sua vez pediu, meio envergonhada, um teste de gravidez. Que logo escondeu na mala. Rumando a casa ainda mais depressa para que o namorado não notasse que tinha saído.

Minutos depois Miguel chegava a casa. O resto do dia foi passado com nervosismo. Que Alexandra se esforçava para esconder do namorado. “Será que estou grávida?”, era a única coisa em que pensava. Chegada a noite foram ambos deitar-se. Miguel começou a insinuar-se à namorada. Com as suas mãos a percorrerem o seu corpo por baixo do pijama. Excitada, Alexandra deixou-se levar. Acabando por finalmente esquecer a questão que a apoquentava. Durante largos minutos entregaram-se um ao outro. Acabando por se deixar dormir agarrados.

Na manhã seguinte foi Alexandra que acordou cedo. Prontamente agarrou o teste de gravidez que tinha escondido na sua mesa de cabeceira. Na gaveta da roupa interior. Alexandra cumpriu todos os passos. Seguiram-se os minutos mais longos da sua vida. Pouco tempo depois dois traços era aquilo que via. “Positivo. Estou grávida!”, exclamou. Alexandra encaminhou-se para o quarto. Sentou-se na cama ao lado de Miguel. E começou a chorar. Todavia, eram lágrimas de alegria que escorriam pelo seu rosto. O choro acabou por acordar Miguel. “Porque choras?”, perguntou.

Alexandra não conseguia dizer nada. Chorava e soluçava. Miguel estava cada vez mais nervoso. “Que se passa? Fala comigo. Que tens?”, insistiu. “Estou... grávida”, disse Alexandra. “Estás grávida? Estás a brincar comigo não estás? Estás mesmo grávida?”, perguntou Miguel sem que Alexandra tivesse tempo para responder. Sem dizer qualquer palavra, Alexandra passou o teste de gravidez para a mão do namorado. “Estás mesmo grávida”, disse Miguel. “Não me leves a mal a pergunta mas... é meu?”, perguntou.