19.8.15

adeus (foi bom enquanto durou)

29 de Abril. Aproximadamente 21 horas. Sinto uma sensação muito estranha, sem qualquer dor, na perna direita, enquanto jogava futsal. Horas depois, já no hospital, o diagnóstico revela o pior cenário possível: uma ruptura total do tendão de Aquiles. Seguiu-se uma semana, já com gesso na perna, à espera de operação. Sou avisado que dia 4 de Maio tenho de estar no hospital bem cedo. Tenho a ilusão de ser operado nesse dia. Algo que não acontece. No dia seguinte não prometem mas acabam por me operar. E no dia depois desse regresso a casa, novamente com gesso na perna.

Seguiram-se seis semanas, com uma consulta pelo meio, a desejar ver-me livre do gesso. A desejar começar a usar a bota walker que me permitia caminhar sem muletas e com o tendão protegido. Além disso retirar o gesso significava uma liberdade diferente em coisas tão simples como tomar banho. E ainda dar início à fisioterapia. Quando esse momento chegou foi a minha primeira grande alegria. Inicialmente, por uma questão de equilíbrio e adaptação à bota, fui aconselhado a usar a bota auxiliado por muletas. Acabei por perder o medo e passei a andar só com a bota. Mais um momento de alegria.

Seguiram-se pequenos passos como começar a pedalar. Começar a fazer força no pé. Até que fui desafiado pela minha fisioterapeuta a passar a ir para a fisioterapia com ténis mas auxiliado com muletas. Mais uma vez o objectivo era fazer força no pé. Coxeava muito mas assim fiz. Mais um momento de alegria. Tal como a autorização para conduzir, apenas de casa até à clínica (uma das coisas que mais desejava para que o meu pai não tivesse que estar sempre dependente dos meus horários), com uma distância considerável para outros carros e sem grande velocidade, tudo isto para evitar movimentos bruscos com o pé. Uma travagem brusca poderia correr mal e ser bastante dolorosa para o pé/tendão. Voltar a conduzir foi mais um momento de liberdade bastante saboroso. Nunca tinha valorizado tanto a condução. Nem mesmo quando tirei a carta.

E assim tem sido a minha vida. Um pequeno passo a cada dia. E quando têm de ser dados. Sem qualquer pressa. Dou o melhor na fisioterapia e fico à espera das palavras da fisioterapeuta. Esta semana acreditava que a minha alegria ia ficar pelo início dos agachamentos e outro exercício em que fico em bicos de pés e depois apoiado nos calcanhares e ainda pelo novo ângulo na bota walker. E isto já era motivo de alegria para mim. Era mais um pequeno passo dado na minha evolução rumo à recuperação total.

Até que ontem, ouço algo como isto, da boca da minha fisioterapeuta. "Bruno, vamos começar a andar na rua sem a bota, ok? Mas para já com uma muleta. É melhor. E para aqui vens sem nada. Porque já reparei que aqui coxeias menos sem a muleta", disse-me. Expliquei que o coxeio por medo e por defesa. Pois quando ando perto de um espelho e noto que estou a coxear altero logo o andar sem qualquer dor. Numa altura em que vou na sessão 37 (de 60) da fisioterapia ouvi aquilo que mais queria. A autorização para andar na rua com dois ténis e sem a bota, que muito útil foi ao longo de semanas e que fez de mim um pequeno robocop para quem toda a gente olha a tentar adivinhar o que se passa: será que ele anda sempre assim? Será algo provisório? Dúvida que normalmente apenas as crianças esclarecem.

Por isso, está na altura de dizer adeus à bota. Adeus à minha fiel companheira das últimas semanas. O único objecto – ao longo de todo este tempo – que me fez sentir seguro. Com a bota sentia que o tendão estava totalmente protegido. Era o efeito psicológico ideal. Agora serei obrigado a enfrentar novos medos relacionados com coisas tão simples como subir escadas. Mas também serei obrigado a acabar gradualmente com o coxear. Acabou-se o calça a bota, descalça a bota e calça o ténis para conduzir. Descalça o ténis e calça a bota para andar e por aí fora. Isto porque a bota tem cinco tiras com velcro e ainda tem um sistema de ar que torna a bota mais confortável.

Hoje é o dia em que deixo de usar bota. É o dia em que vou começar a lutar contra novos medos. Que vão ter de ser vencidos um a um, como tantos outros até agora. Acima de tudo é um dia feliz. A recuperação total ainda vai longe mas este passo faz com que pareça que está já ali ao dobrar da esquina. Agora, vou só ali cantar (e dançar) esta música. "Because I'm happy. Clap along if you feel like a room without a roof. Because I'm happy. Clap along if you feel like happiness is the truth. Because I'm happy. Clap along if you know what happiness is to you. Because I'm happy. Clap along if you feel like that's what you wanna do".

22 comentários:

  1. Boa!
    Agora é sempre a correr melhor!

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    1. Obrigado!

      Começo a contar os dias para voltar a correr :)

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  2. Bom dia, como eu me revi nas tuas palavras, em Abril de 2014, aconteceu-me o mesmo infortúnio, rotura total no tendão de aquiles do pé esquerdo a jogar futsal.

    Este texto foi-me apresentado por uma pessoa que me acompanhou nesse tempo todo de recuperação, e sabe o que passei e as pequenas alegrias que ia tendo na altura da recuperação, as pequenas alegrias do que falas.
    Tive pequenas (grandes) diferenças em relação ao teu caso, passado 3 horas da lesão, estava a ser operado no Hosp. S. Joao, o que aumentou em muito a capacidade de recuperação, só fiz 40 sessoes de fisioterapia.
    O que mais queria na altura era ser independente, o simples caminhar. É nesses momentos que damos um valor imenso ao simples...Caminhar!

