13.11.14

(des)encontros (capítulo três)


O tempo passava e João continuava a pensar em Sophia e nas poucas horas que tinham passado juntos. Há muito que não se sentia assim e não era algo do seu agrado. Não aquilo que sentia mas a forma descontrolada como estava a ser consumido pelo desejo de voltar a ver a mulher com quem se tinha cruzado por mero acaso e que tinha beijado uma única vez. Era final de tarde de Sábado e os amigos tinham planos para outra saída mas João preferiu ir para casa. E durante o tempo em que esteve perto dos amigos não fez nada mais do que vasculhar as redes sociais na esperança de encontrar uma fotografia que o ajudasse a chegar até Sophia.

Já em casa e refastelado no sofá, mantinha-se agarrado ao telemóvel. Via no iPhone uma espécie de objecto mágico que o iria levar ao encontro de Sophia. “O destino não se deu ao trabalho de nos juntar apenas por umas horas”, era aquilo em que pensava. Bauer estava perto de si, com uma galinha de borracha na boca, que era o seu brinquedo preferido, como que a desafiar o dono para brincar. Mas desta vez João não lhe ligava. Nem sequer parecia ouvir o característico barulho do brinquedo quando mordido pelo cão. Tal como não sentia os toques de Bauer no seu corpo. Em vez disso, repetia vezes sem conta os mesmos passos no telemóvel. Sempre em vão pois continuava a não encontrar a mais pequena pista que o levasse até Sophia. O desespero aumentava pois João sabia que era uma missão com tempo contado. Mais precisamente até à hora em que Sophia ia regressar ao seu país.

Aparentemente vencido pelo cansaço atirou o iPhone para cima do sofá, acabando por reparar em Bauer com quem esteve na brincadeira durante alguns minutos. “Achas que vou encontra-la?”, perguntou ao buldogue francês, em mais um dos muitos diálogos que mantinha com o seu animal de estimação. Para evitar a tentação de se agarrar ao telemóvel, ligou a PlayStation para jogar Grand Theft Auto V online. Ainda fez um jogo de mata-mata, o seu preferido, mas rapidamente se fartou. Do jogo passou para mais um episódio de Dexter, já com Bauer aninhado ao seu lado no sofá. O tempo ia passando e João tentava tudo o que estivesse ao seu alcance para ignorar o desejo de se agarrar ao telemóvel.

O episódio ainda não levava vinte minutos quando as suas defesas foram vencidas pelo desejo. Desligou a PlayStation e optou por ouvir música na televisão. Sintonizou a televisão no canal 155 e deixou-se levar pelos vídeos do VH1 Classic enquanto saltitava entre o facebook e o instagram nas esperança de que todas as hashtags de que se recordava o levassem até Sophia. Mais uma vez, sem sucesso. Insucesso esse que não o demovia do seu desejo. Até que no ecrã apareceu uma mensagem. Que João abriu. “Queres ir beber café?”, era o que estava escrito. A mensagem era de Daniela, uma amiga a quem achava piada mas que sempre pensou que nunca lhe ligasse nenhuma. “Só podes estar a gozar comigo? Só pode! Nunca me ligaste nenhuma e agora é que te lembras disto? Parece que as mulheres têm um sensor que detecta tudo”, disse, em voz alta. 

“Obrigado pelo convite mas não vai dar”, foi o que escreveu na resposta. Quando estava prestes a carregar em enviar arrependeu-se, numa altura em que tocava If You´re Gone, dos Matchbox Twenty. “E se isto é um sinal para a esquecer. Será aquilo que preciso para me distrair? Sempre saio de casa e esta mensagem não significa que ela queria algo comigo”, pensou. “Vamos a isso. A que horas e onde?”, respondeu. “Pode ser às 21h27 no café do Carlitos. Até já. Beijos”, foi a mensagem que recebeu menos de um minuto depois e que o fez rir. “Ainda não perdeu a mania dos números esquisitos”, disse. O tempo foi passando e o convite de Daniela acabou por distrair João.

