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12.12.18

(des)encontros (capítulo vinte e um)


João e Inês continuavam a percorrer as ruas de Dublin e quem os visse iria garantir que eram um normal casal de turistas que visita a cidade. Porém, nem um nem outro iriam lembrar-se dos locais por onde passavam. Na cabeça de ambos estava apenas tudo aquilo que tinham acabado de viver. Ainda que não falassem sobre isso, João e Inês relembravam cada detalhe do intenso momento de paixão carnal que tinham acabado de protagonizar num beco irlandês. E nenhum deles tinha ainda a noção de que ambos desejavam não esquecer aquilo que tinha acabado de acontecer.

Quando trocavam palavras, João e Inês tentavam verbalizar o impacto que aquele momento teria no futuro de ambos. E aí destacava-se aquilo que tinham dito. Principalmente as ideias de Inês que deixavam João num mar de dúvidas. "Não teria gostado do que tinha acontecido ou estaria arrependida de o ter feito", eram as palavras que ecoavam na sua cabeça. Por outro lado, e era nisso que mais queria acreditar, agarrava-se à ideia de que Inês estava a escolher um caminho fácil que levaria a que se afastasse dela.

Inês tentava passar a ideia de uma mulher que não estava minimamente preocupada com aquilo que ia acontecer dentro de pouco tempo. E aquilo que mais temia era que estivesse a transmitir sinais físicos daquilo que estava realmente a pensar. E que não era muito diferente dos pensamentos de João. Acrescentando ainda o receio de estar a passar a ideia de que era uma cabra sem sentimentos. E foi por isso que ficou assustada quando João voltou a quebrar o silêncio que estava a imperar naquele momento.

"Sei que disse que queria aproveitar o momento sem me preocupar com o futuro, mas tenho de te perguntar isto", começou por dizer João. Inês engoliu em seco com medo do que poderia ouvir. "Peço-te que sejas sincera apenas nisto. Estás só a querer fazer com que me afaste de ti? Ou melhor, a tentar fazer com que não me aproxime em demasia de ti? E poderia alongar-me mais nos motivos em que estou a pensar, mas faço a pergunta apenas assim", disse.

Inês ficou calada. Muito mais tempo do que queria e do que imaginava ter passado. "Nem sei o que te responder. Nem sei o que estou a fazer", é aquilo mais sincero que posso dizer-te neste momento. "Não sei o que isto pode significar para ambos e não quero que nenhum de nós fique com uma péssima imagem um do outro", explicou. "Acho que é evidente que estou a adorar este momento e aquilo que tem acontecido, mas não posso pensar muito além deste momento. Nem o quero fazer", acrescentou. "E desculpa se não era isto que querias ouvir", disse Inês. "É justo", reagiu João.

30.1.17

(des)encontros (capítulo vinte)


Minutos depois de terem abandonado o beco, João e Inês passeavam pelas ruas de Dublin como um casal apaixonado que tinha escolhido aquela cidade como destino para umas férias românticas. De mão dada aproveitavam cada segundo como se fosse o último. E nenhum ousava falar sobre o verdadeiro significado daquele momento. Embora João pensasse que a qualquer momento aquela perfeição pudesse ser interrompida não queria dizer nada que levasse à conversa que acabariam por ter.

Inês pensava o mesmo. Neste assunto também estavam em sintonia. E não apenas na atracção física que os ligava. Os minutos iam passando. E continuavam a caminha de mãos dadas. Até que chegou o ponto em que João entendeu que o silêncio já se arrastava há demasiado tempo e que a conversa que podia vir a estragar tudo teria que acontecer mais cedo ou mais tarde. “Desculpa mas tenho que dizer isto”, disse João. “Isto o quê?”, perguntou Inês. “Sei que devemos viver o momento. Sei que devemos aproveitar o que temos sem perder tempo a pensar no que queremos ter mas qual o significado do que acabámos de viver?”, questionou.

“Disseste algo muito acertado. Devemos aproveitar o que temos. Não devemos perder tempo a imaginar cenários. Se começar a pensar no futuro vou estar a deixar de saborear este momento. E este momento inesperado está a saber bem demais para ser desaproveitado com previsões em relação ao meu futuro, ao teu futuro e ao nosso futuro. Até soa mal estar a dizer nosso”, explicou Inês com uma aparente seriedade até então desconhecida por João.

“Bem vistas as coisas até posso ser sincera contigo. Não existe futuro para nós. O nosso futuro começou a extinguir-se naquele beco e irá terminar com esta noite”, acrescentou. “Como assim?”, perguntou João, bastante admirado com o que acabara de ouvir. “Eu explico. Com o passar do tempo vais perceber que não sou a mulher que imaginas que seja neste momento. Só que nesse momento já vamos estar casados. Provavelmente até já teremos um ou dois filhos. Mais do que isso não. E nessa altura a nossa relação irá ser muito má. A comunicação entre nós irá ser praticamente inexistente. Vou começar a trair-te. E tu acabarás por descobrir os meus casos. O divórcio irá ser uma verdadeira guerra. Vais tentar fazer-me a vida negra e irei tentar que só vejas os teus filhos de quinze em quinze dias. E as crianças vão crescer com os pais sempre zangados. Por isso, e bem vistas as coisas, e até pelo bem das crianças, é melhor que as coisas fiquem por aqui. Assim, amanhã já não te lembras de mim nem eu de ti. E o futuro será mais risonho”, disse Inês.

Naquele momento o silêncio destacou-se. Inês mantinha olhava de forma séria para João, que por sua vez parecia ganhar coragem para falar. “Eu pensava que a minha viagem a Dublin estava a ser má. Depois, nas últimas horas, até acreditei que estivesse a ser melhor, que tivesse um significado, que estivesse destinado conhecer-te e quem sabe ter algo mais contigo. Afinal, neste momento já não tenho dúvidas de que nada podia correr pior nesta viagem”, disse, em tom de desabafo e com o olhar mais triste que alguma vez tinha feito.

“Mas não querias imaginar o futuro? Não foste tu quem quis saber qual o impacto daquele momento que vivemos no beco”, atirou Inês. “Fui mas...” começou a dizer sendo interrompido por Inês. “Não há mas nem meio mas. Quiseste o futuro. Ele acabou de passar na totalidade à tua frente. Está aí tudo aquilo em que penso neste momento. E é melhor ficar por aqui”, disparou, já com ar zangada. “Ok... Sendo assim boa noite”, disse João, voltando costas e começando a afastar-se num passo lento.

Até que sentiu a mão de Inês a agarrar o seu braço. “Estava a brincar contigo”, disse Inês já em lágrimas de tanto rir com a reacção de João. “Precisavas de ver a tua reacção”, acrescentou. “Isso não se faz. Especialmente depois de tudo o que já me aconteceu nesta viagem”, defendeu João. “Eu sei. Mas tinha visto esta piada recentemente nas redes sociais e achei que a podia colocar em prática contigo. Desculpa. A sério. Talvez tenha sido exagerado da minha parte”, disse, tentando dar um beijo a João para completar o pedido de desculpas. Mas João acabou por se afastar. “Não brincas assim comigo e depois pedes desculpa como se nada fosse. Agora foste longe de mais. E bem vistas as coisas o futuro é capaz de ser mesmo assim para o mau. Por isso é melhor cada um ir para seu lado”, atirou. Agora era Inês que estava triste. “Desculpa. Estava mesmo a brincar contigo. Sou mesmo assim e às vezes exagero um pouco. Mas não te queria magoar. Desculpa”, explicou. “As desculpas evitam-se”, atirou João.

