Quando falamos de sopas existem dois grupos de pessoas. Mas antes de falar deles, dou a conhecer a minha história com sopas. E devo confessar que não sou o maior fã das mesmas. Durante boa parte da minha infância só olhava com bons olhos para a bela da canja, aquela que ainda hoje é a minha sopa preferida. Posso comer canja todos os dias que não me aborreço.
A partir daqui, não tinha grande ligação com sopas. Se bem que nos últimos anos passaram a ser uma das minhas principais opções para o jantar durante a semana. E lembram-se de ter falado dos dois grandes grupos? É aqui que eles entram. Existem pessoas que gostam de sopas com diversas coisas lá dentro. Mas não basta saber que existem. Têm de as sentir. São aquelas pessoas que gostam de sopas com coisas que quase que davam para comer de faca e garfo.
Depois, existem as outras pessoas. Como eu. São aquelas pessoas para quem a sopa está muito bem em forma de creme. Não é preciso trincar nada. Não é preciso sentir nada. Basta saber que as coisas estão lá. Preferencialmente muito bem passadas. Podem dizer que sou um "bebé" pois só eles é que comem sopas destas. Mas, para mim, a sopa tem de ser assim. Não consigo ser fã de sopas que têm tudo e mais alguma coisa lá dentro em tamanhos que quase saem da tigela.
Só não sei se sou o único nesta equipa. Mas prometo que a irei defender até ao fim.
Tenho várias memórias associadas ao Natal, quase todas ligadas à família. A começar pelos tempos em que era mais novo. Nessa época escrevia a carta ao Pai Natal, pendurava a mesma na árvore e na noite de 24 de Dezembro ia deitar-me cedo, como uma criança que deseja acelerar o tempo para a manhã seguinte. Tudo para acordar de manhãzinha para desembrulhar os presentes que eram deixados junto da árvore enquanto estava a dormir.
Em relação à manhã de 25 tenho outra memória. Que passa por estar em frente à televisão a ver desenhos animados e filmes. Além disto, lembro-me ainda dos passeios em família no dia de Natal e de passar por centros comerciais, onde apenas os cinemas estavam a funcionar. Com o passar dos anos estas memórias não se foram perdendo, acabaram somente por se alterar. Em relação aos brinquedos, presentes e euforia, acabei por ir projectando tudo isso na minha sobrinha. Sendo que ainda desembrulho prendas com o mesmo encanto de uma criança, algo que me deixa feliz. Em relação à televisão e cinema, os filmes continuam a estar presentes nesta altura do ano. Em família acabamos por estar quase sempre juntos a ver um filme.
Como faço parte daquela que considero ser a geração Disney – porque fui brindado com grandes filmes da Walt Disney – fiquei extremamente agradado com a notícia do regresso de Mary Poppins, um dos filmes que tenho bem presentes nas memórias desta altura do ano. Isto sem esquecer outros clássicos que estão prestes a regressar aos cinemas. É certo que Mary Poppins não é um filme da minha geração, mas é daqueles que acabam por ser de todos porque vão sendo transmitidos de geração em geração. É um daqueles clássicos que acaba por nunca passar de moda e que devido às memórias que transmite, acaba por ser revisto vezes sem conta.
Por tudo isto, estava com enorme expectativa em relação a “O Regresso de Mary Poppins”. Até porque o elenco é de luxo – Emily Blunt, Ben Whishaw, Meryl Streep, Lin-Manuel Miranda e Colin Firth, apenas para dar alguns exemplos, sem esquecer a participação deliciosa de Angela Lansbury – e as quatro nomeações para os Globos de Ouro fizeram com que estivesse à espera de algo fenomenal. Por outro lado, quando clássicos como este regressam ao cinema fico sempre com receio de que os estraguem, algo fácil de acontecer por serem filmes tão marcantes.
Fui assistir à antestreia do filme e só posso... tirar o meu chapéu à Disney! Porque “O Regresso de Mary Poppins” está brilhante. Sem querer entrar muito pelos detalhes, realço a excelente qualidade de produção, as coreografias, músicas que todos vão cantar e os desempenhos individuais com Emily Blunt à cabeça. E em relação à atriz basta referir, como cartão de apresentação, a nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Actiz em Comédia ou Musical. A Disney conseguiu manter o encanto do original, ao mesmo tempo que acrescenta novos personagens e excelentes músicas.
