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25.1.19

vamos lá falar de apostas

Gosto de apostas. É algo que não escondo a ninguém. Tal como não é uma bandeira minha. E escrevo este texto porque faço parte de alguns grupos de apostas, onde as pessoas partilham as suas opiniões, e costumo ler comentários que conseguem ser assustadores. Pessoas que revelam estar dispostas a gastar 10 ou 20 euros e que pedem a alguém que diga um ou dois jogos para apostar. E assim que tiverem uma resposta, lá vão eles a correr para a aposta.

Para quem faz isto, começo por dizer que o melhor é comprar uma raspadinha. De resto, nos grupos dos quais faço parte, não tenho por hábito partilhar os meus palpites. Algo que faço por um motivo muito simples. Quando o fiz e as apostas correram bem, passei a receber pedidos de amizade no Facebook e mensagens de pessoas que me pediam jogos para determinados dias.

Tenho por hábito apostar – em futebol – um euro por dia. Ocasionalmente aposto mais, mas tem de ser naqueles dias em que existem mesmo muitos jogos. E esta é a minha estratégia. E faço um parêntesis para realçar que todos os apostadores DEVEM ter uma estratégia e regras que respeitam ESCRUPULOSAMENTE. Além disso, não aposto ao calhas. Se for para fazer isso, prefiro comprar uma raspadinha.

E perco tempo, não tanto como devia (porque não consigo), a estudar os jogos em que escolho apostar. Classificação e momento das equipas, performance em casa e fora, jogadores ausentes e confrontos directos são alguns dos detalhes que tenho em conta antes de escolher os jogos. Porque existe muito de estudo nas apostas. Sem ignorar o factor sorte pois um cartão vermelho ou uma grande penalidade aos cinco minutos de jogo destroem todos os estudos.

Há pouco falei de estratégia e de regras. Uma delas, que considero fundamental, passa por estabelecer um plafond mensal que se está disposto a gastar e que deve ter em conta o orçamento mensal de cada um. Quando esse valor foi ultrapassado, espera-se pelo próximo mês. Quando se ganha um valor que passa o orçamento, é retirar esse valor e aposta com o resto do lucro.

Isto é meio caminho andado para existir controlo. Depois, depende de cada um. Há quem só aposte em equipas que jogam em casa, outros escolhem equipas com odds que não passem do 1,50 e por aí fora. Aqui já depende de cada um. Por fim, o conselho que quero aqui deixar é o de não pedirem apostas a pessoas que não conheçam de lado nenhum. O dinheiro é vosso e não dessas pessoas. Se estão na dúvida e querem mesmo opinião, estudem a pessoa a quem pedem. Analisem o grupo onde estão inseridos e vejam se é alguém que costuma acertar diversas vezes.

Não se deixem levar por coisas como “esta é certinha” e outras expressões semelhantes. Porque por mais básica que possa parecer, nenhuma aposta está certa. E qualquer apostador pode confirmar isto. Não apostem mais do que podem e sejam ponderados nas escolhas. Retirem a paixão da equação e centrem-se no jogo e nas equipas. Boa sorte!

16.3.17

fortuna. da ilusão à triste realidade (uma lição para os pais)

Atletas como Cristiano Ronaldo (apenas para dar um exemplo próximo) ajudam a criar a ilusão de que o mundo do desporto está cheio de dinheiro. Ou seja, as pessoas olham para todos os jogadores como alguém que tem um ordenado mensal milionário. Mas isto não passa de uma ilusão. De uma ideia errada. Porque se existem poucos jogadores com o talento do português, também existem poucos que conseguem os rendimentos de Cristiano Ronaldo.

Apesar de as coisas começarem a mudar, a maioria dos jogadores ainda vem de meios com algumas limitações. É raro o jogador de futebol (de classe mundial e não só) que não tem uma história triste ou trágica associada a si. São, por norma, pessoas com poucos estudos e que sempre viveram com pouco. Até ao momento em que passam a ganhar muito dinheiro, não sabendo gerir o mesmo.