O silêncio voltava a ser pesado. Inês olhava para João sem saber o que esperar. Até que João desatou numa gargalhada. “Devias ver a tua reacção. Muito bom!”, gracejou. “Parvo. Isso não se faz”, disse Inês. “O que esperavas depois do que me fizeste. Tinha de aproveitar este momento para me meter contigo. Era agora ou nunca. Até porque não vamos ter futuro”, brincou levando Inês a soltar uma gargalhada.

“Voltando ao futuro”, disse Inês. “Não é preciso falar disso. Eu é que sou assim e nunca irei mudar isso. Começo a imaginar umas coisas ao mesmo tempo que temo outras. E esta forma de ser tende a afastar as pessoas de mim a partir do momento em que ficam assustadas com algo. Daí ter receio de abordar isto contigo ao mesmo tempo em que não consigo evitar perguntar-te algo. Percebes ou é confuso?”, perguntou João. “Acho piada à tua falta de jeito a explicar estas coisas”, brincou. “Mas percebo bem o que pretendes dizer. Mas a verdade é que não sei se o nosso futuro vai além deste dia. E do momento em que a gente se separe. E acredito que também não saibas. Por mais coisas que possas imaginar. Até porque não sabemos muito bem o que esperar um do outro. Ou mesmo aquilo que realmente somos. O que te posso dizer é que este momento está a ser muito bom. E quero prolongá-lo ao máximo sem tentar perceber o que irá acontecer daqui a algumas horas”, explicou Inês.

8.1.16

(des)encontros (capítulo dezanove)


“João, quem está ali?”, perguntou Inês, incapaz de esconder o medo que sentia naquele momento. Toda ela tremia com receio da motivação de quem ali estava. Naqueles breves instantes, que pareciam horas, viajaram pela sua cabeça todas as histórias macabras que envolvem casais e que costumava encontrar estampadas nos jornais. João também estava assustado. Muito! Mas ao contrário de Inês fazia os possíveis para que aquilo que sentia não fosse perceptível para ela. Achava que era, ou eventualmente poderia ser, o único refúgio de Inês e isso impedia que mostrasse que estava assustado e receoso.

“Espera aqui que vou ver quem é”, disse João, enquanto afastava Inês com o seu braço direito, de modo a que ficasse segura. E apesar da simplicidade do gesto, a verdade é que tinha surtido efeito junto dela. Lentamente, mas tentando evidenciar confiança, avançou pela rua. Passo a passo. Ao estilo do que via nos filmes observou a rua com atenção de modo a encontrar algo em que pudesse pegar para usar em caso de um eventual confronto físico. Lá viu um pequeno ferro que agarrou e que escondeu atrás das costas, agarrando o mesmo como quem agarra um taco apenas com uma mão.

Continuou a percorrer a rua tentando mostrar confiança. “Quem está aí?”, perguntou, ficando sem resposta. “Quem está aí? Estou a falar contigo?”, insistiu recorrendo a um tom de voz mais elevado. Mas continuou sem resposta. Neste momento a confiança já era maior daquela em que ele próprio acreditava. Inês observava ao longe assustada. Assustada demais para dizer o que quer que fosse. Parecia uma menina assustada e encolhida no sofá de casa enquanto está a dar um filme de terror na televisão. Uma daquelas pessoas que apesar do receio não resiste a olhar para a televisão para saber o que irá acontecer. Assim estava Inês.

João acelerou o passo. Naquele momento a confiança era cada vez maior. “Não me estás a ouvir falar contigo?”, voltou a perguntar. “Estás aí a olhar para nós porquê?”, disse. “És daqueles que gosta de observar, é?”, disse, começando a andar ainda mais depressa e preparado para recorrer ao ferro que agarrava com a mão esquerda. Até que parou. Neste momento João era pouco mais do que um vulto para Inês, que ouviu o ferro cair. Nesse momento ficou ainda mais nervosa. De forma inesperada ouviu uma sonora gargalhada de João, que não conseguia parar de rir. Até já estava, ainda que não fosse perceptível para Inês, apoiado nos joelhos e a rir-se.

“Que foi? Que se passa?”, gritou Inês. “Não me deixes assim”, suspirou. João começou a correr na sua direcção. Sempre a rir. Algo que ela não compreendia. “Que foi? Que foi?”, insistiu. Até que João chegou perto de si. “Nem vais acreditar. Aquele vulto que continuas a ver ali ao fundo não é mais do que um daqueles bonecos que estão à porta dos restaurantes com a ementa. Não é mais do que isso”, disse, entre risos. “Mas aquela zona não tem luz nenhuma”, destacou Inês. “Não tem porque o restaurante está fechado. Só que, pelos vistos, deixam o boneco ali. E nós nem reparamos nele quando passámos por ele no outro lado da rua”, disse João, sendo incapaz de parar de rir. “Que momento delicioso”, acrescentou. Inês também já se ria. “É um bom momento porque não aconteceu nada”, disse. “Aposto que também estavas assustado”, referiu. “Eu?!?”, soltou João. “Nada disso! Estava pronto para tudo e ninguém te faria nada”, respondeu cheio de confiança, conseguindo esconder o medo que realmente sentiu.

“Ainda bem que não passou de um susto”, desabafou Inês. “Pensei naquelas histórias macabras que se ouvem e que têm casais como protagonistas. Estava mesmo cheia de medo”, disse. João aproximou-se, colocando as mãos nos ombros dela, deixando que as mesmas deslizassem pelos braços. “Achas mesmo que deixava que alguém te fizesse mal?”, disse num tom de voz mais baixo e colocado. “Quero acreditar que não”, referiu Inês. “Mas tenho de te contar uma coisa”, acrescentou João. “Vais assumir que estavas com medo?”, perguntou Inês. “Nada disso. Não tinha medo nenhum”, respondeu João com a mesma voz colocada. “Fui até ao início da rua apenas por um motivo. Para ser o primeiro a fugir”, disse. “Parvo!”, reagiu Inês não evitando uma sonora gargalhada. “A sério. Podia ser quem fosse mas não deixaria que te fizessem nada”, explicou João. “Devo confessar-te que este episódio deu-me vontade de dar um segundo capítulo à nossa história neste espaço”, disse João, puxando Inês para junto de si. Inês agarrou João, dando-lhe um caloroso beijo que deixou João à mercê do desejo. “Mas isto é a única coisa que levas de mim neste espaço”, gracejou Inês, agarrando a mão de João. “Vamos sair daqui e depressa”, disse.

29.10.15

(des)encontros (capítulo dezoito)


Inês e João permaneciam numa calorosa troca de beijos que tinha como cenário um beco pouco iluminado. As bocas funcionavam em sintonia como se parecessem uma só ou como se nunca tivessem sido estranhas uma para a outra. Já as mãos não pareciam uma só mas tinham em comum o facto de estarem a ser controladas pelo desejo mútuo. Pelo menos assim parecia. Até ao instante em que a troca de beijos e carícias foi interrompida por Inês. "Que foi?", perguntou João. "Fiz algo errado?", questionou. "Não. O mal não és tu", respondeu Inês com um ar muito sério. "O mal é meu. Não sei se quero isto. Acho que não", explicou. A cara de João mudou de cor fixando num tom pálido. "Ok...", disse ele como diz qualquer pessoa que não tem outra resposta para dar.

