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24.3.15

os excessos das viagens de finalistas

Estamos na altura do ano em que os excessos costumam ser notícia. E as notícias costumam ter origem em Espanha, local onde se aglomeram os jovens estudantes portugueses que ali gozam alguns dias de loucura e de excessos que nem sempre têm um final feliz. Ano após ano vou lendo notícias que mostram que pouca coisa mudou em relação à altura em que estudava no secundário. Aliás, acredito que a ter mudado tenha sido o aumento do consumo de álcool e uma maior variedade de drogas às quais se tem um acesso mais facilitado nos dias que correm.

Na minha altura, a moda era Lloret de Mar. Foi para lá que foi a minha escola. Pelo menos boa parte dos alunos. Fui um dos que fiquei por cá e já irei explicar qual foi a minha opção. Ao contrário de boa parte dos alunos, nunca tive grandes desejos em relação à famosa viagem de finalistas. A começar, pelas histórias que ouvia. Ano após ano a Polícia encontrava droga nos autocarros. Nas semanas anteriores à viagem debatia-se a melhor forma de esconder droga nas malas de modo a que os cães (que sabiam que iam encontrar) não dessem por nada. E este tipo de coisas nunca me cativou.

Depois, as histórias eram iguais ano após ano. Eram as praxes que envolviam, por exemplo, shots de álcool puro. E eram as constantes histórias de excessos já em Espanha. Por exemplo, no ano da minha viagem aconteceram coisas como mobiliário dos quartos que viajava dos mesmos até à piscina numa rápida viagem feita a partir da varanda. Ou festas de espuma com recurso aos extintores. Alarmes de incêndio sempre a disparar tal era o fumo nos quartos. E até buracos que eram feitos de quarto para quarto. Ou seja, portas que isso de ir ao corredor é cansativo. Estes são alguns relatos do que aconteceu no ano em que optei por não ir. No ano em que fui finalista.

Defendo que um dos grandes problemas é que a maior parte dos adolescentes não sabe o que é liberdade com responsabilidade. É algo que não existe. Muitos nunca saem quando estão cá. Não bebem sequer um copo quando estão com os amigos. Outros não fumam ganzas nem tabaco. E o sexo é algo que muitos também desconhecem. Até que se apanham com uma total liberdade que, quanto muito, é controlada através de chamadas telefónicas que facilmente se ignoram. E parte dos jovens não sabe o que fazer com essa liberdade. E se o do lado bebe uma cerveja, ele tem de beber duas. Se parte uma cadeira, ele parte duas. Se fuma uma ganza, ele fuma duas. E por aí fora numa espécie de disputa sem fim. Exsite uma sede de viver tudo naqueles dias em que os pais são uma miragem distante que nada controla.

Ao estilo dos famosos filmes Amercian Pie, fazem-se pactos. “Vamos todos fazer isto e aquilo nas férias...”, dizem. Depois, muitos não conseguem dizer não aos desafios dos outros, daqueles que os desencaminham. E entra-se num efeito bola de neve de excessos que acaba com jovens bêbados caídos nas ruas, com miúdos e miúdas a arrependerem-se do que fizeram na noite anterior. E em alguns casos com marcas que ficam para sempre. A ausência de responsabilidade associada à liberdade é a linha que separa uns dias divertidos na companhia de amigos de uma série de lamentos.

Como referi, não fui um dos que foi a Lloret de Mar. Em vez disso, fui apenas com a minha turma para o arquipélago dos Açores. Se não me engano estivemos lá uma semana. Connosco foram os professores de que gostávamos e que fizemos questão de convidar. Estivemos em diversas ilhas e não faltou nenhum ingrediente daqueles que pautam as viagens para Espanha. É claro que também existiram excessos mas nunca ao ponto do descontrolo total. Esses excessos acabavam por ser motivo de brincadeira entre todos pois era um ambiente restrito a mais ou menos vinte alunos. E se fosse hoje, voltava a preferir esta viagem à ida para Lloret de Mar.

E este é o conselho que dou a quem tem pela frente uma viagem de finalistas. Optem por uma coisa mais restrita. Não se deixem levar pelos outros nem acabem a fazer coisas que provavelmente nem querem fazer. O preço acaba por ser quase igual, até porque nos dias que correm é muito mais barato viajar do que na minha altura. Optem por viajar com os amigos e num destino que desejem. A viagem será melhor e muito mais divertida.

14 comentários:

  1. O meu lema é: "Tropical?" nasci e cresci. Nunca fui a viagem nenhuma, não bebo, não fumo e sei que era mesmo para se enrolarem uns com os outros que iam, mudava o cenário, e isso, também posso fazer por cá. Se fosse para honrar o curso, Sociologia, escolheriam uma cultura desconhecida e aí sim, iria com o maior dos prazeres.

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    1. Muitas pessoas não sabem lidar com a liberdade que têm, o que é pena.

