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23.9.26

uma estação chamada terra dos sonhos: até sempre, jorge palma

Ontem, o dia acordou mais cinzento. Recebi a notícia como quem perde um amigo próximo, mesmo que  não o fosse. É que o Jorge Palma não era só um cantor; ele era, e é, a banda sonora de muitas das nossas vidas.

Sabes, quando a vida aperta, quando o mundo lá fora parece um caos ou quando a solidão teima em bater à porta, há refúgios. Refúgios que não são lugares físicos, mas sim melodias, versos, acordes. Para mim, um desses refúgios sempre foi a "Terra dos Sonhos".

Esta música não é só uma canção pop. É um hino à resiliência, à capacidade humana de sonhar acordado, de criar um universo próprio onde podemos ser quem quisermos. Quando ouço o piano inicial, sinto uma espécie de bálsamo. A voz do Palma, rouca e sentida, convida-nos a fechar os olhos e a viajar para esse lugar.

"Fechei os olhos, imaginei..."

É um exercício simples, não é? Mas quão poderoso é. A Terra dos Sonhos dele não é um conto de fadas açucarado. Tem a sua dose de melancolia, de saudade, de "desassossego", como ele cantava noutro tema. Mas é, acima de tudo, um lugar de esperança. Um lugar onde a noite se dissipa e o sol nasce, onde o amor triunfa, nem que seja por instantes.

O Jorge Palma partiu para a sua própria estação, para o seu horizonte final. Mas deixou-nos o mapa. Deixou-nos esta canção, e tantas outras, como um farol. E é por isso que, em dias como hoje, não devemos apenas chorar a sua partida, mas celebrar a sua vida e a sua obra.

O Palma não morreu. Ele mudou de palco. E se o conhecíamos, sabemos que ele está algures, num piano de cauda, a tocar para as estrelas.

Por isso, se hoje te sentires um pouco perdido, faz um favor a ti próprio: põe a tocar "Terra dos Sonhos". Fecha os olhos. Imagina. Deixa-te levar pela melodia. Porque, como ele nos ensinou, a nossa imaginação é a ferramenta mais potente que temos para construir o nosso próprio refúgio.

Obrigado, Jorge. A viagem continua.

Até sempre.

27.12.24

é a vida que segue e não espera pela gente

Existe uma música de Mariza de que gosto muito. Falo de Melhor de Mim. Sendo que estou a começar o texto a falar desta música porque quero pegar numa parte da letra que faz todo o sentido para aquilo de que quero falar. "É a vida que segue e não espera pela gente", canta Mariza com a sua voz característica. E por que pego nestas palavras? É que porque estou a viver uma fase da minha vida em que o tempo parece passar muito mais depressa. Parece que vai em excesso de velocidade na autoestrada. Ou, por outras palavras, parece que estou sentado à janela de um comboio que segue a uma velocidade tão rápida que aquilo que vislumbro do lado de fora são apenas manchas de cor.

Quando somos pequenos estamos sempre com vontade de crescer. É o desejo de ter os 18 anos. É o desejo de sair à noite. De ter carta e de ter condução. Depois, queremos algo mais à frente. Já pensamos em outras coisas. Até que damos por nós a perceber (é nisto que acredito) que tivemos vontade de viver demasiado depressa uma das fases mais bonitas das nossas vidas. Pare depois chegarmos ao momento em que só queremos que o tempo passe mais devagar. Que circule na autoestrada dentro do limite de velocidade. Ou que, se fosse um comboio, ande a uma velocidade que permita observar cada detalhe da paisagem.

A minha filha tem apenas quatro anos, mas dou por mim cheio de saudades de pequenos detalhes que vivemos. De coisas que ela gostava de fazer e que agora já não faz. E isto aplica-se a quase tudo o que é bom na vida. Existe uma publicação viral nas redes sociais que mostra um grupo de amigos a jogar futebol. Depois, diz algo como isto. "Um dia saímos de casa para ir jogar futebol com os amigos sem saber que era a última vez que o faríamos". E é muito isto. E quem ler isto certamente que irá associar este cenário do futebol a muitas outras coisas da vida.

E como a vida segue e não espera pela gente, cada vez mais evito o que é tóxico. Afasto-me de pessoas que não me acrescentam nada. Agarro-me às pessoas que fazem o meu coração bater mais depressa. E tento viver os momentos com intensidade por talvez ser a última vez que acontece algo específico de que gosto. Não sei se esta será a melhor estratégia de todas. Mas de uma coisa estou certo: Dá-me paz de espírito. E isto vale ouro.

12.3.19

que mal é que eu fiz a alguém?

Acho que já todos passámos por isto. Quando não conseguimos realizar algo que muito desejamos, ou simplesmente quando um plano corre mal, damos por nós a perguntar: "que mal é que eu fiz a alguém?". Tentamos encontrar uma justificação que passe por algo que não nos diz respeito. Por algo ou alguém que está a impedir a nossa felicidade, independentemente da forma como é medida, de ser plena.

Não sei se isso acontece com quem está a ler este texto, mas assumo que acontece comigo. Já dei por mim, em diversas ocasiões, a pensar nisto. E quanto mais penso, mais profundos e alargados são os pensamentos. Dou por mim a pensar em coisas como "deve ser porque não mereço", "devo estar a pagar pelo mal que fiz a alguém", "não é para mim" e por aí fora. É certo que não costumo encontrar uma resposta, mas penso nestas e em muitas outras hipóteses.

Depois, dou por mim a pensar no tal destino e naquilo que está eventualmente programado para nós e que não depende das nossas vontades. Até que ponto isto é verdade. Até que ponto é que somos nós que temos o poder de escolher tudo aquilo que desejamos, sem depender de nada ou de ninguém. E mais uma vez, são mais as dúvidas do que as certezas.

O que é certo é que, enquanto penso nisto, existem coisas que se realizam e outras que vão ficando para trás. Coisas que continuo a desejar e outras que começam a fazer com que acredite noutras coisas, noutras realidades. E se há dias em que estas deambulações até têm a sua piada, noutros são uma merda. Haverá quem diga que esta é a piada da vida ou que devemos lutar por tudo o que queremos, mas não sei até que ponto será mesmo assim.