"Estava a brincar contigo", disse Inês começando de imediato a sorrir. João permaneceu sério. Inês assustou-se. Mas era apenas o troco dele que soltou um sorriso que Inês mal conseguiu ver pois rapidamente voltou a conquistar os seus lábios. E a brincadeira de Inês parecia ter mexido com João. Com receio de que aquela brincadeira se tornasse realidade João estava decidido a conquistar Inês, ali, naquele beco, o mais depressa possível num momento que não sabia se iria repetir-se. E isso notou-se no toque das suas mãos, que Inês passou a sentir diferente e que a arrepiou quando sentiu as mãos dele na sua cintura.

E enquanto utilizava a sua mão direita para sentir a pele de Inês e cada centímetro do seu corpo, pelo menos onde a sua mão chegava, deixava a mão esquerda entregue ao desejo cego, sem regras nem filtros. E num rápido instante, que as suas bocas faziam parecer uma imensidão de tempo, já tinha a sua mão esquerda no fecho do soutien de Inês. E ainda mais depressa o soltou sem que ela esboçasse qualquer reacção de que não o desejava. Nesse instante a sua mão direita juntou-se à esquerda e ambas despiram Inês num instante passando a estar despida da cintura para cima no beco. Já com a camisa e soutien no chão do beco João quis sentir as mamas de Inês, começando por lhes tocar provocando em Inês um misto de sensações algures entre o homem que toca nas suas primeiras mamas e aquele que sabe como deixar uma mulher excitada. E isto resultava em arrepios e numa crescente onda de desejo que impedia que quisesse parar.

Foi então que João afastou a sua língua e os seus lábios de Inês. Mas não muito. João dirigiu a sua boca até ao ouvido direito de Inês certificando-se de que ela sentia a sua respiração ofegante na sua pele. Foi então que lhe sussurrou ao ouvido "quero-te tanto", deixando-a completamente rendida. Nesse instante, Inês, com a sua mão direita apertou os cabelos de João e de imediato arrancou-lhe a roupa do corpo. "Tens noção do sítio onde estamos?", disse ela ofegante. "Só tenho noção do quanto te desejo e de que não te vou deixar escapar", disse-lhe. "Para me deixares escapar era preciso que quisesse fugir de ti", respondeu Inês, mordendo suavemente a orelha direita de João enquanto lhe despia as calças e os boxers.

Naquele momento já não existia beco. Para Inês e o João era o espaço que sempre esteve destinado aquela história de amor e logo a um capítulo tão quente. Guiado pelo desejo que não parava de crescer João despiu o pouco que faltava despir a Inês. Inês saltou para o seu colo. João agarrou-a pelas nádegas que apertou com força deixando Inês ainda mais excitada. João encostou Inês à parede e foi beijando o seu corpo enquanto Inês suspirava e gemia de desejo. Os corpos passaram a ser um só. E a sintonia entre ambos era o mais perto que podiam estar da perfeição. No meio do desejo Inês arranhou as costas de João que ficou também ainda com mais desejo. Nada os parava. Nada temiam. Só queriam dar continuidade aquele desejo que ambos sentiam. E assim fizeram até que João e Inês, quase em simultâneo soltaram um suspiro diferente de todos os outros, seguindo de uma respiração ainda mais rápida e ofegante.

Foi então que num momento de lucidez como ainda não tinha tido naquele beco que Inês olhou para o início da rua. E notou na silhueta de alguém que os observava no beco. O desejo deu lugar ao pânico. "João, está ali alguém a olhar para nós", disse. Vestiram-se ambos ainda mais depressa do que se tinham despedido e ficaram quase petrificados sem saber o que fazer. "E agora? Será a Polícia e ficou à espera que acabássemos? Ou, pior ainda, é alguém para nos fazer mal?", disse com medo estampado no rosto.

1.10.15

(des)encontros (capítulo dezassete)


“Já que estás numa de fazer alusões a filmes e visto que esta viagem está a ser tanto esquisita como inesperada, prefiro ir directo ao assunto”, disse João. “Como assim?”, perguntou Inês. “Não tenho que ver o filme todo para perceber que és a Kelly Lebrock em A Mulher de Vermelho pois não?”, questionou João. “Acho que nunca me tinham perguntado se era casada de forma tão divertida”, respondeu Inês com um sorriso nos lábios. “Mas podes ficar descansado que o meu marido não vai tocar à campainha quando estivermos na cama”, brincou Inês. “Ainda bem”, suspirou João. “Acho que não aguentava”, acrescentou. “Ele costuma ligar a dizer que vai para casa”, disse Inês. “Como?!?”, reagiu João com espanto. “Estou a brincar contigo. Neste momento não estou em nenhuma relação”, disse já com um ar mais sério.

“Neste momento. Isso é resposta de quem acabou uma relação recentemente”, referiu João. “Nem por isso. Isto é resposta de quem não sabe como vai acabar a noite”, explicou Inês deixando João sem palavras durante alguns segundos. “Ainda não percebi se me estás a seduzir ou se estás apenas a gozar comigo”, disse João. “Posso dizer-te que não costumo ser assim. Nem sempre reajo assim com os homens mas não deixo de achar piada que os homens fiquem envergonhados quando lidam com uma mulher que tem um comportamento que eles costumam ter”, argumentou Inês. “Isso é bem visto. Mas neste caso nem é por isso que estou a reagir deste modo. Estás a deixar-me sem saber como reagir porque não consegui perceber se estás a gozar comigo ou se queres algo de mim. E este querer diz respeito à sedução de que te falava”, justificou João.

“E se te disser que te estou a seduzir”, atirou Inês. “Pergunto porque estás a demorar tanto tempo a passar das palavras à acção”, respondeu João de imediato. “Porque ainda não saltámos a vedação”, disse Inês. “Vedação?”, perguntou João. “Não estávamos a falar do Notting Hill? O primeiro beijo não é no jardim depois de saltarem a vedação?”, questionou Inês. João pegou de imediato na mão de Inês. “Anda comigo”, disse. “Não me digas que conheces um jardim vedado em Dublin e que vamos realmente saltar uma vedação. “Não queiras saber o guião todo”, respondeu João. “Ou pior, não me digas que isto é o modus operandi dos teus engates e que sabes onde ficam os jardins vedados em todo o lado”, brincou. “Tenho de te corrigir. Tu é que te meteste comigo. E não tenho modus operandi. Pelo menos quando estou vestido”, gracejou.

João e Inês andaram durante largos minutos. Para ela, ele sabia muito bem para onde ia, tal era a determinação com que virava em cada rua. Na realidade ele andava sem rumo na esperança de encontrar um jardim que fosse. E assim foram passando os minutos. Sem qualquer palavra trocada. Eram apenas duas pessoas a percorrer as ruas de Dublin num passo acelerado. Até que entraram numa rua sem saída. “Merda. Isto não tem saída”, desabafou João. “Não me digas que estás perdido?”, perguntou Inês. “Conheces algum homem que se perca? É claro que sei onde estou. Anda daí”, disse, puxando Inês. Quando estavam para sair da rua, João reparou numa pedra mais alta no pavimento. “Cuidado, não tropeces”, disse. Inês, de mão dada a João, acabou por dar um pequeno salto para se desviar da pedra. “Aleluia”, foi a reacção de João, que de imediato puxou Inês para junto de si, colocando as duas mãos na sua cara e roubando, de forma inesperado, um beijo a Inês. Para ambos estiveram uma dezena de minutos de lábios colados e com as suas línguas numa perfeita harmonia. Na realidade foram alguns segundos.