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  2. Concordo contigo. Na minha viagem de finalistas fui com 5 amigas ao Porto. Fomos sair à noite, conhecemos novos sítios e novas pessoas, cometemos pequenas loucuras. Foi super divertido e voltava a repetir.
    Parece que os miúdos estão tão sedentos por liberdade que só fazem asneiras quando saem de casa. Não se sabem divertir sem serem responsáveis ao mesmo tempo. Não se sabem divertir sem estarem entupidos de drogas e álcool.. É ridículo

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    1. Não trocava a viagem aos Açores pela ida a Espanha. Foi muito melhor.

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  3. Eu fui a Lloret e tens razão. Tudo o que tu descreves acontece. Pode não acontecer no nosso hotel (como foi o meu caso), mas rapidamente ficamos a saber de hotéis onde episódios desses aconteceram.

    Mas para mim a culpa (se é que se pode chamar culpa) não é da falta de supervisão, do sítio escolhido para as férias ou do rótulo de viagem de finalistas … porque basta sair à noite para vermos situações muito semelhantes ao “jovens bêbados caídos nas ruas, com miúdos e miúdas a arrependerem-se do que fizeram na noite anterior”. Isto acontece todas as sextas e sábados à noite na cidade, onde eles vivem (aparentemente) sob o controle dos pais.

    Eu fui a Lloret, sai à noite, bebi (mas não até cair para o lado), preguei partidas (como ainda hoje faço, com conta, peso e medida), conheci pessoas de outros países, aproveitei para conhecer a cidade e ainda algumas cidades nas redondezas. Adorei a viagem e não mudava uma vírgula. Foi uma óptima experiência, porque em Setembro desse ano estava a entrar na Faculdade, a viver sozinha e longe da casa da Mãe. E aquela viagem foi só uma pequena amostra, daquilo que seriam os anos de faculdade.

    E isto é apenas a minha opinião. Mas quando sabemos quem somos e o que queremos para a nossa vida … quando dizemos não, estamos mesmo a dizer não e venha quem vir, não mudamos de opinião só para ter mais um “amigo”. É uma questão de personalidade, responsabilidade e discernimento … e isso infelizmente falta a muitos jovens (e a alguns adultos).

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    1. Muitos adolescentes querem viver tudo naqueles dias. Depois acham que não são tão bons como os outros se não fizerem tudo aquilo que os outros fazem. Não sabem lidar com a responsabilidade associada à liberdade.

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  4. A responsabilidade aprende-se muitas vezes com os erros. Aprende-se a não misturar bebidas com a primeira má disposição. Aprende-se com que amigos podemos contar. Aprende-se que ganza e álcool pode dar mau resultado. Não vejo esses dias como trágicos, vejo como parvoíces que todos fazemos na vida. Também não fui à minha viagem de finalistas, mas ultrapassei os meus limites noutras situações e foi assim que os conheci.
    Claro que tragédias acontecem, mas não acontecem só em viagens de finalistas e certamente não acontecem só com adolescentes. Acho que as pessoas devem tentar confiar mais nos adolescentes e deixá-los errar (com alguma supervisão, claro. Não convém que tenham uma overdose de heroína).

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    1. Tens toda a razão no que dizes mas acho que a maior parte das pessoas aprende os erros de forma gradual. Numa vez é uma ganza que se fuma e que se detesta. Noutra uma bebedeira que faz com que não se queira beber mais. E por aí fora. Nestas viagens, é tudo no menor tempo possível. Parece um decatlo de excessos.

      Tocas no ponto importante que passa pela confiança e aí são os pais que têm de perceber isso. Quanto mais privam pior será num momento de liberdade.

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  5. Eu não fui, por todos esses momentos e mais alguns, mas não fui mesmo para lado nenhum, o meu foco na altura é bem diferente disso. No entanto, se fosse hoje, voltaria a não ir e voltaria a guardar esse dinheiro para coisas bem mais importantes.

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    1. Também é uma boa opção apesar de considerar que existem momentos que devem ser vividos porque as pessoas vão acabar por se perder na vida umas das outras.

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  6. No meu ano, a minha escola também escolheu Lloret. A minha turma foi toda para lá. Eu fiquei por cá e fui com a turma da minha irmã (outra escola) uma semana para o Gêres (sem professores nem pais.... só 20 adolescentes responsáveis. Não trocava por nada. Foi, sem dúvida alguma, uma das melhores semanas da minha vida. E não bebemos, não fumámos e também não participámos em jogos de sexo.

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    1. Acho que essas viagens com grupos mais pequenos são sempre melhores.

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  7. Eu ando agora no 12º e a viagem que maior parte dos da minha escola escolheram foi Marina D'Or. Eu já de mim sou uma criatura que não tem paciência para a maioria das estupidezes, não bebo, não fumo, não me drogo, não gosto da música excelente que passam nos festivais de lá. Sei que se fosse para lá iria acabar por ficar a um canto porque não faço nada dessas coisas, para além de que nem sequer tenho grande afeto pelos que foram, se quiser aturar bêbados e putos estúpidos posso não sair de Portugal. Enfim, muita gente diz que eu estou a perder os melhores anos da minha vida, a perder ou não, é uma escolha consciente.

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    1. Esse argumento do estás a perder os melhores anos da tua vida é muito subjectivo. Estás porquê? Porque não fazes o que os outros querem? Porque fazes o que desejas?

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