Chegou a hora marcada e às 21h27 João entrava no café. Daniela já estava sentada numa mesa. “Oi puto, ´tás bem?”, disse a Carlitos. “Levas-me um café à mesa se faz favor”, acrescentou. Depois de cumprimentar Daniela sentou-se e antes de chegar o café já a questionava. “Estranhei a tua mensagem. Porquê o convite? Nunca me ligaste nenhuma”, disse, sem rodeios. “Entrada a pés juntos”, gracejou Daniela. “Podia dizer-te quatro ou cinco frases de circunstância antes de fazer a pergunta que acabaria sempre por fazer. Mas já não tenho paciência para isso. Dispenso atalhos”, disse. “Ouvi dizer que tiveram uma grande saída na sexta-feira e queria falar contigo por causa disso”, referiu com um ar meio tímido. “Só podem ter um sensor. Nunca me ligou nenhuma. Sabe da noite e convida-me para um café”, pensou. “Foi uma saída normal. Quem te contou?”, perguntou. “Foi o Timóteo”, respondeu. “Essa boca de trapos nunca consegue ficar calado. E o que te disse?”, inquiriu João. “Nada de especial. Que foram sair e que acabaste a noite com uma miúda qualquer”, respondeu Daniela.

“Isso é uma forma bastante simples de resumir a noite. O resumo podia ter mais algumas frases e outros protagonistas mas foi isso que aconteceu. Se bem que não sei o que pensas que aconteceu entre nós mas posso dizer-te que foi apenas um beijo”, explicou João. “E não me leves a mal mas nunca tivemos nenhuma conversa deste género e estou a estranhar essa curiosidade que me parece ser movida por um ciúme que desconhecia. Posso perguntar o motivo dessa curiosidade?”, disse João.

“Tens razão. Mas fiquei possuída quando o Timóteo me contou isto. Ele sabe que gosto de ti e foi por isso que me contou. E foi por isso que quis falar contigo. Para te dizer que gosto de ti”, referiu Daniela. “Como? Mas Sophia, nunca me tinhas dito que gostavas de mim”, disse João. “O que me chamaste?”, perguntou Daniela. “Já fiz merda”, pensou João. “Chamei-te Daniela. O que te ia chamar”, justificou João, consciente do que tinha dito e na esperança de que a dúvida ficasse no ar. “Não! Chamaste-me Sofia ou Sophia”, disse Daniela, levantando-se e abandonando o café. João ficou sozinho na mesa. “Tens aqui o café. Desculpa o atraso mas não quis interromper”, justificou Carlitos. “Fizeste bem”, respondeu João. 

15 comentários:

  1. Quando não se olha para o nosso umbigo, deixamos passar muita coisa, supostamente boa...

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    1. Andar com a cabeça baixa leva-nos a perder muitos momentos.

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  2. AI O CARAAAAAAAAAAGO...então ???? este foi piquenino pah!!! assim numbale...

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  3. obaaaaa, obaaaaaa!
    está a ficar interessante... e mais e mais?

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  4. Boa noite Bruno!
    Opáaa... por esta reviravolta é que eu não estava à espera! Ainda pensei que a Daniela conhecesse a Sophia e quisesse ajudar o João... E agora? Como fica o coração do rapaz? Lá vai ele para casa com mais uma dor de cabeça para resolver... Que lindo triângulo amoroso se vislumbra...
    Continua, ok? Mas que não seja daqui a 3 semanas que eu não aguento tanto suspense!
    Um beijo

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    1. Falta saber se a Daniela apareceu aqui por acaso ou se veio para ficar. Vamos ver no que isto dá.

      Obrigado pelas palavras.

      Beijos

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  5. A Daniela aparece porque há uma sophia? Caramba nós as miúdas somos parvas mesmo... eu incluída

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    1. Deu-me para brincar com aquele sentido que dizem que apenas as mulheres têm e que as leva a prever tudo :)

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    2. E tens toda a razão, nós temos mesmo um detector... e sim fazemos isso que fez a Daniela... eu incluída :S

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    3. Mas o meu objectivo não foi esse. Foi a melhor maneira de a deixar na história e manter o poder de fazer com que fique ou com que seja excluída da mesma sem grandes complicações. Assim, ao revelar o amor que sente, fica tudo em aberto.

      Mas não nego que as mulheres sabem mesmo tudo. Aliás, pressentem tudo.

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  6. Parabéns...
    É preciso a continuação e rápido!!!!
    Pense seriamente em passar para livro..
    Andreia

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    1. Olá Andreia.

      Primeiro, podes tratar-me por tu, ok? Prefiro assim. Em relação ao livro, não é um objectivo até porque considero que não tenho o talento necessário para tal. Quando escrevi o primeiro "romance" foi a partir de um texto que não era para ter continuidade. Acabou por ter e deu no que deu.

      Depois, lembrei-me desta história. Tinha o início na cabeça. E tenho uma pequena ideia do fim. De resto, nada sei. Posso dizer-te que a Daniela apareceu enquanto escrevia. Por isso nem sei se fica ou se desaparece da história.

      E tudo isto se transforma num desafio que aconselho a todas as pessoas que gostam de escrever.

      Muito obrigado pelas tuas palavras.

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