“Isto não é um jardim. Aliás, é uma rua sem saída onde não há uma única flor”, realçou Inês. “Já estava farto de andar. Só esperava que desses um pequeno salto ou um passo maior para te desviares de algo. Esta foi a melhor vedação que consegui encontrar”, explicou João. “Desculpa mas não resisti”, acrescentou. “Mas não te desculpo. Quero um jardim”, referiu Inês. “Antes que digas algo, estou a brincar. Este jardim de betão serve muito bem e esta vedação era realmente gigante”, disse-lhe. “Mas se a sedução era minha, a iniciativa do beijo deveria ter sido minha”, argumentou. “Estás à espera do quê para o nosso segundo primeiro beijo?”, perguntou João, recebendo de imediato um beijo de Inês. “O meu foi melhor”, brincou ele. “Também não me estava a esforçar neste”, gracejou ela.

“Está a correr tudo muito bem mas jardim não existe. Banco para nos sentarmos também não. Olha que este filme nem sequer fica nomeado para os Óscares”, disse Inês. “Não existe jardim. Não existe banco. Mas uma rua sem saída é sempre óptima para filmes”, disse João. “De terror?”, pergunta Inês. “Nem sempre”, referiu João, encostando Inês a uma parede enquanto a beijava e enquanto as suas mãos começavam a percorrer o corpo dela. “Parece-me muito bem”, disse Inês entre beijos com as suas mãos já por baixo da t-shirt de João.

24.9.15

(des)encontros (capítulo dezasseis)


“Foda-se! Merecia um pouco mais de sorte”, desabafava João enquanto bebia mais um pouco de cerveja. “É certo que decidi fazer a viagem por mim e desconhecendo o que poderia suceder mas depois de acontecer o que aconteceu com a Sophia não precisava de ser humilhado pela Inês. Sorte de cão”, lamentava. “Não dá para acontecer algo bom?”, questionava. “Quer dizer... a cerveja até nem é má e o preço não é dos piores. Por isso não me posso queixar de tudo”, gracejou, acabando com a cerveja que tinha à sua frente, pedindo de imediato outra ao empregado de bar.

“Estás a falar sozinho?”, ouviu João. Era uma voz feminina que chegava das suas costas. “Inês?”, pensou. “Não pode ser pois acabou de me humilhar. Nem deve ser para mim que há portugueses em todo o lado”, foi aquilo em que pensou, permanecendo imóvel. “Estás mesmo a falar sozinho”, insistiu a voz. João acabou por se virar e deparou-se com Inês. “Tu?!? Não chega de humilhação?”, perguntou. “Não”, respondeu Inês. “Então não demores muito que o teu ´date jeitoso` está à espera”, disse João, apontando para a mesa onde estava o homem sozinho.

“Olha ele a fazer piadas e com ciúmes”, disse Inês, de sorriso estampado no rosto. “Achas que estou com ele? Estava a brincar contigo”, acrescentou. “Estavas a quê? Não achas que já sofri demais?”, respondeu João. “Não sei se sofreste demais. Achei que estares aqui sozinho é porque algo correu mal mas pensei que simplesmente podias não ter conseguido o que vinhas cá fazer”, explicou Inês. “E decidi brincar contigo pela reacção que tiveste quando pedi para te entregarem o meu cartão”, acrescentou. “Podes não acreditar mas fui tão parvo que pensei que me querias vender um seguro”, disse. “ahahahahahahahahahahahahaah”, reagiu Inês com uma gargalhada que captou a atenção de diversas pessoas. “Mas estás desculpado”, referiu. “Porquê?”, questionou João. “Quando os homens têm a cabeça numa mulher perdem o raciocínio e a lógica. Pouco ou nada te falei de trabalho e dava-te um cartão para vender seguros? Dei-te o cartão porque gostei de ti”, disse, deixando João sem reacção.

“Posso pagar-te uma bebida como pedido de desculpa?”, perguntou João. “Podes. Um copo do champanhe mais caro que esta casa tiver”, respondeu Inês. “Ouch! Mas a verdade é que mereço. Espera aí que vou pedir”, disse. “Queria mais uma cerveja se faz favor”, pediu ao empregado. Quando recebeu colocou o copo em frente a Inês. “Diz que é o melhor champanhe que têm aqui”, brincou motivando um sorriso em Inês. “Brincadeiras à parte, conta-me, caso queiras, o que correu mal no teu plano”, disse Inês.

“Gostas de coisas tristes?”, perguntou João. “Não”, respondeu Inês. “E de histórias tristes daquelas que ninguém suporta ouvir?”, insistiu. “Também não”, disse Inês. “E de histórias bonitas? De momentos felizes?”, perguntou João. “Disso já gosto”, referiu Inês. “Nesse caso vou contar-te uma história que se passou num bar, pode ser?”, disse João. “Vamos a isso que tenho tempo até que o meu namorado venha aqui ter connosco”, respondeu Inês. “A sério?”, perguntou João. “Estava a brincar”, gracejou Inês. “Então vamos a isto. Era uma vez um rapaz que fez uma viagem e que conheceu uma menina simpática no avião. Depois de alguns azares acabou a beber cerveja, quer dizer champanhe com essa menina num bar. Fim. Gostaste?”, perguntou. “Parece-me bem. Mas acabou depressa. A história deles fica pelo champanhe?”, disse Inês olhando fixamente João.

“Faltam alguns episódios na história dele entre o avião e o champanhe. Como tal é capaz de ser melhor acabar assim. Não foram felizes para sempre, pelo menos um com o outro, mas o final consegue ser simpático”, explicou João. “E eu a pensar que ia haver por aí umas cenas de sexo tipo 50 Sombras de Grey”, soltou Inês, fazendo com que João se engasgasse com a cerveja. “Não me digas que é agora que me vais confidenciar que afinal estás em Dublin porque é aqui que tens o teu quarto secreto e que pretendes fazer de mim o teu escravo sexual”, disse João. “Por acaso não. Tenho um quarto desses mas em Lisboa. Nem te passa pela cabeça as coisas que lá faço. Se te contasse ainda te engasgavas mais”, referiu Inês num tom de voz que deixou João sem perceber se era brincadeira ou se Inês estaria a ser sincera.

“Ainda bem que tens o teu quarto secreto a milhares de quilómetros daqui. Até porque apetecia-me mais uma cena ao tipo de Notting Hill”, disse João. “E tu fazes de Spike? Vais à porta em cuecas?”, pergunta Inês. “Deu para ver que gostas do filme. Mas posso dizer-te que preferia fazer ser o William e tu podias ser a Anna, mesmo sendo muito mais bonita do que a Julia Roberts”, disse. “E que cena do filme vamos fazer?”, perguntou Inês. “Aquela parte em que saltamos a vedação e vamos os dois sozinhos para o jardim. Até parece que já estou a ouvir o Ronan Keating a cantar When You Say Nothing at All”, explica João. “E não há uma única cena de sexo, ao estilo de Nove Semanas e Meia?”, pergunta Inês. “Não queiras saber o guião todo...”, disse João.

17.9.15

(des)encontros (capítulo quinze)


“João! João! Espera João”, continuava a gritar Sophia. Apesar de determinado em seguir o seu caminho João acabou por parar, curioso com aquilo que poderia ouvir. “O que me queres dizer?”, perguntou. “Já estou por tudo. Depois de ter feito a viagem que fiz, com o objectivo de te encontrar e depois de ouvir o que ouvi da tua boca, não há nada que me possas dizer que me deixe a sentir mais estranho do que já sinto. Mesmo assim dou-te algum tempo de antena”, disse.

“Quero que saibas que não esperava nada disto. Peço que te coloques no meu lugar e que imagines que sou eu que apareço na tua vida, num local onde não imaginas encontrar-me, aliás nem sequer imaginavas voltar a ver-me, e onde estás com a tua namorada. A tua reacção não seria igual à minha?”, perguntou. “Sim”, respondeu João de pronto. “Afinal não somos assim tão diferentes”, soltou Sophia.

