7.1.16

devo ser a única pessoa que não se emociona com sofia ribeiro



Sofia Ribeiro partilhou este vídeo onde aparece a rapar o cabelo. Trata-se de um vídeo longo que mostra, a quem segue a actriz nas redes sociais, o processo de rapar o cabelo numa altura em que luta contra o cancro da mama. Apesar de ter sido publicado recentemente o vídeo conta já com mais de cinco mil partilhas no facebook. Neste momento sinto que sou a única pessoa que não se emociona com o vídeo. Ou que não chora com aquelas imagens.

Numa primeira análise aquilo que acabei de escrever poderá fazer com que pensem que sou o maior cabrão à face da terra. Que serei a pessoa mais insensível que alguma vez existiu. Mas não é nada disso. É claro que sinto a luta de Sofia Ribeiro. Tal como sinto como injusta qualquer batalha que uma pessoa nova (ou menos nova) trava contra aquela que considero ser uma puta de uma doença. Não vou ser mentiroso ao ponto de dizer que o vídeo de Sofia Ribeiro é indiferente para mim. Porque não é. E não é isso que faz com que não me emocione.

O motivo pelo qual não me emociono com este vídeo é porque tenho muito presente em mim a luta que a minha mãe travou com esta doença. Ver uma mulher rapar o cabelo porque o mesmo está a começar a cair devido à quimioterapia representa relembrar a minha mãe a passar por isto. Significa recordar o momento em que vi os cabelos da minha mãe amontoados no chão da casa dos meus pais enquanto a minha mãe sorria, certamente sem vontade de o fazer. Significa recordar a minha mãe a dizer-me que rapar o cabelo é um dos momentos mais complicados da luta contra o cancro. Significa ser obrigado a recordar um dor que nunca desejei viver. Que preferia desconhecer.

Não se trata de uma questão de insensibilidade. É mesmo a dor de tudo aquilo que a minha mãe teve de ultrapassar que ainda está muito vincada em mim. É uma dor que não se consegue colocar em palavras. E quem já passou por aquilo que a Sofia infelizmente está a passar ou quem já lidou com esta doença com a mesma distância que lidei certamente entenderá aquilo que estou a tentar dizer. 

E espero e desejo que Sofia Ribeiro tenha a mesma sorte que a minha mãe teve. Aliás, desejo essa mesma sorte a tantas Sofias Ribeiro que neste momento estão a passar pelo mesmo e que infelizmente, em alguns casos, não têm uma única pessoa que lhes diga algo tão simples como “vai correr tudo bem” ou "estou aqui para ti".

PS - Aproveito este texto para agradecer à Sofia Ribeiro a coragem de partilhar um momento que é muito doloroso para as mulheres. Acredito que este gesto terá uma grande importância junto de tantas mulheres anónimas.

21 comentários:

  1. O filho da puta do cancro roubou-me a minha Mâe em Abril de 2014. Dói como se fosse hoje! Ainda assim e desde que foi descoberto, ainda lutou contra o FDP 14 anos... A minha mãe não teve coragem de ir ao cabeleireiro cortar o cabelo... Foi a sua cabeleireira cortar-lhe o cabelo a nossa casa! É tão triste encarar esta doença, mesmo querendo, sonhando, desejando que tudo irá correr bem! Mas uma coisa é certa, o pensamento positivo ajuda! A minha Mãe tinha esse pensamento.. até ao ultimo minuto... porque ia descansar... e eu e a minha irmã estávamos de mãos dadas com ela quando foi descansar... para sempre!!! :( Rute

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    1. A luta que infelizmente a tua mãe perdeu assustou-me tantas e tantas horas. Nunca tive tanto medo na minha vida como quando esse pensamento me dominava. Felizmente a minha mãe venceu a batalha.

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  2. Se me permites a intrusão... Cá vai o que eu acho, não do vídeo, mas desta publicação: li o título e pensei em tudo, menos ler o que escreveste! Não critico quem não se emocione com isto, cada um livre de se emocionar com o que quer! Mas diria que se isto te passa tão pouco ao lado, como dizes passar, te emocionas realmente; emocionar - causar emoção - não significa obrigatoriamente que sintas empatia pela Sofia, que partilhes da tristeza dela. Por isso parece-me que estás tudo, menos isento de emoção!

    Beijinhos, Mariana Castro

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    1. Agradeço a intrusão. Mas não estou mesmo isento de emoção. Este vídeo mexe muito comigo. Mas olho para o vídeo e vejo a minha mãe. Os seus cabelos no chão. As fotos que ilustram esse momento. E isso leva-me para momentos complicados em que a minha mãe já não suportava as dores dos tratamentos. A emoção é muita. Porque a dor ainda vive em mim. Mas olho para aquele vídeo (que está brilhante) e só vejo a minha mãe. Não sei se me consigo fazer perceber.