E nem todos estão rodeados das pessoas correctas. Muitos jogadores estão rodeados de pessoas que só querem dinheiro. E que só têm interesse no atleta enquanto é rentável para si. De resto, são inundados com propostas de negócios da China nos quais acreditam mas que servem apenas para perder dinheiro. E existem diversos casos de jogadores – Jorge Cadete será o melhor exemplo – que ganharam pequenas fortunas com a carreira mas que acabaram por perder tudo.

Má gestão? Falta de “cabeça”? Provavelmente! Mas nem só. Existem lesões que colocam um ponto final na carreira de forma precoce. Doenças, fraudes e muitas outras coisas. Mas existe a ideia errada de que todos ganham fortunas. Tal como existe a ideia errada de que o dinheiro dura para sempre. E foi nesse sentido que Tarantini (o capitão da equipa do Rio Ave) criou o projecto A Minha Causa que tem por objectivo ensinar os jogadores a gerir a carreira, especialmente a vertente financeira da mesma. E os números dados a conhecer por Tarantini são assustadores. Por outro lado, são uma lição para quem ainda olha para o desporto (não apenas para o futebol) de forma errada.

- 80% dos jogadores que se retiram da NFL (melhor campeonato do mundo de futebol americano) ficam falidos nos primeiros três anos.

- 60% dos jogadores que se retiram da NBA (melhor campeonato do mundo de basquetebol) ficam falidos em cinco anos.

- 2 em cada 5 jogadores (Premier League – campeonato inglês, um dos melhores do mundo) apresentam sérias dificuldades financeiras num máximo de cinco anos após o final da carreira.

- 1 em cada 3 jogadores (Premier League – campeonato inglês, um dos melhores do mundo) divorciam-se nos primeiros 12 meses após o final da carreira.

Estes dados são bastante curiosos. Nem que seja pelos simples facto de que dizem respeito a atletas que ganham muito (mas mesmo muito) mais dinheiro do que os portugueses. Para se ter uma ideia, um clube da segunda divisão inglesa paga um ordenado melhor do que clubes como Braga ou Guimarães, que estão logo abaixo dos chamados três grandes portugueses (Benfica, Porto e Sporting).

Nos dias que correm muitos miúdos ainda correm atrás do sonho de ser jogador de futebol. E ainda bem que o fazem. E muitos pais incentivam este sonho dos filhos. E ainda bem que o fazem. Mas cometem o erro de tentar fazer de crianças de dez anos atletas profissionais. E muitos pais não se importam que os filhos não estudem. Não querem pensar num plano b para a eventualidade de algo correr mal. E muita coisa pode correr mal. E dou apenas um exemplo. Uma das maiores promessas do Borrusia Dortmund era um jovem de 18 anos que se lesionou com gravidade recentemente e foi obrigado a abandonar a carreira. O sonho de ser um grande jogador “morreu” numa jogada que o levou para uma mesa de operações.

Este projecto de Tarantini é muito interessante. Não apenas para os jogadores que estão rodeados das pessoas erradas. Não apenas para aqueles jogadores que se aproximam do final de carreira. Mas também para muitos pais que vivem cegos com a ideia forçada de que o filho terá de ser o próximo Cristiano Ronaldo.

24.9.15

isso? nem dado!

Ontem estava a trabalhar com um grande amigo quando passámos junto a uma casa bastante simpática de uma pessoa que conhecemos e que actualmente vive fora de Portugal. Como tal, aquela casa está desabitada há largos meses. “Que desperdício esta casa aqui assim”, disse-lhe. “Não me importava de vir para aqui viver. Nem que fosse para a casa arejar e para os canos não se estragarem. Quando ele voltasse a Portugal avisava e eu ia embora”, acrescentei. “E assim poupava a renda da minha casa”, conclui.