“Isso já é uma coisa completamente diferente. Consigo colocar-me no teu lugar e assumir que teria uma reacção igual à tua mas nunca provocaria esta reacção. Nunca teria dito o que me disseste em Portugal. Nem faria de ti uma brincadeira no momento em que não estás perto do teu namorado. Acho que nem tens noção das coisas que disseste, dos desabafos que fizeste, daquilo que contaste da tua vida. Não tenho de te explicar tudo novamente mas pareces uma feliz prisioneira na vida que escolheste. Eu fui apenas uma brincadeira regada a álcool. Fui apenas a tua ligeira fuga à realidade. O teu escape. Sinto-me a moca da ganza que fumaste e de que te arrependes quando o efeito passa e só tenho de lidar com isso”, explicou João.

“Não digas isso. Estás a ser exageradamente duro comigo. Não mereço isso. E não sabes tudo da minha história com o meu namorado”, disse Sophia. “Não sei e neste momento já não quero saber. E por falar no teu namorado, deve ser aquele rapaz com ar aborrecido ali ao fundo a olhar para nós. Deves ter coisas para explicar. Adeus e sinceramente espero nunca mais te ver. Adeus”, disse João, voltando costas e abandonando o local.

Já na rua, João parou para respirar fundo e pensar no que tinha acabado de fazer. Por um lado era consumido por um sentimento de culpa. “Acho que fui muito duro com ela. Coitada. Se calhar volto lá para lhe pedir desculpa”, pensava. Por outro lado sentia orgulho. “Não vais nada pedir desculpa. Disseste o que tinhas de dizer e só tens de estar feliz por revelares uma força que julgavas não ter. Aprende com isto e vai beber uma cerveja”, era aquilo em que também pensava e aquilo em que acabou por se centrar, prometendo entrar no primeiro bar que encontrasse.

E não foram precisos muitos passos para encontrar um bar. Parecia estar cheio mas uma promessa não se quebra e João acabou por entrar. João não sabia se o aglomerado de pessoas estava relacionado com a proximidade ao local do concerto ou se seria sempre assim. Mas isso pouco importava. O que queria mesmo era beber cerveja e acabou por conseguir arranjar lugar num daqueles lugares presos ao balcão. Pediu uma cerveja e levou a mão ao bolso para ver as notas que tinha consigo. Quando as retirou sentiu um toque diferente. Era o cartão que Inês lhe tinha dado. “Como é que isto veio aqui parar?”, pensou. “Pensava que já tinha deitado isto fora. Não preciso de nenhum seguro”. Quando se preparava para amachucar o cartão na mão acabou por deixa-lo cair para cima do balcão. O cartão acabou por cair ao contrário e foi então que reparou que tinha algo escrito. “Se tiveres tempo livre liga-me. Este é o meu número pessoal”, era o que estava escrito acompanhado do número de telemóvel e ainda de um boneco a piscar o olho. “Que estúpido! Estou farto de falar mal do cartão e de me tentar impingir um seguro quando não era nada disso”.

Durante alguns instantes ficou a olhar para o cartão. Pegou no telemóvel e hesitou entre ligar ou não. “Posso ligar que não tenho nada a perder. Mas parece mal ligar e depois ter de contar que liguei porque algo correu mal. Mais vale não ligar”, pensava enquanto agarrava o cartão e o telemóvel. “Estás a pensar ligar-me?”, ouviu. Era Inês. “Não me digas que ias ligar-me”, insistiu. “Estava a pensar nisso”, foi a única resposta de que João se lembrou. “Mas agora já vais tarde. Se me ias ligar é porque algo correu mal na tua “missão”. E além de não ser uma segunda escolha já estou acompanhada pois aquele irlandês jeitoso está comigo”, disse apontando para uma mesa onde João viu um homem sozinho, sentado de costas. João ainda tentou falar mas Inês voltou-lhe as costas. “Acontece-me tudo hoje”, desabafou enquanto Inês se afastava.

13.8.15

(des)encontros (capítulo catorze)


Assim que a rapariga se voltou foi dissipada qualquer dúvida que ainda pudesse apoquentar João. Não existia qualquer dúvida de que era ela. Era a mulher que tinha arrebatado o seu coração em Portugal. De tal forma que era o protagonista de uma viagem com final desconhecido mas com o objectivo de a encontrar. Mas se não tinha qualquer dúvida de que era Sophia, existia algo estranho no seu olhar. Algo que João não conseguia decifrar. Uma reacção que não era perceptível para si.

"És a Sophia não és?", perguntou João. "Sim, esse é o meu nome. Posso ajuda-lo em algo?", devolveu Sophia, para espanto de João. "Sou o João. Não te recordas de mim?", insistiu. "Não! É verdade que me chamo Sophia mas não serei aquela que procura", explicou. "Mas...", disse João sem tempo de prosseguir a frase pois Sophia virou costas, juntando-se novamente às amigas. A tristeza apoderou-se de João. Ainda mais quando ouviu as amigas gozarem consigo e Sophia murmurar às amigas que devia ser um falhado qualquer à procura de uma pobre coitada.

Mas João não tinha dúvidas. Não era apenas o nome que unia aquela mulher ao motivo da sua viagem. Eram a mesma pessoa. Por momentos pensou abordar Sophia novamente. Acreditou que pudesse ser esquecimento. Acreditou que a noite pudesse ter sido marcante para si e não para ela. Mas quando se preparava para avançar em direcção a Sophia percebeu também que poderia estar a ser ignorado propositadamente. Ou que as duas amigas impedissem uma conversa normal entre ambos. O medo de ser ignorado uma segunda vez fez com que se afastasse. Lentamente, com a sensação de que o seu corpo tinha aumentado cerca de uma centena de quilos em breves segundos. E como se isso não bastasse ainda conseguia sentir diversas facadas no corpo. Estas eram as sensações com que se deslocava.

Assim que se cruzou com o primeiro empregado pegou num copo. Não reparou se era vinho branco. Ou tinto. Ou outra bebida qualquer. Pegou nele e bebeu tudo de uma vez. Estava num tal estado que já depois de beber conseguia ser perceber o que tinha bebido. Sabia apenas que não era água e que queria mais. Não interessava se saboreava ou identificava a bebida. Naquele momento a sensação de beber trazia-lhe o conforto de que necessitava. E que provavelmente, dadas as circunstâncias, só lhe poderia ser oferecido pelo álcool. E assim pegou no segundo copo, levando-o à boca. No momento em que se preparava para beber ouviu uma voz dizer o seu nome, enquanto lhe tocava no ombro. Voltou-se e viu Sophia. O que não impediu que bebesse mais um copo.

"Não devo ser o João que procuras", disse-lhe. "Não sejas assim. Desculpa ter fingido que não te conhecia mas são duas amigas do meu noivo. Elas não estiveram em Portugal e não sabem o que se passou. Se te falasse perto delas tinha muito para lhes explicar. E não me apetece isso. Indo ao assunto, até porque não tenho muito tempo que elas foram ao wc, o que fazes aqui?", perguntou Sophia. "Podia dizer-te que vim ao concerto e que por obra do destino acabei por me cruzar contigo por aqui. Mas estaria a mentir. Não consigo parar de pensar em ti desde aquela noite. E vim à tua procura sem ter a certeza de que te encontrava. Quando soube deste concerto, calculei que estivesses cá. E estavas", explicou João.

