24.4.15

acho que nunca me vou habituar a isto

O jornalismo é a minha profissão há quase nove anos. E acho que nunca me irei habituar ao momento em que uma pessoa que entrevisto começa a chorar. É certo que  o tempo ensinou-me a perceber os momentos em que isso poderá acontecer mas existe sempre a dúvida e nunca será um objectivo enquanto entrevistador. Por um lado, não deixarei de fazer uma pergunta que considero importante com receio de provocar lágrimas. Irei continuar a percorrer o caminho que me permite saber se a pergunta em questão pode ou não ser feita. Mas, por outro, nunca me irei habituar às lágrimas. Talvez por também ser uma pessoa que se emociona com facilidade.

12 comentários:

  1. Como te compreendo.
    Aqui em Angola acreditava que já tinha visto de quase tudo e que tinha construído uma carapaça que me permitia lidar melhor com a realidade que aqui se vive.
    Infelizmente (ou se calhar não) enganei-me.
    Não foi o facto de ver um miúdo no chão, na rua, em farrapos, magro, sem cabelo, que me fez ir abaixo.
    Foi ver um miúdo sem brilho nos olhos, sem esperança alguma, sem qualquer emoção. Ele já nem sequer estava a pedir. Ele já não queria nada...
    Passei por ele depois de almoçar (um almoço em que reclamei - tem tomate a mais!). Passei, continuei a andar, passei pelo velhote que está sempre à esquina a pedir, pelo Castro, que tem uma deficiência mental, a quem dou o pequeno almoço e que regra geral está bem disposto, atravessei a rua e comecei a soluçar, as lágrimas a cair. Elas caíam e eu limpava, por baixo dos óculos de sol. Isto já me passa, pensei, mas mais à frente já não tinha como disfarçar e larguei num pranto enorme.
    Não foi saber que ele estava doente. Não foi saber que ele tinha fome. Não foi ter noção de que ele não tinha casa, ou carinho, ou quem tratasse dele.
    Foi o desalento, os olhos sem expressão. O saber que ele tinha desistido.
    Fui-lhe buscar comida à melhor pastelaria, um leite e um sumo, e entreguei-lhe tudo num saco de plástico. Ele não olhou para mim, nem avidamente abriu o saco...Insisti com ele "é comida, tens de comer, está bem?"
    Com os olhos pedi ajuda a uma sra. que passava, e que rapidamente o auxiliou a abrir do saco, enquanto eu atravessava a rua e entreva no carro.
    Ele precisava de comer. Mas precisava também de ir ao médico, de ter quem lhe desse os medicamentos a hora, de quem lhe lesse uma história, lhe desse banho, mimasse, deitasse numa cama cheirosa e quente.
    Aqui são muitos os miúdos com fome. Imensos os que não têm casa, nem quem cuide deles. É frequente miúdos de 2 anos andarem na rua com os irmãos mais velhos, de 6 ou 7 anos - atravessam estradas sozinhos, sobem às árvores para comerem os frutos, pedem dinheiro a quem passa...Descalços, sujos, jogam à bola com os restos de roupa que enrolam numa bola e brincam com o que apanham no lixo. Mas riem a quem passa e todos deixam transparecer uma felicidade genuína nos seus rostos.
    Este miúdo não. Este miúdo já não vivia e nem sequer se preocupava com a sua sobrevivência. E o meu coração apertado queria pegar-lhe ao colo e levá-lo para casa.
    E eu senti-me tão fútil, tão inútil, tão "sem-chão".
    Não posso mudar a realidade, eu sei, mas pelo menos trago aquele miúdo no coração.
    E fica a vontade de um dia pelo menos mudar a vida de um destes miúdos que seja.
    E fica a vontade de ver um mundo em que as crianças possam ter aquilo a que têm direito.

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    1. Isso de que falas é ainda pior e é algo que mexe muito comigo. E que me deixa a pensar. Sou assim com pessoas e com animais abandonados.

      Aquilo de que falo é a minha profissão. E existem conversas que não são fáceis. E não é fácil fazer alguém chorar. Existem perguntas que sabes que são mais sensíveis mas não as podes fazer logo a "pés juntos" ou a entrevista acaba ali. Há quem faça. Eu não. Eu traço o meu caminho e durante esse caminho o convidado diz-me até onde posso ir e do que podemos falar. Mas reagir a determinados momentos nem sempre é fácil.

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    2. Desta vez quem ficou em lágrimas fui eu.
      Fica a mesma vontade de que não haja nem crianças nem pessoas a (não) viver a falta de esperança.

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  2. A tua profissão merece-me muito respeito (também já trabalhei na área - DN e TVI, apesar de o meu lugar ficar sempre no Departamento Financeiro).
    Por um lado tens de ter muita força, por outro muito tacto...

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    1. Há quem não o tenha. Quando não tiver deixo isto.

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  3. Tu consegues, tens essa sensibilidade e uma forma espantosa de abordar os mais variados temas. Bjs

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  4. De facto, o teu trabalho não dava para mim. É muito "meter-se" na vida das pessoas, e eu não conseguiria ser assim.

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    1. Não é necessário meter-me na vida das pessoas para chegar a temas sensíveis. Depende sempre do entrevistado e do rumo da conversa. Mas não é fácil.

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  5. Quem chora com facilidade é uma pessoa fraca e então os portugueses são campeões de lágrimas.País mais deprimente!!!

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    1. Tenho uma visão completamente diferente das lágrimas e do seu significado.

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