9.7.15

(des)encontros (capítulo onze)


O avião ainda não tinha levantado começado a andar e já o homem que tinha ocupado o lugar de Inês, se bem que na prática era a mulher que estava no lugar errado, ressonava emitindo um som que era audível nas, para ser simpático, dez filas mais próximas. Numa altura em que estava sem ouvir música, João dividia a sua irritação entre o sonoro ressonar do homem e o seu perfume onde o tabaco e a transpiração se misturavam em quantias perfeitas resultando num cheiro que era tudo menos agradável. "Só tens o que desejas, por isso não te queixes", repetia em loop.

Minutos depois e o avião levantava voo com destino a Dublin. Algo que passava completamente despercebido ao companheiro de viagem de João. Foi já com alguns minutos de viagem que João sentiu um peso no seu ombro direito. Além de ressonar, o homem era daqueles que apoiava a cabeça nas pessoas que estavam ao seu lado sem dar por isso. Discretamente João deu um toque no homem. Mas sem o acordar. A única coisa que conseguiu foi alterar ligeiramente a sua respiração.

Foi então que levantou, já sem se preocupar com a discrição, a cabeça do homem. Que, mais uma vez, não acordou. Mas do mal o menos. A sua cabeça estava direita. Voltava apenas a ter dois obstáculos: o ressonar e o cheiro. "A viagem não demora muito", pensou. Ainda o pensamento não tinha terminado e já a cabeça do homem repousava no seu ombro. Os vinte minutos seguintes foram passados com João a endireitar a cabeça do homem. Acreditando sempre que ficaria direita. Mas sem sucesso. Isso só acontecia quando a cabeça tombava para o outro lado. Só aí é que o homem se endireitava sendo que segundos depois já tinha a cabeça no ombro de João.

Em desespero João chamou a hospedeira. "Em que posso ajudar?", perguntou. "Diga-me que tem um lugar vazio no avião", disse João. "O que se passa senhor?", insistiu. "Este senhor está a adorar o meu ombro. Mas é um amor que não é recíproco", explicou motivando um sorriso na hospedeira. "Peço desculpa pela reacção mas teve piada", referiu. "Não faz mal. É que já tentei tudo, sempre sem sucesso", disse. "Mas infelizmente não existem lugares disponíveis. O avião está cheio. Vai haver uma final de uma competição de futebol em Dublin", explicou a hospedeira. "Quer que acorde o senhor?", perguntou. "Deixe estar. Eu sofro mais um pouco é que já conheci a má disposição do senhor e não quero que sobre para si", concluiu João.

"Só tens o que desejas. Por isso aguenta mais um pouco", pensou. Colocou o volume da música no máximo e desistiu de tentar endireitar a cabeça do homem. Minutos depois ficou sem música. O volume tinha aumentado o consumo da bateria e agora só tinha como música o ressonar do homem. Quando olhou para o seu ombro já tinha um fio de baba e uma pequena mancha na camisola. "Eu mereço tudo isto", pensou. Tentou abstrair-se da situação pensando no que faria em Dublin caso encontrasse a mulher que procurava.

"Senhores passageiros, vamos iniciar a descida e dentro de minutos aterramos em Dublin", disse o comandante. "Aleluia. Vou livrar-me deste homem", soltou. Pouco tempo depois o avião aterrava. Sempre com o homem a dormir. Até que se ouviu o sinal sonoro que indica que os passageiros podem retirar o cinto de segurança. Esse som parecia um despertador pois o homem acordou de imediato. "Já chegámos?", perguntou. "Parece que sim", respondeu João. "Estes aviões não são nada confortáveis. Estou todo dorido", desabafou. "Ninguém diria", disse João num tom de voz imperceptível. "Como?", perguntou o homem. "Nada. Estava a falar sozinho", referiu.

Como é hábito nos aviões a pressa das pessoas originou uma pequena fila dentro do avião. João, que só queria livrar-se do homem, estava no meio da mesma. Até que sentiu um toque no ombro. "Que foi agora?", disse, antes de se virar. "Peço desculpa mas não é preciso falar nesse tom de voz comigo", foi o que ouviu de uma voz masculina que não a do homem que estava ao seu lado no avião. "Peço desculpa. Pensava que era outra pessoa", justificou. "Foi aquela senhora que me pediu para lhe entregar isto", disse, apontando para Inês, que estava a algumas pessoas de distância de João. "Obrigado", disse João pegando num pequeno cartão e acenando para Inês que sorria para si.

João olhou para o cartão. "Mediadora de seguros? Eu não preciso disto. Preciso é de sair do avião. Foi simpática mas também não precisava de me impingir o cartão com os contactos profissionais na esperança de me vender um seguro", disse para si mesmo, atirando o cartão para dentro da mochila, num gesto que Inês observou e que fez com que perdesse o sorriso. Pouco depois já estava fora do avião e fora do aeroporto. Seguia dentro de um táxi, rumo ao hotel, sem que tivesse ficado à espera de Inês para lhe dar uma palavra.

14 comentários:

  1. Estou a gostar muito deste livro ;) e gostei bastante da parte em que ignorou a Inês :) ... Fico a aguardar o próximo capitulo :)

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    1. Ainda estou a pensar no impacto que a Inês terá ou não na história :)

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    2. :) acho que ela tem algum potencial para algum (não muito) impacto ;) mas dúvido que ele lhe telefone ...quem sabe se cruzam outra vez e o encontra numa fase mais frágil :)

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  2. Come on!!!!
    A aguardar o próximo....

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  3. MAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIS FAXABOR.... li os últimos 8 de rajada...

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    1. Obrigado!

      Vou tentar escrever mais um esta semana.

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  4. Cá para mim, ele não encontra a sua amada e ainda vai ficar é com a Inês, ahahah

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  5. Nem acredito que já escreveste este episódio no dia 9 e só o estou a ler hoje... fogo... shame on me! Andei distraída!
    Adorei a imagem do fio de baba... lol... Que viagem "inesquecível".... hihihihih
    E agora? Será que a procura vai ser fácil? Será que a Inês se vai cruzar com o João nos próximos episódios?
    Waiting for the next one!
    Beijinhos

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