Por estes dias tenho partilhado muitas reflexões sobre futebol, mas a verdade é que o panorama atual torna quase impossível falar de outra coisa. E há assuntos que ultrapassam as quatro linhas e tocam diretamente no respeito e na dignidade humana. Não consigo, de forma alguma, ignorar o massacre público que decidiram fazer a António Silva.
Antes que comecem a apontar o dedo: isto não tem nada a ver com o facto de ele ser central do Benfica, o meu clube de coração. Tem a ver com o comportamento vergonhoso e desumano que o futebol português está a demonstrar perante um jovem que tem apenas 22 anos. Leste bem: 22 anos. Sinto que muita gente se esquece da idade dele só porque apareceu muito cedo nos palcos principais e com uma maturidade acima da média.
Vamos aos factos. Roberto Martínez deixou-o fora dos eleitos para o Mundial de 2026. Até aí, tudo bem. O selecionador tem o direito de fazer as escolhas que bem entender e terá, naturalmente, de dar a cara pelos resultados. Tu, eu e qualquer pessoa que goste de futebol teríamos opções diferentes para a equipa de todos nós. Faz parte do jogo e o debate é saudável.
O problema — e o nojo que isto me mete — começa quando decidem transformar o António Silva no "bode expiatório" perfeito para desviar as atenções de uma convocatória que tem sofrido fortes críticas por parte dos portugueses.
Qual é a lógica ou o interesse de vir agora a público escavar um episódio privado que aconteceu em 2024? Revelar que o miúdo partilhou o onze com pessoas próximas e foi "apanhado" num erro de bastidores? Se aconteceu há dois anos e na altura ninguém achou relevante punir ou falar do tema, por que razão atiram o nome do jogador para a fogueira precisamente agora, no momento em que ele é riscado do Mundial?
Para mim, a resposta é óbvia e triste. Roberto Martínez demonstra ser um líder incrivelmente fraco ao expor um atleta desta maneira. O papel dos jornalistas é perguntar tudo, mas cabe ao selecionador, enquanto líder e escudo do balneário, proteger os seus homens — estejam eles convocados ou não. Queimar um jovem de 22 anos para sacudir a pressão do próprio capote é de uma pequenez tremenda.
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