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18.11.21

patrice evra e o dia em que esteve para andar à porrada com luis suárez nas ruas de manchester

Um dos momentos mais tensos dos últimos anos da Premier League foi protagonizado por Patrice Evra e Luis Suárez, em 2011. Foi num jogo entre o Manchester United e o Liverpool que os dois jogadores se desentenderam depois de o francês ter acusado o uruguaio de comentários racistas. O incidente valeu um castigo de oito jogos para o avançado e quase que motivou uma cena de pancadaria nas ruas de Manchester. Algo que é agora revelado pelo ex-jogador francês. 

“Um dia estava a passear por Manchester, em Deansgate, e o meu irmão diz-me: ‘Olha, o Luis Suárez ali’. Eu estava com os meus dois irmãos. Olhei para ele, e atrás dele estavam os filhos e a mulher. Virei-lhe as minhas costas. Pensei: ‘Bem, se lhe vais fazer alguma coisa não pode ser à frente da família dele. Eu não me arrependo de ter tomado essa decisão porque tenho a sensação de que teria acabado mal. Não fiz nada naquele dia”, recorda em declarações ao podcast The Diary of a CEO.

“Ninguém nasce racista. Não tenho ódio”

O antigo lateral francês recorda ainda o que sentiu durante o polémico jogo. “Fiquei orgulhoso de mim porque nesse dia cheguei a questionar-me: ‘Devo dar-lhe um soco? Mas Patrice, isto é um Liverpool-Manchester, todas as crianças estão a ver este jogo, as pessoas não irão compreender’. Durante a segunda parte foi o mesmo processo. Estava do tipo: ‘Não o faças, não o faças [agredir Luis Suárez]’. Sabes quando tens um diabo e um anjo aos teus ombros? ‘Dá-lhe, dá-lhe... não faças isso, não faças isso’. Foi isto o jogo todo”, acrescenta. Referindo ainda que não pode dizer que o avançado seja racista. “Ninguém nasce racista. Não tenho ódio. Não posso chamar Luis Suárez de racista porque não o conheço bem o suficiente para chamá-lo assim”, conclui.

5.7.20

e tudo o vento levou fica no catálogo da hbo max, mas...

Depois de uma boa dose de polémica sabe-se que E Tudo o Vento Levou irá manter-se no catálogo norte-americano da HBO Max. De momento o filme, de 1939, não está disponível, mas irá voltar. Chega assim ao fim a controvérsia em torno de um dos clássicos de Hollywood que levou para casa 8 óscares.

A pausa na plataforma servirá para que seja incluída uma contextualização histórica no filme protagonizado por Clark Gable e Vivien Leigh. Foi através de comunicado que a Warner Media fez referência a E Tudo o Vento Levou como “um produto do seu tempo” que mostra preconceitos raciais. “Estas representações racistas eram erradas naquela época e são erradas hoje. Achamos que manter este filme [na plataforma] sem uma explicação e uma denúncia dessas representações seria irresponsável”, pode ler-se no comunicado.

Assim, E Tudo o Vento Levou voltará à HBO Max com o mencionado “contexto histórico e uma denúncia dessas mesmas representações, mas será apresentado tal como foi criado, porque fazer o contrário seria o mesmo que alegar que esses preconceitos nunca existiram”. A polémica em torno do filme surge na sequência das manifestações anti-racismo que tiveram início nos Estados Unidos da América depois da morte de George Floyd, que foi morto por um polícia.

20.2.20

futebol: racismo vs estupidez do momento

Aquilo que aconteceu com Moussa Marega, jogador do Porto que abandonou o campo depois de ter sido alvo de cânticos racistas, deu origem às mais diversas opiniões. Já expressei a minha opinião sobre o tema. Mas neste texto, vou direccionar o debate para o campo do desporto. Onde, na minha modesta opinião, existe uma linha muito ténue que separa o racismo da estupidez momentânea de adeptos que não sabem estar num estádio de futebol.

Qualquer pessoa que vá a um estádio já terá ouvido alguém gritar algo como “preto do car****”, “macaco de merda” e por aí fora. Tudo palavras dirigidas a jogadores adversários. Sendo que as pessoas que dizem isto são as mesmas que aplaudem os jogadores pretos da sua equipa. E peço desculpa se a palavra preto ofender alguém. Mas acho muito mais positivo preto do que negro. E basta pensar que associamos preto a tudo o que é bom e negro a tudo o que é mau. Daí optar por preto.

Adiante, e não querendo desculpar quem o faz, expressões como aquelas que referi são, na sua grande parte, momentos de estupidez de pessoas que não sabem estar. É o mesmo que chamar filho da p*** ao árbitro. Chamar paneleiro a um jogador. Mandar alguém para a c*** da mãe e por aí fora. Coloco tudo isto no mesmo pacote. No pacote das pessoas que não sabem estar num campo e que dizem toda a merda que lhes vem à boca em momentos adversos.

Por outro lado, existem casos que são diferentes destes. Por exemplo, a claque do Zenit (clube russo) é contra a contratação de jogadores negros para o clube. É uma postura racista que é disfarçada com a suposta identidade do clube. Veja-se o caso de Malcom, jogador brasileiro que foi brindado com tarjas racistas quando se estreou pela equipa. E que desde então praticamente não joga pelo clube.