Esta brincadeira foi partilhada pelo meu amigo que depois saltou para outro tema a que acha piada e que se trata de algo que muitas pessoas dizem. “Esta casa? Nem dada”, gracejou. “Acho piada às pessoas que estão sempre a dizer isto. “Um Porsche branco? Nem dado! Um casa destas? Nem dada! Um Ferrari numa cor estranha? Nem dado”, disse, prosseguindo nos exemplos de coisas que as pessoas dizem não querer, mesmo que lhes fossem dadas sem qualquer custo.

“Nem dado? A mim podiam dar tudo”, dizia, questionando até que ponto é que as pessoas realmente seriam capazes de rejeitar coisas como casas caras com uma arquitectura que não apreciam, um carro de luxo cuja cor desgostam ou tantas outras coisas de valor elevado mas sem beleza que cative quem diz “nem dado”. E a verdade é que aquilo que nem dado queria certamente seria bem recebido por todas as pessoas. Pelo menos eu recebia. E depois vendia, utilizando o dinheiro para outras coisas a meu gosto.

Acredito que o “nem dado” serve apenas para marcar uma posição em relação ao gosto ou algo semelhante. Porque não acredito que a esmagadora maioria das pessoas recusasse um carro avaliado em centenas de milhares de euros ou, e apenas para dar mais um exemplo, uma casa avaliada em mais de um milhão de euros. Mas tiro o meu chapéu a quem – se é que essas pessoas existem e estou a excluir as pessoas que têm dinheiro para comprar tudo e mais alguma coisa – realmente rejeitava um carro porque é de uma cor de que não gosta ou uma casa porque a arquitectura não é a mais bela das redondezas.

22.6.15

e se fosses tu? não fazias o mesmo?

Sempre que surgem notícias de jogadores ou treinadores que mudam para clubes rivais é feita a comparação com o trabalhador comum, que tem um emprego das nove às cinco. "Se fosse contigo não mudavas?" e "se uma empresa concorrente da tua te desse mais dinheiro tu não ias?" são dois dos exemplos utilizados. Eu compreendo esta comparação que tentam fazer. Mas tenho alguma dificuldade em aceitar a mesma. 

A começar pelas realidades. A esmagadora maioria dos trabalhadores ganha um valor consideravelmente baixo. Os jogadores de futebol fazem parte de uma indústria que movimenta milhões, especialmente aqueles que conseguem colocar adeptos a discutir uma mudança de clube. É certo que um trabalhador normal terá, em condições igualmente normais, uma carreira longa. Um jogador de futebol não. Mas no pouco tempo de carreira, se tiver juízo e for bem orientado, ganha muito dinheiro. 

Quando a publicação onde trabalho vai para as bancas eu não recebo um prémio monetário. Quando faço um x número de textos por dia ou por semana não recebo um prémio monetário. Quando a publicação sobe as vendas também não recebo um prémio monetário. Quando somos os melhores do mercado também não recebo nada a mais do que o meu ordenado. É certo que em alguns empregos existem recompensas mas não ao nível dos prémios que os jogadores têm além do ordenado. E é por coisas como estas que não olho para as realidades com os mesmos olhos. 

Existem jogadores e treinadores que trocam os clubes onde estão há muito por mais 100 ou 200 mil euros por ano. Isto é capaz de ser semelhante a um trabalhador normal trocar de empresa por cerca de mais 300 ou 500 euros por ano. E, neste caso, será que aquelas pessoas que tentam colocar a questão num plano meramente profissional  mudavam de empresa por este valor? Haverá quem troque. Eu não! 