    Eu fiquei a 100%, e desejo que a tua recuperação seja igual.

    Um abraço
    Tiago Cunha

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    1. Olá Tiago!

      Para já muito obrigado pelo teu testemunho. Perceberás melhor do que ninguém o significado deste texto e o que estas palavras representam para mim.

      Eu cometi um erro (apercebi-me disso depois) que não aconselho a ninguém. Lesionei-me ao serviço de um clube modesto e num torneio de uma câmara municipal. Fui ao hospital com a indicação de que tenho seguro que resolve o problema. No hospital, depois do diagnóstico e de me dizerem que necessitava de ser operado, perguntaram-me se tinha seguro. Respondi que tinha a informação de que sim. Então fui reencaminhado para o médico (sem eu saber quem era) do seguro. Depois não se consegue falar com a pessoa da câmara que trata do seguro. E os dias passam sem saber onde ir. Até que fui ao hospital novamente e fiquei na lista para ser operado. Um amigo meu aconteceu o mesmo e ficou logo internado, tendo sido operado um ou dois dias depois. Mas a verdade é que também ficou a dormir no corredor do hospital e nesse caso, prefiro esperar em casa. Posso dizer que cheguei lá e fui logo encaminhado para um quarto. Mas também me acalmaram dizendo que a espera não agravava a lesão.

      Estou a chegar aquela fase em que começas a acreditar que "tudo" está bem mas recordo-me sempre do médico que me disse que mais vale um mês a mais do que um mês a menos de fisioterapia. Se me perguntares digo-te que talvez não necessite das 60 sessões mas prefiro fazer.

      Até porque nesta sabe, como tão bem saberás, o maior obstáculo é o medo. Posso subir aquelas escadas? Posso descer a outras? E subo devagarinho ou como sempre subi? Senti uma pequena dor, será que isto está a rasgar novamente? Anda tudo à volta deste. Sinto que o meu maior obstáculo é o medo. E ele tem que se ir embora. Senão coxeio a pensar que estou a ser amigo da perna. E não faço muitas coisas apenas e só por medo. Não me imaginava a fazer um agachamento. Até que a fisioterapeuta me "manda" fazer três séries de 10. E percebo que os faço sem problema. Não me imaginava apoiado apenas em cima da perna lesionada. Até que me mandam e fico todo contente porque não sinto dores.

      Ou seja, estou na fase de perder o medo.

      Muito obrigado pelo teu testemunho. Obrigado a quem te fez chegar o texto. Obrigado por partilhares a tua história e melhor do que isso, ainda bem que a tua recuperação correu na perfeição. Desejo o mesmo.

      Grande abraço
      Bruno

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    2. Caro Bruno, não tens nada que agradecer.
      Quanto ao hospital, tive a sorte de ir parar ao Hospital S. Joao, fui muito bem tratado, no dia seguinte vim logo embora. Quanto a ser operado o mais rapido possivel, é o ideal, porque nao deixa o tendão cicatrizar, fui operado com um método novo (ancoras), não tive rasgão como o caso do Helton. Mas tudo isso agora são pormenores sem importância. Agora que ja estou bem, as vezes de manha, vais sentir também um regidez no tendão, mas depois de 3 ou 4 passos... tudo passa!

      Quanto ao falado medo, também o tive, também vivi essas duvidas, mas só o superas de uma forma, confiar em ti e na recuperação, e dizer, eu consigo porque fiz tudo bem...

      De resto...segue com confiança e coragem... passado 6 meses ja jogava a bola com amigos, sempre com receio nos primeiros tempos, mas ganhei confiança.

      Bom recuperação e um abraço

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    3. O meu método foi Achillon. Destaca-se por uma pequena incisão (fiquei com dois pontos. Um amigo meu que foi operado recentemente levou 27 agrafos) e por um aparelho que estica o tendão. Dizem que a recuperação é mais rápida mas que o tendão tende a ficar mais fino.

      Estou na fase de obrigar o pé a andar normalmente para não ficar com o vício de o proteger e coxear.

      Muito obrigado pelas tuas palavras.

      Abraço

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  3. E que nunca voltes a precisar da "amiga" bota! :)

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  4. Yeyyyy!! Tudo a correr muito bem e cuidado com os malabarismo e danças e cenas... coisas... e afins ahahahah ;)

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    1. Agora está na altura de começar a perder o medo. Esse é o maior obstáculo de todos ;)

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  5. É um dia feliz : )) Que o medo se vâ perdendo aos poucos mas que seja o suficiente apenas para nao fazer asneiras ; ) Mais vale devagar e bem! Muita sorte e râpidas melhoras. Mata Hari

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    1. Ainda existe algum medo mas esta semana a andar normalmente tem sido muito boa :)

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  6. Tudo a correr pelo melhor! ! !
    Beijinhos.

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  7. Querido Bruno, só agora assentei de regresso à Alemanha e vi o teu post. Quero desejar-te uma recuperação rápida e acima de tudo boa, para que não fiquem mazelas e possas fazer a tua vida normalmente. Sei o que é isso, já estive com um problema grave agarrada a uma cama durante dois meses e quando recuperei, até parecia que respirava melhor, comia melhor, saboreava a vida ainda melhor. Um dia de cada vez. Vai correr tudo bem. Abraços e tudo de bom para vocês.

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    1. Oi Célia :)

      Obrigado pelas tuas simpáticas palavras. Muito obrigado mesmo.

      Beijos

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  8. Ainda bem que a tua recuperação está a correr bem, espero que assim continue :)

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