"À minha procura? Vieste de Portugal apenas por mim?", referiu com espanto. "Sim. Pela mulher que com um beijo me deixou num estado tal que sabia que não descansava enquanto não fizesse esta viagem. Mesmo desconhecendo o desfecho da mesma. Precisava mesmo desta viagem", disse. "Mas o que esperas de mim?", perguntou Sophia. "Queres que abandone tudo por uma noite e um beijo contigo?", insistiu. "Eu não quero nada disso. Queria apenas encontrar-te. Queria apenas ver a mulher que me beijou e que me disse que não estava muito feliz com a relação. Se bem me recordo até disseste que te sentias presa à relação e que tudo estava a avançar muito depressa", recordou João. "Aquilo que tenho para te dizer é que me deixaste com vontade de fazer esta viagem. Tal como tenho vontade de estar contigo. De te conhecer melhor. De tentar algo contigo. Era isto que te queria dizer", explicou.

"João...", suspirou Sophia. "Não sei o que te dizer. Foi uma noite de excessos. O álcool já falava por mim. E não vou trocar aquilo que tenho por ti. Não te conheço. Talvez tenha desabafado contigo por acreditar que nunca mais te via. Talvez seja só isso", referiu. Por mais vontade, e era muita, de chorar, João esforçou-se como nunca para não revelar a sua parte fraca. "Esta viagem merecia mais do que a desculpa do álcool. E já agora, costumas dizer a todas as pessoas que esperas nunca mais ver que nunca as esquecerás?", perguntou. "Já te disse que não estava bem em mim. Foi a situação, foi o ambiente. Foi tudo junto. Nunca imaginei que fizesses isto. Nem eu mereço isso", disse Sophia.

"Estamos de acordo na parte do não mereceres a viagem. Nem do outro lado da rua quanto mais a que fiz. A desilusão está muito próxima da mágoa e poderia dizer coisas de que até nem me arrependeria porque agora sou eu que acredito que nunca mais te vou ver. Mas não o vou fazer. Peço-te apenas que nunca mais faças isto a ninguém. Se não estás bem com a tua relação, não aproveites aqueles momentos de libertação, algo que aconteceu em Portugal, para magoares pessoas que nada têm a ver com a tua vida. E obrigado", referiu. "Obrigado?", perguntou Sophia. "Obrigado por me mostrares que precisava de fazer esta viagem por mim e não por ti. Obrigado por me ensinares, à bruta, que nem todas as histórias têm um final feliz. Que sejas feliz", disse, voltando costas a Sophia.

"João", chamou Sophia. João acabou por se voltar. "Só mais uma coisa. Tenho de me ir embora porque este desgraçado vai à procura de uma pobre coitada", gracejou, mostrando a Sophia que tinha ouvido as suas palavras às amigas. "Algo que só deverá acontecer quando chegar a Portugal. Porque a pobre coitada desta história eras tu. Adeus", disse, pegando em mais um copo de vinho que bebeu antes de se afastar de Sophia. "João! João! João! Espera", gritou Sophia.

6.8.15

(des)encontros (capítulo treze)


Não havia bar que o atraísse no caminho de regresso ao hotel. Por melhor que fosse o aspecto exterior. Por mais pessoas que estivessem à porta do mesmo. Por mais sede que tivesse. E por mais dinheiro que tivesse para gastar em mais uma ou várias cervejas. João estava cego. Parecia que vagueava num mundo só seu com ruas feitas no imediato e ao ritmo de cada um dos seus passos. O único ponto de ligação com a realidade era o medo de não ter acesso ao concerto. Independentemente de que a sua certeza em relação à presença de Sophia fosse na realidade uma incógnita.

"Ela vai lá estar! Ela vai lá estar! Ela vai lá estar!", dizia num tom de voz imperceptível. Repetia as suas palavras tal e qual um menino que foi castigado e que está a escrever a mesma frase um vasto número de vezes no quadro e que o faz com afinco e com receio de um novo castigo. Mas, por mais vezes que repetisse aquela frase, não conseguia evitar que surgissem outros dois pensamentos. Um deles num menor número de vezes. "E se está lá mas se não a encontras?", era algo em que pouco pensava porque não concebia essa hipótese. "E se não está?", era algo em que tentava não pensar por ser algo que não conseguia controlar.

Mais do que não controlar, João não queria pensar nisso por saber que era uma hipótese tão válida como a presença de Sophia no concerto. E que caso se verificasse reduzia drasticamente, de acordo com a sua forma de pensar, a probabilidade de se cruzar com Sophia em Dublin. Por isso preferia insistir até à exaustão no "Ela vai lá estar!". E foi assim que fez todo o caminho de regresso ao hotel. Nem sequer reparou nas duas amigas que se meteram consigo e às quais não ligou nenhuma. Tal como a marca da cerveja que tinha bebido, o número de vezes que repetiu a frase permitia que entrasse nos Guiness World Records como a pessoa que mais vezes conseguiu dizer uma frase num determinado tempo.

Já no hotel e num estado que impedia que pudesse relaxar em condições, deu por si a pensar noutro problema. "Se a encontrar, o que lhe digo?", foi a questão que passou a incomodar João. "Olá. Estás recordada de mim? Sou o João, de Portugal? Beijaste-me uma vez na tua despedida de solteira e tenho andado a percorrer Dublin à tua procura. É o que digo enquanto lhe aceno com a mão", ensaiou em frente ao espelho. "Medo!", foi a reacção ao seu ensaio. "Vai pensar que sou um louco", e foge de mim ao estilo do puto do Sozinho em Casa quando decide dar uso ao after-shave do pai.

"Também posso aproximar-me lentamente como se nada fosse e como se nem a tivesse visto. Mas sempre a fazer os possíveis para que repare em mim. Quando isso acontecer faço ar de surpreendido como se tivesse sido obra do destino pois calhou estar por ali", disse. "Esta parece-me uma boa opção. Ou será dos nervos?", prosseguiu como se mantivesse um diálogo com outra pessoa. "Ou então posso fazer como o Jim Carrey no Doidos à Solta. Arranjo um fato laranja e fico de cu empinado no bar a beber champanhe enquanto espero que ela me observe", pensou.

"Vou deixar estas decisões para outro momento. Não gosto de sofrer por antecipação e nem sei se tenho acesso ao concerto", disse, começando o telemóvel a tocar logo de seguida. Zé Manel é o nome que aparece no visor. "Já?!?", exclamou. "Ele disse que provavelmente não dizia nada hoje. Foi tão rápido. Quando assim é as notícias não são boas", temeu. "Estou?", disse muito a medo. "Já tenho uma resposta para ti", disse Manuel do outro lado. "Desculpa mas não consigo fazer nada. Aquilo já está lotado e o pessoal da editora daí já não tem mais convites. Desculpa", explicou.

"Ok...", reagiu João num tom de voz triste. "Já sabia que ia ser assim. Foi tudo inesperado e em cima da hora. Obrigado na mesma", disse. "Mas porque querias ir lá?", perguntou o amigo. "Vim até Dublin à procura de uma rapariga que conheci em Portugal. E acredito que ela vá lá estar. Era a melhor hipótese de a encontrar", desabafou. "Mas podes ir para a porta. Vais cedo e ficas à espera que as pessoas entrem", aconselhou Manuel. "Bela ideia Zé. Obrigado! É isso mesmo que vou fazer", disse com entusiasmo.

