1.10.26

mete o teu filho no lugar do cristiano ronaldo

Vou pedir-vos um favor. Esqueçam o protagonista desta história e imaginem que é o vosso filho, que está a jogar futebol.

O treinador manda (porque mandam no jogo, não pedem) o vosso filho ir aquecer. O vosso filho aquece, aquece, aquece, aquece tanto que já ferve, mas não vai a jogo. E viu outros aquecerem e serem chamados para entrar.

No final do jogo (e eu já passei por isso) destaca-se a frustração. Pelo simples facto de que não se foi a jogo (e qualquer jogador acredita que merece estar sempre em campo). E porque se aqueceu sem acabar por ser opção para entrar.

Depois, o treinador tanto pode justificar ao vosso filho o motivo pelo qual não foi a jogo, como pode nada dizer e avançar para mais uma semana de treinos normal.

Agora, pergunto. O que vocês fazem?

Vão dizer ao vosso filho para abandonar a equipa porque não joga? Vão dizer que o vosso filho não foi respeitado neste episódio (que, recordo, foi apenas um)? Vão dizer para trabalhar mais e melhor para mostrar ao treinador que merece ir a jogo já no próximo encontro?

Agora, volto a Cristiano Ronaldo, o protagonista desta história. Pouco ou nada posso dizer sobre o talento de Cristiano Ronaldo. Aquilo que tem feito fala por si. São 5 Bolas de Ouro e muitos troféus que espelham o valor de um dos melhores jogadores da história do futebol.

Mas o estatuto de Cristiano Ronaldo (ou de outro jogador qualquer) só conta antes do jogo e depois do jogo. No jogo jogado, nem Cristiano Ronaldo nem qualquer outro jogador pode ser diferente dos colegas. Por mais talentoso que seja, por mais troféus que tenha conquistado. Quando a bola rola, existem duas coisas que importam: a equipa e o símbolo que se carrega ao peito (clube ou seleção). E NUNCA o nome que se tem nas costas.

Assumo que me faz confusão quando as pessoas ficam escandalizadas pelo facto de Cristiano Ronaldo (ou outro jogador qualquer, seja um astro ou um desconhecido) não poder aquecer e não ir a jogo. Algo que lhe aconteceu UMA vez. Naquele momento, Cristiano Ronaldo é mais um para ajudar. E certamente que Jorge Jesus nem se lembrou, durante um jogo complicado, que tinha Ronaldo a aquecer e que não o ia meter a jogar. E aposto o que quiserem que, caso Jorge Jesus tivesse chamado Ronaldo para se sentar no banco porque não ia a jogo, ia ser o mesmo filme. Porque continuariam a defender que não se pode mandar o jogador aquecer e depois sentar.

Volto a dizer, Cristiano Ronaldo é um jogador de dimensão planetária. Mas no ambiente de jogo da seleção (e clube) tem de ser mais um. Porque tudo o resto que vá além disto é passar a mensagem errada para o grupo. Do estilo: existem regras para vocês e existem regras para o vosso colega que é muito melhor do que vocês. Isto, aos meus olhos, não faz sentido. Isto parte grupos.

E acho inconcebível que um jogador diga que é mais um na seleção, que está ali para ajudar, jogando ou não e que vá para o balneário porque... não jogou. Um capitão que ignora portugueses por causa do ego que faz com que fique frustrado por não ter jogado. E que abandone 24 colegas de equipa, a 24 horas de um jogo importante, porque tem um diferendo com o treinador. 

Aceito que pensem de forma diferente, mas eu não consigo aplaudir isto. Venha de Cristiano Ronaldo (que tem de ser um exemplo) ou de qualquer outro jogador.

Se as pessoas pararem para pensar um pouco, Jorge Jesus está a ser arrasado por algo que é uma obrigação de todos os treinadores: pensar no colectivo acima do individual.

Por fim, deixo uma partilha curiosa de uma realidade diferente, mas que tem a ver com futebol e egos e que testemunhei de perto.

Jogo amigável de uma equipa de formação. O treinador retira vários titulares, entre eles a “estrela” da equipa. Manda todos para o banho, menos o “craque”. “Fica aqui que ainda vais voltar a jogar”, diz-lhe. Passado um pouco, diz-lhe para ir aquecer. Depois, chama-o. “Estás quente?”, pergunta-lhe. “Estou”, diz o jogador. “Então vai tomar banho, para arrefeceres”. Se ele ficou contente? Não. Mas não abandonou a equipa nem fez um pé de vento.

Daqui podia, mas isso daria um texto gigante, saltar para os pais dos jovens jogadores deste país que são (peço desculpa pela honestidade) uma das maiores doenças do futebol de formação. Pais que defendem aquilo que está a acontecer, pais que ofendem treinadores, pais que ofendem outros pais e pais que estão sempre a minar o jovem jogador, a acreditar que vai ser o próximo Cristiano Ronaldo. E não vai, lamento desiludir.