Já tive propostas para sair do meu local de trabalho. Propostas ligeiramente mais altas. Se tivesse um impulso meramente financeiro mudava logo. Dizia logo que sim e ia a correr. Mas sempre que isso aconteceu pensei no percurso que já percorri na minha empresa. No espaço que conquistei. Nas regalias que tenho. No ambiente. Tudo coisas que perdia numa eventual mudança que me levava a começar do zero e a ter de conquistar tudo isso novamente. E acabei por responder não. Não digo que não pudesse dizer sim mas não o faria por tão pouco dinheiro. Porque um valor baixo não compra uma grande mudança para o "desconhecido". E é por isto que não compreendo quando certos jogadores trocam projectos de anos por "pouco" dinheiro extra. Por uma quantia que não lhes vai dar nada mais do que aquilo que já têm e que continuavam a ter no local onde estão há muito.

14.4.15

quem quer ganhar 16 mil euros sem fazer nada?

Não se trata de uma brincadeira. É um emprego sério. A empresa que está a contratar é a Nasa. E até arredondei o ordenado para baixo pois o valor está mais perto dos 17 mil euros. E isto tudo em apenas três meses. Desenganem-se aqueles que pensam que se trata de trabalhos forçados. É que a tarefa é ficar o tempo todo, quer dizer, quase todo deitado sem fazer nada.

O programa vai ter início dentro de aproximadamente três semanas. As pessoas escolhidas vão ficar numa casa de acolhimento onde estão proibidas de se mexer. Excepto nas últimas duas semanas pois nessa altura começam os exercícios para que os candidatos recuperem as funções motoras. Esta experiência tem por objectivo perceber o gasto que os músculos sofrem no espaço. Quem estiver interessado em candidatar-se será submetido a exigentes exames médicos. Por fim, os candidatos têm de ter nacionalidade americana.

Quando li o título fiquei fascinado com os 16 mil euros. Quando percebi que o trabalho durava apenas três meses, fiquei ainda mais surpreendido. Quando descobri o que era para fazer, achei que era muito mal remunerado. Não sou rico. Longe disso! Mas a forma como encaro a vida faz com que olhe para aquele valor monetário como não sendo suficiente para pagar a experiência. Além do mais, se existe coisa que detesto é estar quieto. Haverá quem entenda que é uma pequena fortuna. Respeito isso. Para mim, não vale o trabalho, por tudo a que o mesmo obriga.

19.11.14

ainda dizem que o dinheiro faz bem ao amor e traz felicidade...

Não sei precisar quantos prémios do Euromilhões já tiveram como destino Portugal. Refiro-me sobretudo aos montantes mais chorudos. Ou seja, os primeiros prémios e os aliciantes jackpots que levam a que algumas pessoas apostem mais alguns euros na esperança de levar para casa o dinheiro que vai mudar uma vida. O tal dinheiro que faz bem aos casais, porque ajuda e realizar muitos sonhos, e o tal dinheiro que traz felicidade.

Como disse, não sei quantos prémios é que os portugueses já ganharam. Mas recordo-me de dois. O primeiro diz respeito a um jovem casal que tinha uma relação perfeita. Não existiam zangas. Sonhavam casar e constituir família. Era o amor no seu melhor. Até que ganharam o Euromilhões. E até que o dinheiro – aquele que faz bem e traz felicidade – ocupou o lugar até então ocupado pelo nobre sentimento. O caso arrastou-se em Tribunal. O prémio esteve congelado. “A chave é minha”, diz um. “Eu é que meti o talão”, diz o outro. "Eu quero tudo", acrescenta. "Eu contento-me com metade", e muitas outras coisas. Guerras para aqui, guerras para ali e a relação perfeita teve o seu final. Acabou-se o amor. Ficaram os milhões de euros.

Recordo-me também de outro. Uma senhora que ganhou o Euromilhões no ano passado, se não estou enganado. Senhora que foi notícia pelo prémio e pela grande festa que providenciou às pessoas da sua terra. Foi uma festança onde nada faltou e onde todos elogiaram a forma de ser da senhora. Agora, sabe-se que está separada do marido. Diz que passou um inferno ao lado do ex-companheiro que até acusa de violência doméstica. Agora, e como no primeiro caso, ambos reclamam o prémio para si. Ela diz que é dela e que até viajou para Lisboa (para reclamar o prémio com o talão escondido no soutien) e ele diz que a aposta foi registada por si.