"Estava a brincar contigo. E nem precisas de o fazer", referiu Manuel. "Como assim? É a única solução", explicou João. "Era a única solução se o teu nome não estivesse na guest list do concerto", disse Manuel entre risos. "Estiveste a gozar comigo? Isso não se faz", lamentou João. "Não podia perder esta oportunidade puto. Até porque te devo umas quantas deste género. Não foi fácil mas por ti valeu a pena. Espero que a miúda esteja lá e que a encontres. Mas nem tudo é mau se correr mal", disse Manuel. "Como assim?", perguntou João. "O concerto é com bar aberto e numa fábrica de cerveja. É preciso explicar mais alguma coisa?", gracejou. "Muito mas muito obrigado". "Está lá por volta das 21h30 para entrares com calma. Grande abraço e boa sorte", concluiu Manuel.

Ainda não tinha terminado a chamada e já estava a sofrer um novo ataque de "ela vai lá estar!", ainda mais forte do que o anterior. Que se misturava com um novo ataque de "qual a abordagem a seguir". E foi de ataque em ataque que passou o resto do dia. E foi de ataque em ataque que acabou por se deixar dormir. Durante a noite murmurou algumas palavras para Sophia, naquela noite a protagonista de todos os seus sonhos. Já de manhã acordou assustado. Pegou no relógio e reparou que os ponteiros assinalavam as 10h23. "Já estou atrasado", exclamou em sobressalto. Os nervos eram tantos que demorou alguns minutos a perceber que era de manhã. E que ainda faltavam muitas horas para o concerto.

O resto do dia foi passado com mais ataques de "ela vai lá estar!". De resto, com o passar das horas definiu a abordagem a seguir. Aproximar-se de Sophia e contar a realidade, mesmo que corresse o risco de ser visto como um louco que larga tudo para ir atrás de uma mulher que mal conhece. Pelo menos seria sincero e isso nunca pode ser mau. Este era o seu modo de pensar e quando a lucidez se apoderava de si percebia que era o melhor caminho a seguir. As horas foram passando. O concerto cada vez mais perto. E os nervos cada vez mais intensos. Com a intensidade a aumentar a cada segundo que passava.

Chegou a hora de se despachar. Tomou um duche que não só o refrescou como acalmou. Limpou o corpo e atirou a toalha para cima da cama. Desodorizante, creme no rosto e no corpo. Vestiu as jude, as suas skinny jeans da Mango e calçou os ténis All-Star. Borrifou o tronco e o pescoço com o perfume Hugo Boss Red, vestiu uma tshirt branca e colocou a camisa vermelha e preta aos quadrados presa à cintura. Depois, abandonou o hotel rumo ao local do concerto que não era muito longe do local onde estava hospedado.

Eram 21h33 quando chegou à fábrica da Guiness. Deu o nome e entrou sem problemas, ficando com uma pulseira no pulso direito. Ainda teve tempo para visitar um pouco da fábrica antes de ser encaminhado ao local onde ia decorrer o concerto. Um espaço não muito maior do que a área do piso de um qualquer pavilhão desportivo. Numa das pontas estava montado o palco. Na outra existia um bar e a percorrer todo o espaço diversos empregados com bandejas com comida e com vinho. No bar a cerveja Guiness era à descrição. Abordado por um desses empregados aceitou um copo de vinho tinto que bebeu quase de seguida.

Aproximou-se de outra empregada para colocar o copo vazio na bandeja. Quando o fez reparou num grupo de raparigas que estava no bar a beber cerveja. Ainda não estavam muitas pessoas no espaço, o que tornava mais fácil reparar nas pessoas. Mas neste caso foi especial. João não tinha dúvidas. Tinha estado poucas horas com Sophia mas olhar para aquele grupo de amigas no bar foi suficiente para perceber que, mesmo estando de costas, a do meio era Sophia. Só podia ser ela. Tinha de ser ela. Foi aquilo que pensou a cada passo que deu enquanto se aproximou dela. Quando lá chegou, tocou-lhe ao de leve no ombro. "Sophia?", disse. A rapariga voltou-se para João. Era mesmo Sophia. "Sim", respondeu-lhe com espanto no olhar.

30.7.15

(des)encontros (capítulo doze)


João abandonou o aeroporto perante o olhar triste e desiludido de Inês. Apesar de não ter grandes planos esperava outra reacção da parte de João. "O desprezo com que tratou o cartão", pensou Inês. "A culpa é tua. Ainda acreditas nas pessoas", era o que dizia a si mesma. "Mas a verdade é que ele te disse qual o objectivo da sua viagem", prosseguiu. "Azar o dele. E o meu. Pois o rapaz até era engraçado e ao que parece vai ficar preso numa história de amor muito esquisita. Sortuda da rapariga que pode dizer que um rapaz fez uma viagem à sua procura sem saber no que vai dar a viagem", foi o último pensamento de Inês em relação a João.

Enquanto Inês deambulava de pensamento em pensamento, João entrou no primeiro táxi que viu. "É para o Maldron Hotel, na Cardiff Lane", disse ao taxista num inglês perfeito. O que levou a que o taxista metesse conversa consigo como se fosse de lá. "Sou português. Estou de férias", esclareceu. "A forma como fala parecia ser de cá. Pelo menos temos as dificuldades económicas a unirem-nos", referiu o taxista, naquilo que foi uma tentativa de fazer uma piada. Minutos depois João chegava ao hotel.

Despachou o check in e instalou-se no quarto. Desde criança que tinha a mania de se atirar para cima das camas sempre que chegava a um quarto de hotel. "Passou no teste", disse, depois de alguns saltos ao estilo da criança mais traquina que possa existir. Descalçou os ténis, colocou uma almofada por cima da outra e instalou-se para ver televisão. De comando na mão deu início ao zapping. "O que estás a fazer?", disse, como se estivesse mais alguém no quarto mas falando para si. "Estás noutro país e estás na cama a ver televisão. Sai e vai passear", respondeu a si mesmo naquilo que poderia ser visto como um auto raspanete. Segundos depois estava calçado e de saída do hotel.

Saiu do hotel, voltou à esquerda e percorreu a rua até ao rio Liffey. Enquanto admirava o edifício moderno situado na outra margem reparou num grupo de pessoas à porta de um edifício de fachada vermelha. Apenas o andar de baixo. A tarde já estava perto do final e era comum que os irlandeses se juntassem em bares para um copo e dois dedos de conversa antes de rumar a casa. "Cerveja e um bar com a cor mais bonita do mundo. Estou conquistado", disse, antes de entrar no bar. Até chegar ao balcão cumprimentou todas as pessoas por quem passou. Já no balcão acalmou a sede com uma Guiness. Minutos depois estava de saída.

Em vez de voltar para o hotel preferiu passar para a outra margem do rio e foi entrando nos bares que captavam a sua atenção. Quer fosse pelo ambiente à porta dos mesmos, pela decoração ou por outro motivo qualquer. Até porque para João todos os motivos são bons para beber mais uma cerveja. Porque João não se limitava a entrar nos bares. Naqueles em que entrava tinha de beber pelo menos uma cerveja. O pouco tempo quem estava sentado fazia com que o efeito das mesmas não fosse tão sentido.

Além dos bares entrou ainda num ou noutra loja onde em que os ténis se destacavam nas montras. Não tivesse acabado de chegar e já tinha comprado alguns pares para levar para casa. Mas preferiu deixar essas compras para outro momento da viagem. Neste momento estava mais preocupado com a sua missão de exploração dos bares irlandeses. Até ao momento estava rendido aqueles onde se cruzava com homens mais velhos com quem trocava um ou dois dedos de conversa sobre tudo e mais alguma coisa. Nada melhor do que uma boa conversa para acompanhar uma cerveja gelada.