Posso também falar da minha experiência enquanto jogador de futebol. Comecei a jogar aos 12 anos e parei já depois dos 30. Joguei também em torneios de escola e participei em muitos outros. A diferença da minha experiência é que não joguei em campos com 60 mil pessoas. Tinha menos público a ver os jogos e em muitos campos ouvia perfeitamente tudo aquilo que era dito. Sendo que em quase todos os jogos só eram necessários dois polícias para que o jogo se realizasse. Não sei se esta lei mudou.

Isto para dizer que passei a minha vida desportiva a ser ofendido. A ouvir coisas piores do que o Marega ouviu, dirigidas a colegas meus. A ser ofendido com outro tipo de palavras. E sofrer ameaças de agressões físicas no final do jogo. A ser cuspido, uma das coisas mais nojentas que alguém pode fazer a outra pessoa. A ser prejudicado por árbitros porque simplesmente tinham medo dos adeptos (do clube da casa) que os ameaçavam. E por aí fora. Posso até dar um exemplo de um caso específico que aconteceu num determinado jogo e de que nunca me esqueci.

Numa equipa que joguei (era defesa central) tinha ao meu lado um lateral esquerdo preto. Que a meio do jogo começa a discutir com o extremo direito da equipa adversária, também ele preto. E a conversa deles foi mais ou menos assim:

- “Ó preto do c******”, diz o jogador adversário.
- “Preto és tu”, responde o meu colega de equipa.
- “Eu sou castanho, tu é que és preto”, acrescentou.

No meu caso específico, sempre gostei de jogar em ambientes adversos. Sempre lidei bem com ofensas, ameaças e por aí. Era algo que me motivava. E também assumo que tive os meus momentos em que reagi às provocações. E assumo que me arrependi desses momentos. Dei sempre razão a que estava mal, descendo ao mesmo nível. Mas recordo-me de colegas que iam ter com o treinador a queixar-se do que ouviam, dizendo ser complicado jogar assim. “O jogador de futebol é como uma senhora, não tem ouvidos”, dizia o mister.

O texto já vai longo e o meu objectivo é dar a conhecer uma realidade que (acredito) ainda existe em palcos desportivos pouco mediáticos. Onde existe muita estupidez e, certamente racismo. Mas que se misturam de tal forma que fica complicado separar um do outro. Sendo evidente que ambos estão a mais em qualquer evento desportivo.

Como já fiz saber, sou contra todos os actos de racismo. Tal como sou contra o ódio e ofensas que dominam o desporto, especialmente nas camadas jovens, onde os atletas são pessoas em crescimento e formação. Espero que o caso Marega sirva para que se mude tudo aquilo que está mal. Do racismo ao ódio. Que todas as pessoas metam a mão na consciência e percebam que existe mesmo muito para mudar. Quer seja no desporto como na sociedade. E a mudança começa em cada um de nós. Esta será sempre a mudança mais fácil.

18.12.19

quando tentas combater racismo com... macacos

Aquilo de que irei falar é algo que poderá perfeitamente passar despercebido a quem não acompanha o futebol. Mais especificamente, o italiano. Que nos últimos tempos consegue (quase) ser mais falado pelo racismo do que por tudo aquilo que de bonito tem esta modalidade que adoro. Por exemplo, recentemente Mario Balotelli ameaçou abandonar o campo por causa de insultos racistas. Sendo que um episódio ainda mais recente envolve um jornal.

O Corriere Dello Sport decidiu promover o jogo entre Inter e Roma com o título Black Friday. Sendo o mesmo ilustrado com uma foto de Lukaku e outra de Smalling, dois jogadores negros, um de cada equipa. Algo que levou a que os clubes cortassem relações com o jornal até ao final da época. Agora, surge uma solução que acaba por ser um problema ainda maior.

Os responsáveis da Serie A (campeonato italiano) decidiram dar início a uma campanha para acabar com o racismo. Para isso, pediram ajuda ao artista Simone Fugazzotto, artista que é conhecido por... pintar macacos. E que criou três para esta campanha específica. Algo que os adeptos do futebol italiano dizem servir apenas para alimentar ainda mais o ódio.




“Com este trio de pinturas tentei mostrar que todos somos criaturas complexas e fascinantes, que podem ser tristes ou felizes, católicas, muçulmanas ou budistas”, diz. “Mas no final de contas, o que decide quem somos não é a cor da nossa pele. Só pinto macacos como metáfora para os seres humanos. Voltamos o conceito aos racistas, pois originalmente somos todos macacos. Então pintei um macaco ocidental, um macaco asiático e um macaco preto”, prossegue.

Só que as justificações do artista em nada convencem os adeptos do futebol. Que estão chocados com a campanha e que estão a inundar as redes sociais com críticas. “Execução absolutamente terrível de uma mensagem importante”, é um dos comentários. “Isto é desagradável, uma vergonha absoluta”, acrescenta outro. “Isto passou por quantas pessoas, de executivos a profissionais de marketing, e ninguém pensou em acabar com isto?”, questiona mais um.