O dinheiro (sobretudo quando se trata de uma quantia astronómica) faz bem a quem sempre o teve. Quando se trata de pessoas que tinham “pouco” e que de repente têm de lidar com uma fortuna ao estilo do Tio Patinhas, esse “bem” depende de muitos factores. Das opiniões de quem rodeia os novos milionários e dos interesses que movem essas mesmas pessoas. Já para não falar da maneira de ser da própria pessoa. Como já referi em diversas ocasiões, o dinheiro compra muitas coisas mas a felicidade não é uma delas. Em alguns casos até serve para a destruir.

10.11.14

o dinheiro dá felicidade?

O dinheiro dá ou não felicidade? Esta é uma pergunta que divide muitas pessoas e que alimenta discussões há muito tempo. De um lado estão aqueles que defendem que o dinheiro compra a felicidade. Do outro estão aqueles que entendem que o dinheiro não a compra. Neste caso, estou do lado dos que entendem que o dinheiro pode dar acesso a muitas coisas mas que em momento algum dá acesso à felicidade. Recuso-me a acreditar que uma conta bancária recheada compra a felicidade.

Aquilo que acredito e que é fácil de comprovar é que o dinheiro compra tudo. Quer dizer, quase tudo pois não compra saúde (só o melhor tratamento em caso de necessidade), não compra amor (compra pessoas que fingem sentimentos a troco de dinheiro) e não compra felicidade (compra objectos que podem eventualmente criar uma ilusão de felicidade como um carro topo de gama e a casa mais cara do mundo que de nada valem se a pessoa não tiver ninguém com quem partilhar estas coisas).

Por outro lado, acredito que a ausência de dinheiro consegue trazer infelicidade. Mas não me refiro à ausência de dinheiro para comprar o tal carro topo de gama ou a casa xpto com que muitas pessoas sonham mas que não sabem qual a sensação de ter porque nunca tiveram. Quando digo infelicidade refiro-me à ausência de dinheiro que me permita manter a vida que tenho. Que me permita pagar as contas que tenho para pagar e que me deixe manter o nível de vida que tenho. E entendo que isso se aplica a qualquer pessoa e aos diferentes estilos de vida. Se nunca fui dono de um Ferrari, não fico infeliz por não ter dinheiro para comprar um. Se nunca vivi num castelo, não fico infeliz por não poder viver num. Por outro lado, gosto muito do meu Peugeot. E ficaria infeliz se não tivesse dinheiro para o sustentar. Tal como gosto muito do meu T2. E também ficaria infeliz se tivesse de sair de lá por não ter dinheiro para o sustentar. Estas realidades são minhas. Conheço-as. Sei como as sinto. O resto são sonhos e ilusões que não trazem felicidade ou infelicidade à minha vida.

Num destes dias ouvi um sociólogo falar da felicidade que, de um ponto de vista meramente sociológico, não é mais do que bem-estar subjectivo. Que apesar de aparentar ser algo simples, é algo que depende de um vasto leque de variáveis. Sendo que as duas mais importantes são o dinheiro (aquele que permite manter a vida que as pessoas conhecem) e o medo de no futuro não ter o tal dinheiro que permite manter a vida que se conhece. Além disso, existe um estudo que prova que as pessoas necessitam “apenas” de mais 20% do dinheiro que têm para que a felicidade seja plena.