De bar em bar e de cerveja em cerveja João já nem se recordava do motivo da sua viagem. Pareciam apenas mais uma férias, ainda que sozinho. E tudo corria bem. Até que à porta de um dos bares recebeu um flyer onde se destacava um pequeno concerto concerto dos The Sript, que estavam de regresso a casa para uma actuação na Guiness Storehouse. Que era já na noite seguinte. "Onde posso comprar bilhetes para este concerto?", perguntou ao rapaz que lhe tinha entregue o folheto.

"Já está esgotado. O local não é muito grande e eles decidiram apresentar o álbum mais recente em Dublin. Sendo de cá, isto esgotou logo. Estamos a entregar os flyers porque têm mais espectáculos", explicou-lhe. João transformou-se no desalento em pessoa. "Foda-se! Que merda. Tenho a certeza de que a Sophia vai lá estar. Tenho de arranjar maneira de entrar aqui", disse em voz alta mas em português, o que deixou o rapaz a perguntar o que estava a dizer. "Problems mate. Just problems", respondeu.

"Pensa! Pensa! Pensa!", insistia, já com desespero, na esperança de encontrar uma solução à força. "Já sei!", exclamou, fazendo com que as pessoas ao redor olhassem para si como quem olha para um louco que sorri sozinho no meio da rua. João pegou no telemóvel e fez uma chamada. "Estou Zé Manel, tudo bem? Como estás?", perguntou. "Tudo bem e contigo?", respondeu o amigo. "Está tudo porreiro mas preciso de um gigantesco favor teu. Mas primeiro tenho de te fazer duas perguntas", disse. "Chuta", respondeu o amigo. "Ainda trabalhas na Sony Music Portugal?, perguntou. "Sim", respondeu. "E os The Scritp ainda são vossos?", perguntou. "São, porquê?", devolveu o amigo. "Estou em Dublin e sei que amanhã há um concerto deles na Guiness Storehouse. Os bilhetes estão esgotados e preciso de lá entrar. Vais ter de me safar", explicou João.

Manuel começou a rir-se. "Nem te vou perguntar o motivo desse desejo", disse. "Sabes que por ti só não faço o que não consigo. O tempo não é muito mas deixa ver o que consigo fazer. Hoje já não te devo ligar mas amanhã telefono, ok? Até lá bebe uma cerveja por mim", disse. "Se me meteres lá dentro acabo com toda a cerveja da fábrica", respondeu João. "Obrigado puto. Aquele abraço", disse antes de desligar. "Tenho de conseguir entrar. Tenho a certeza de que ela vai lá estar. Tenho a certeza", foi apenas aquilo em que conseguiu pensar enquanto regressava ao hotel sem reparar em mais nenhum bar.

9.7.15

(des)encontros (capítulo onze)


O avião ainda não tinha levantado começado a andar e já o homem que tinha ocupado o lugar de Inês, se bem que na prática era a mulher que estava no lugar errado, ressonava emitindo um som que era audível nas, para ser simpático, dez filas mais próximas. Numa altura em que estava sem ouvir música, João dividia a sua irritação entre o sonoro ressonar do homem e o seu perfume onde o tabaco e a transpiração se misturavam em quantias perfeitas resultando num cheiro que era tudo menos agradável. "Só tens o que desejas, por isso não te queixes", repetia em loop.

Minutos depois e o avião levantava voo com destino a Dublin. Algo que passava completamente despercebido ao companheiro de viagem de João. Foi já com alguns minutos de viagem que João sentiu um peso no seu ombro direito. Além de ressonar, o homem era daqueles que apoiava a cabeça nas pessoas que estavam ao seu lado sem dar por isso. Discretamente João deu um toque no homem. Mas sem o acordar. A única coisa que conseguiu foi alterar ligeiramente a sua respiração.

Foi então que levantou, já sem se preocupar com a discrição, a cabeça do homem. Que, mais uma vez, não acordou. Mas do mal o menos. A sua cabeça estava direita. Voltava apenas a ter dois obstáculos: o ressonar e o cheiro. "A viagem não demora muito", pensou. Ainda o pensamento não tinha terminado e já a cabeça do homem repousava no seu ombro. Os vinte minutos seguintes foram passados com João a endireitar a cabeça do homem. Acreditando sempre que ficaria direita. Mas sem sucesso. Isso só acontecia quando a cabeça tombava para o outro lado. Só aí é que o homem se endireitava sendo que segundos depois já tinha a cabeça no ombro de João.

Em desespero João chamou a hospedeira. "Em que posso ajudar?", perguntou. "Diga-me que tem um lugar vazio no avião", disse João. "O que se passa senhor?", insistiu. "Este senhor está a adorar o meu ombro. Mas é um amor que não é recíproco", explicou motivando um sorriso na hospedeira. "Peço desculpa pela reacção mas teve piada", referiu. "Não faz mal. É que já tentei tudo, sempre sem sucesso", disse. "Mas infelizmente não existem lugares disponíveis. O avião está cheio. Vai haver uma final de uma competição de futebol em Dublin", explicou a hospedeira. "Quer que acorde o senhor?", perguntou. "Deixe estar. Eu sofro mais um pouco é que já conheci a má disposição do senhor e não quero que sobre para si", concluiu João.

"Só tens o que desejas. Por isso aguenta mais um pouco", pensou. Colocou o volume da música no máximo e desistiu de tentar endireitar a cabeça do homem. Minutos depois ficou sem música. O volume tinha aumentado o consumo da bateria e agora só tinha como música o ressonar do homem. Quando olhou para o seu ombro já tinha um fio de baba e uma pequena mancha na camisola. "Eu mereço tudo isto", pensou. Tentou abstrair-se da situação pensando no que faria em Dublin caso encontrasse a mulher que procurava.

"Senhores passageiros, vamos iniciar a descida e dentro de minutos aterramos em Dublin", disse o comandante. "Aleluia. Vou livrar-me deste homem", soltou. Pouco tempo depois o avião aterrava. Sempre com o homem a dormir. Até que se ouviu o sinal sonoro que indica que os passageiros podem retirar o cinto de segurança. Esse som parecia um despertador pois o homem acordou de imediato. "Já chegámos?", perguntou. "Parece que sim", respondeu João. "Estes aviões não são nada confortáveis. Estou todo dorido", desabafou. "Ninguém diria", disse João num tom de voz imperceptível. "Como?", perguntou o homem. "Nada. Estava a falar sozinho", referiu.

Como é hábito nos aviões a pressa das pessoas originou uma pequena fila dentro do avião. João, que só queria livrar-se do homem, estava no meio da mesma. Até que sentiu um toque no ombro. "Que foi agora?", disse, antes de se virar. "Peço desculpa mas não é preciso falar nesse tom de voz comigo", foi o que ouviu de uma voz masculina que não a do homem que estava ao seu lado no avião. "Peço desculpa. Pensava que era outra pessoa", justificou. "Foi aquela senhora que me pediu para lhe entregar isto", disse, apontando para Inês, que estava a algumas pessoas de distância de João. "Obrigado", disse João pegando num pequeno cartão e acenando para Inês que sorria para si.

João olhou para o cartão. "Mediadora de seguros? Eu não preciso disto. Preciso é de sair do avião. Foi simpática mas também não precisava de me impingir o cartão com os contactos profissionais na esperança de me vender um seguro", disse para si mesmo, atirando o cartão para dentro da mochila, num gesto que Inês observou e que fez com que perdesse o sorriso. Pouco depois já estava fora do avião e fora do aeroporto. Seguia dentro de um táxi, rumo ao hotel, sem que tivesse ficado à espera de Inês para lhe dar uma palavra.