Existe um detalhe no filme em geral que me agrada bastante. Isto porque sempre adorei filmes que aproveitam a fantasia da ficção para passar uma mensagem. Neste caso existe uma frase, que é o slogan do filme, que diz isto: “tudo é possível, até o impossível.” Assim que me deparei com estas palavras recordei as lições que os adultos dão aos mais novos. Dizemos que devem acreditar em tudo, que devem sonhar e lutar pelo que desejam. E depois, o que fazemos? Deixamos de acreditar nas mensagens que transmitimos. E esquecemos o que é ser criança. “O Regresso de Mary Poppins” tem uma mensagem forte ligada com esta realidade que, infelizmente, muitos adultos tendem a esquecer com o passar dos anos, acabando por perder o encanto de ser eternamente uma criança.
E esta lição conduz a outro ponto pois estamos perante o perfeito exemplo de que não existem filmes que não são para homens adultos, ideia que ocasionalmente se associa a diversas longas-metragens. Na sala de cinema vi pais com filhos, vi adolescentes sozinhos, vi homens adultos sozinhos, vi mulheres sozinhas e isto prova que não existem filmes para este ou para aquele. Neste caso, como o filme que chegou às salas de cinema a 20 de Dezembro, também está disponível na versão dobrada, faz com que o público se alargue aos mais pequenos. Depois do que vi, e não posso retirar da equação o meu encanto pelo universo Disney, recomendo “O Regresso de Mary Poppins” como um excelente plano para a quadra natalícia.E fica o aviso: preparem-se para sair da sala de cinema a cantar.
Numa espécie de presente de Natal antecipado, os Ornatos Violeta anunciaram o regresso aos palcos. 20 anos depois, a banda liderada por Manel Cruz irá actuar em três festivais de verão. Quando ouvi esta notícia recordei-me do dia em que decidi desafiar quem passa pelo blogue a eleger a melhor música portuguesa de todos os tempos.
A escolha recaiu em “Ouvi Dizer”, dos Ornatos Violeta e depois da eleição acabei por estar à conversa com o Manel Cruz. O ponto de partida foi mesmo a eleição, mas acabámos por falar de muitas outras coisas. Tendo em conta o regresso, é sempre bom recordar aquilo que foi dito por um dos melhores músicos portugueses de sempre.
Qual a sensação de ver uma música tua eleita como o melhor tema português de sempre?
Manel Cruz - (Risos) É fixe! É bom! Embora as coisas sejam relativas é bom que alguém ache isso (risos).
Esta eleição aconteceu no blogue mas “Ouvi Dizer” consta sempre nas listas das melhores músicas portuguesas de sempre. Quando a música foi feita deu para perceber que teria este impacto?
Não, de maneira nenhuma. É uma coisa muito difícil de prever e nunca pensei nas coisas dessa maneira. Aliás, as músicas de que mais gosto nunca foram eleitas (risos). Normalmente são músicas que têm determinadas características mas normalmente não são as de que mais gosto.
“Para-me Agora” é uma das tuas músicas preferidas dos Ornatos Violeta. Mesmo não sendo aquela de que mais gostas é justo referir que “Ouvi Dizer “é o tema mais marcante da tua carreira?
Sim. Talvez seja a mais marcante, tal como “Capitão Romance”. Mas esta talvez tenha sido a mais mediática.
"Como é visível na música é uma dor de corno (risos)"
Recuando no tempo. Ainda te recordas o que originou este tema?
Sim. Como é visível na música é uma dor de corno (risos). Um amor espatifado. Não me lembro exactamente do dia em que a fiz mas recordo-me de estar a fazê-la e de mostra-la, ainda sem letra, só com música e melodia ao Kinörm [membro dos Ornatos Violeta]. Era tocada à guitarra, com outra onda mas recordo esse momento.
Há algum motivo especial por detrás da participação de Victor Espadinha?
Foi quase uma questão de humor. Por causa de fazer parte daquele universo Joe Dassin e aquela maneira de declamar com muito ênfase e algo kitsch a que nós achávamos graça. Num ensaio surgiu a ideia de ter alguém a dizer o poema. O Kinörm sugeriu o Victor Espadinha e achámos todos muita graça ao confronto entre o universo da música e a forma da poesia mais enfatizada.