      Beijos

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    2. Mariana, ir a blog não se ler e comentar é um assim a dar pró "coiso# sei lá, digo eu

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  3. Primeiro, não és o único que não se emociona com Sofia Ribeiro. Segundo, porque - e cito as tuas próprias palavras - só "quem já lidou com esta doença com a mesma distância que lidei certamente entenderá aquilo que estou a tentar dizer." - e eu entendo-te muito bem. Terceiro, e sendo eu uma pessoa discreta, vivo tanto as minhas alegrias como as minhas tristezas em privado - e esta exposição da doença da Sofia Ribeiro irrita-me. Há tantas, mas tantas Sofias, que vivem e sofrem a doença no anonimato que este 'aproveitamento' revolta-me!

    PS: peço desculpa se te pareço uma 'besta insensível' mas já vivi muito sofrimento (e consigo sentir o 'cheiro' dos hospitais só com fechar os olhos...) e esta história da Sofia Ribeiro desagrada-me; no entanto desejo-lhe o melhor, sobretudo saúde.

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    1. Ontem discutia-se o chorar ou não com este vídeo. Só disse. Se estão emocionados com um vídeo de alguém que não conhecem, espero que nunca tenham de ver a vossa mãe fazer isto à vossa frente.

      Já li pessoas insinuarem que existe aproveitamento diferente daquele a que te referes, ou seja, sem "". Há quem diga que está a ganhar dinheiro e considero que isso não tem lógica.

      Acho que os momentos de partilha da Sofia são de respeito para quem a segue.

      E tenho a certeza de que não és uma besta insensível :) Percebo muito bem o que pretendes dizer.

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  4. O que posso dizer é que conseguiste dar a tua opinião, num assunto tão delicado, de forma muito elegante e sendo sensível às diferentes realidades de quem poderia ler este post.

    Não posso dizer que tenha vontade de ver, até já tentei, mas custa muito, porque quem já esteve num contexto onde o C, de forma menos ou mais grave, entrou sem pedir licença não quer relembrar o que aconteceu ou o que poderá acontecer.

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    1. O vídeo não me emociona porque toda a emoção que ali possa existir transporta-me para a realidade da minha mãe. É essa emoção que dá cabo de mim.

      Tenho a certeza de que o vídeo será muito útil para muitas mulheres anónimas.

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  5. Também não me emocionei. Não é que não me tivesse tocado, mas acho que quem vive o cancro de perto, o vê com outros olhos... Como tu mesmo disseste "Significa ser obrigado a recordar um dor que nunca desejei viver. Que preferia desconhecer."

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  6. Estou contigo. Quantas pessoas não perdem o cabelo e estão no anonimato?

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    1. Não é por isso que não existe emoção. É porque a minha emoção é a realidade da minha mãe. É ter presente em mim o momento em que a minha mãe passou por isto.

      Tenho a certeza que a reacção de quem já lidou com cancro de perto é completamente diferente daquelas pessoas para quem o cancro é apenas uma realidade afastada. Tenho a certeza de que quem não lidou com cancro de perto se emociona muito mais facilmente com este vídeo. É normal.

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    2. Percebo-te, mas eu não me emocionei, porque há milhares de pessoas assim.

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    3. A emoção dependerá sempre de cada um.

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  7. É uma doença terrível, dói muito ver alguém passar por essa luta. Mudar estilos de vida e alimentação, ajudaria a reduzir o número de vítimas, é urgente educar para tal, desde tenra idade, mas...não interessa a muitos.

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    1. Muitas pessoas têm medo de falar do assunto. Fogem dele.

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    2. Pois, só acontece aos outros, é isso que mts pensam!força Sofia!

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  8. Vi agora o vídeo e não me emocionei nem me deu vontade de chorar, apenas porque não sou uma pessoa emotiva, não porque não ache o cancro algo horrível e concorde quando dizes que ninguém devia passar por tal coisa na vida, ainda por cima, quando ela é tão curta e já nos dá tantas coisas menos boas.
    A mãe do meu namorado teve cancro de mama e passou por tudo o que esta atriz está e ainda vai passar, e provavelmente o que a tua mãe também passou, e acho que nessas situações devemos ser fortes por quem gostamos e estar lá para tudo, agora chorar ou sentir pena, acho que não ajuda muito.

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    1. Sentir pena é o pior que se pode sentir por alguém.

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