Com a morte de Eusébio, Portugal perde o seu
maior jogador de todos os tempos. E não digo isto por ser benfiquista. Mas
enquanto pessoa que ama futebol e que é incapaz de comparar um jogador dos
tempos de Eusébio a alguém dos dias de hoje. Não entro em comparações porque
nos tempos de Eusébio não se faziam substituições. As bolas pesavam muito mais.
Os equipamentos não tinham as tecnologias da actualidade. Os treinos eram
diferentes. Os tratamentos e recuperações também. Enfim, tudo era diferente.
Além disso, Eusébio era de uma altura em que não existiam estrelas. Quer dizer,
elas existiam mas não faziam questão de o demonstrar. Basta dizer que Eusébio
referia-se à maioria dos jogadores por senhor. Como tal, para mim, Eusébio é o
melhor jogador português de todos os tempos. Como Toni disse, e muito bem,
príncipes há muitos, rei é que houve só um.
Por tudo aquilo que fez em vida, Eusébio nunca
morrerá. Será eterno. Será uma lenda mundial. E existem pequenos relatos que
ouvi ontem – poucos dos muitos que existem e que muitas pessoas provavelmente
nunca vão conhecer – que separam Eusébio dos comuns dos mortais. O primeiro
exemplo passa pelas homenagens feitas nas mais diversas redes sociais. Não me
refiro às feitas pelos anónimos que decidem homenagear um símbolo (grupo no
qual me incluo) mas aquelas que foram efectuadas por diversas personalidades e
entidades do desporto mundial.
Outro exemplo foi partilhado pelo
basquetebolista Miguel Barroca, que recordou na sua conta no instagram
(@miguelbarroca) a primeira vez que entrou na garagem do Estádio da Luz. “Reparei
que havia alguns lugares marcados: Presidente, Vice-Presidente, etc. Até que vi
um que dizia Eusébio! Por muitos que vão e venham nos vários cargos, aquele era
o lugar dele! Do Eusébio! Ele é o Eusébio! O maior”, escreveu. Este relato diz
tudo sobre ele.
Também tenho de partilhar aquilo que Pedro Rolo
Duarte partilhou no seu blogue. Excertos de uma conversa que mostram a essência
do Pantera Negra.“- O meu único vicio é o Benfica. E, às vezes, por causa do
meu Benfica, sinto a máquina a falhar. Quando chegar o meu dia que seja ali no
Estádio. Gostava de morrer no Estádio da Luz? - Se me dessem a escolher
gostaria de morrer ali. É uma casa que me fez homem, onde eu estou desde os 18
anos. Nós não escolhemos, mas eu gostava… E já agora num jogo de emoção e com
uma vitória do Benfica.
Pensa muito nisso? - Há uns anos tinha medo da
morte, agora já não. DNA, 13/Set/1997 Entrevista de Luís Osório e Pedro Rolo
Duarte.” Não deixa de ter a sua piada que esteja a transcrever isto ao mesmo
tempo que Eusébio expressa este ideia num documentário que está a dar na
Sporttv. “Sei que vou ter muitas pessoas comigo no meu dia”, disse. E estava
certo. Cumpre-se o desejo de ter o corpo no seu Estádio, na sua “casa” e com a
companhia que merece.
Partilho ainda duas histórias de anónimos. Uma revelada por uma
reformada de 61 anos num programa especial da SIC Notícias. Dizia a senhora que
nunca o tinha conhecido mas que agradecia-lhe por muitas vezes matar a fome à
família. A senhora, oriunda de uma família numerosa, contava que quando o
Benfica ganhava era uma alegria no café onde o seu pai estava, com o dono a
oferecer rodadas, por exemplo. Essa alegria sentia-se depois em sua casa e
acabava por ser um grande conforto para si e para os seus irmãos. E ainda o momento em que um adepto do Sporting pede desculpa aos benfiquistas antes de colocar um cachecol do Sporting na estátua do Eusébio por achar que neste momento não existem rivalidades clubísticas e que o antigo jogador era um símbolo para todos. Todos estes
exemplos são apenas alguns que revelam que Eusébio é uma lenda. E as lendas não
morrem.
Por fim, acho justo que o corpo de Eusébio seja
trasladado para o Panteão Nacional dentro de um ano. É um símbolo de Portugal
no mundo. Um embaixador eterno do nosso país. E clubismos à parte, aquela
merece ser a sua última morada, tal como aconteceu justamente com Amália Rodrigues. Também gostava de ver Bruno de Carvalho e Jorge
Nuno Pinto da Costa hoje, no funeral do Pantera Negra. E, se não for pedir
muito, que os adeptos do Porto que se deslocarem ao Estádio da Luz no próximo
Domingo, aproveitem essa oportunidade para dar uma verdadeira lição de civismo
durante as homenagens efectuadas ao King.
Já agora, e como o desporto vive de inspirações,
que os jogadores do Benfica façam da ausência física de Eusébio uma fonte de
força para o que resta desta época e que cumpram os desejos do maior símbolo
que o Benfica alguma vez terá. Que honrem o prazer de ter privado com o homem que fez do Benfica um clube universal. E mais importante do que isso, que os 23
jogadores que vão representar Portugal no Mundial do Brasil, honrem a sua
memória naquela que será a primeira competição sem o Pantera Negra que se
agarrava à sua toalha e que apertava quando as coisas não corriam como
desejado.