É por tudo isto que defendo que o dinheiro não dá felicidade. Não compra a felicidade de uma pessoa. Tal como é por isto que defendo igualmente que é possível ser feliz com pouco. Porque o pouco é a realidade que essa pessoa conhece. E é essa realidade que a pessoa luta por manter e, se possível, melhorar um pouco. Os tais 20% que são referidos no estudo. Por isso, para mim, o dinheiro não compra a felicidade de ninguém. Ser feliz passa por coisas bem mais simples do que euros e objectos valiosos que se cobiçam eternamente e que, em alguns casos, impossibilitam que se saboreie o que se tem. 

22.1.14

tudo acaba. por mais que pareça que não

Jorge Cadete voltou a ser notícia. Aos 45 anos, o ex-jogador vive na casa dos pais e tem vivido do rendimento social de inserção (189 euros) ao longo dos últimos anos. Para quem não acompanha o desporto, trata-se de um antigo jogador que passou por grandes clubes europeus tendo sido, durante algum tempo, o português com mais golos no estrangeiro. Ao longo da carreira, e falando apenas de ordenados, Jorge Cadete ganhou mais de quatro milhões de euros. A isto junta-se uma considerável fatia monetária composta por prémios individuais, de equipa, contratos de imagem e outras coisas. O que é certo é que este dinheiro não passa de uma memória para Cadete.

Por vezes ouço pessoas dizerem que gostavam de ter o dinheiro dos jogadores de futebol. Dinheiro que nunca mais acaba. Nessas alturas costumo dizer que, por mais dinheiro que tenham, é muito mais fácil fazer com que desapareça do que amealhar todos aqueles milhões. Chamam-me parvo. Dizem que é dinheiro que não tem fim. Pois bem, o exemplo de Jorge Cadete é apenas mais um de que não sou parvo. É verdade que ganham muito. Mas conseguem gastar ainda mais.

Algumas pessoas esquecem-se de que a grande maioria dos jogadores não tem uma base pessoal ou familiar que lhes permita gerir muito dinheiro quando estavam habituados a ter pouco. Jorge Mendes, só há um! É certo que o empresário ganha muito dinheiro com os seus jogadores mas Jorge Mendes é exemplo do que é uma boa gestão. Sabe aconselhar jogadores. Sabe dizer-lhes o que devem fazer com o dinheiro que ganham. Quais os melhores investimentos. Mas, como disse, Jorge Mendes há apenas um. E poucos clubes fazem aquilo que o Manchester United fez com Ronaldo. Segundo se consta, o jogador português só tinha acesso a uma parte do seu ordenado. O restante era guardado pelo clube, de modo a que o jogador não gastasse tudo aquilo que recebia.

Acho que poucas pessoas têm noção da quantidade de parcerias e negócios que são propostos aos jogadores todos os dias. Vale tudo. E a receita é sempre a mesma. Pede-se o dinheiro do jogador e promete-se um negócio como nunca visto. Aqueles que têm poucos conhecimentos da área e que não têm um empresário decente, deixam-se levar pela cantiga do bandido e pela música de milhões a entrarem na conta. Acreditam que vão ganhar ainda mais dinheiro. Quando na realidade vão perder dinheiro que nunca mais recuperam.

A estas propostas juntam-se os amigos de ocasião. Aqueles que estão por perto enquanto há dinheiro. Aqueles que sabem tudo e que aconselham os jogadores a investir aqui e ali. São aqueles que vivem à conta do dinheiro dos jogadores. E são os primeiros a desaparecer quando a fonte de rendimentos seca. Existem ainda as mulheres que sacam tudo aquilo que conseguem aos jogadores. E não são necessários rodeios. Existem também aqueles que gastam fortunas em prostitutas, jogo e em droga.

É certo que quatro milhões soam a muito dinheiro. Mas, perante aquilo que escrevi, estes milhões passam a ser apenas alguns trocos no bolso da calças. A carreira é curta. Os vícios são grandes. Os maus amigos, péssimos sócios e conselhos errados só desaparecem quando não existe mais dinheiro para chupar. Por isso, está muito enganado quem pensa que é muito complicado destruir uma fortuna em pouco tempo.