18.3.15

anorexia nas passerelles (e fora delas)

Anorexia e moda andaram sempre de mãos dadas. Os críticos defendem que as manequins são excessivamente magras. “São umas anorécticas”, ouve-se com frequência. Quem trabalha na área defende que não existe nada de errado e que as modelos são saudáveis. Por outro lado, quase todos estão de acordo que as manequins são um exemplo a seguir para muitas jovens que sonham ser top models. Adolescentes que fazem o que for necessário para ter o corpo com as medidas perfeitas.

De tempos a tempos surgem notícias de jovens com distúrbios alimentares que acabam por morrer vítimas de anorexia. Jovens que vivem obcecadas com o corpo perfeito e que entram num percurso que infelizmente as leva até à morte. Volta e meia surgem também notícias de que é necessário estabelecer valores mínimos para que uma manequim possa desfilar numa passerelle. Algo que acontece neste momento em França, onde está a ser preparado um projecto lei que pretende mudar muitos aspectos.

Este projecto lei defende medidas severas para os sites “pro-anorexia” que incentivam as jovens a perder peso deixando de comer mas igualmente para agências que contratem manequins que tenham um índice de massa corporal abaixo do considerado saudável. Estas medidas surgiram porque existem entre 30 a 40 mil pessoas que sofrem de anorexia em França destacando-se o impacto social da imagem de que as mulheres devem ser magras a um nível doentio para que possam desfilar. Como tal, são propostas penas de prisão de seis meses para os agentes que contratem manequins sendo que as multas podem chegar aos 75 mil euros.

Agora, vamos aos valores de índice de massa corporal das manequins, algo que é calculado recorrendo a uma fórmula que relaciona o peso e a altura. Em França, uma pessoa que tenha um índice de massa corporal inferior a 18,5 é considerada demasiado magra. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a subnutrição é a partir dos 18. Caso o valor seja inferior a 17, trata-se de subnutrição severa. 16 ou menos é considerado estado de fome.  Peço que olhem para as fotos que se seguem.




Partilhei estas imagens porque são três mulheres que, caso o projecto lei tenha seguimento, estão proibidas de desfilar numa das capitais da moda. A sul-africana Candice Swanepoel tem um índice de massa corporal de 17,7. A holandesa Doutzen Kroes de 17,9 e, por fim, a brasileira Alessandra Ambrosio de 16,3. São apenas três das manequins mais requisitadas do mundo. Candice e Doutzen não me parecem subnutridas. E Alessandra não me parece uma pessoa num estado de subnutrição severa.

A anorexia é um problema grave. Que em muitos casos tem origem no sonho (que na realidade é uma obsessão) de ser igual à top model Y, X, ou Z. Mas acho que culpar a indústria da moda de todo este mal é sacudir a água do capote de muitas pessoas que têm um papel importante na vida dos adolescentes. Para começar, as pessoas não são todas iguais. Duas pessoas com o mesmo índice de massa corporal não têm de ter corpos iguais e saúdes idênticas. Uma pode ser saudável e outra pessoa pode não ser. Se todas as pessoas fosse colocadas no mesmo saco tinha de ter cuidado com a minha mulher que tem 1,80m e pesa cerca de 54 quilos. E que de doente não tem nada. É uma pessoa bastante saudável.

Acho importante que a indústria da moda tenha cuidado com as manequins. Sobretudo com as mais novas. Mas esse cuidado não passa por uma fórmula matemática. Existem outras formas de perceber se uma pessoa é saudável ou não. E é óbvio que quem não for saudável não deve ser contratado e devem ser investigadas e penalizadas as agências que incentivem um estilo de vida menos saudável. Uma medida que devia ser implementada em todo o mundo (já acontece por exemplo em Israel) passa pela indicação de que a fotografia foi alterada com recurso à edição de imagem. De modo a que as pessoas percebam que as publicidades nem sempre são o que aparentam. E que as manequins nem sempre têm o corpo da publicidade. Considero que este tipo de medidas são muito melhores para mudar mentalidades do que proibir que este ou aquele, que até podem ser saudáveis, trabalhem.

Por outro lado, acho que não deve ser ignorado o papel dos pais na vida dos adolescentes. Quantos pais incentivam as filhas a seguir a vida de manequim? Quantos pais exigem que as filhas tenham sucesso nessa área e que façam o que for necessário? Há uns tempos vi um programa onde se pretendia descobrir até que ponto os pais estavam dispostos a ir de modo a que os filhos (bebés) fossem escolhidos para um anúncio e existiam pais, aliciados pelos falsos agentes, que estavam dispostos a que fossem feitas pequenas cirurgias aos filhos de modo a que ficassem com o papel no anúncio. Além disso, quantos pais dizem às filhas coisas como “vais comer isso tudo? Estás a ficar gorda! Qualquer dia ninguém te pega”? Será que esses pais têm noção do impacto que essas palavras têm nas filhas? Ou a culpa é só dos outros?

Com isto não pretendo desculpar o mundo da moda. É óbvio que existe muito a fazer. Mas considero errado usar uma mera fórmula para escolher quem está apto ou não a trabalhar. Pelo simples facto de que as pessoas não são todas iguais e é necessária uma análise mais cuidadosa e detalhada. Por outro lado, culpar a moda de todos os males relacionados com distúrbios alimentares é sacudir a água do capote. Trata-se de um tema muito sensível e todos devem perceber a sua culpa neste problema. Porque as manequins não têm culpa do que se passa na nossa casa e que nós ignoramos até que seja, em alguns casos, tarde demais.  

28 comentários:

  1. Há tantos motivos para uma pessoa ser magra que não passam por anorexia. Acho que as agências podiam apostar em nutricionistas que pudessem fazer consultas às modelos e determinar se são magrinhas porque não comem ou se isso acontece por causa do metabolismo delas, etc, etc. Assim é que poderiam controlar realmente a anorexia nas modelos...

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    1. É uma verdade que muitas agências incentivam algumas práticas menos correctas. Mas isso não se aplica a todas. Nem as pessoas podem ser vistas como iguais.

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  2. Eu tenho 1.63 peso 46kg e adoro comer. Sempre ouvi coisas como "és tão magra" "mas tu não comes?" és isto e aquilo... Houve uma altura em que me importei, mas passou. Hoje gosto muito de mim assim. Aliás o ano passado engordei uns 5kg por causa de uns medicamentos que tive que tomar e as pessoas diziam que eu estava melhor assim. Sinceramente eu prefiro os meus 46kg saudáveis do que os 51 sob medicamentos que significavam que eu não estava bem.

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    1. As pessoas têm de perceber que os corpos são diferentes. E que as pessoas são diferentes.

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  3. O teu comentário é muito pertinente. Eu já tive um índice de massa corporal de 18, e estava super saudável, cheia de força e energia.
    Como sabemos a maioria das pessoas com excesso de peso não caminha a via da saúde.
    Agora parece haver o preconceito ao contrário: ser gordinha passa a ser obrigatório e o politicamente correcto. mais uma vez ai de quem não sirva no rótulo!
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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    1. E quem não consegue ser magra ofende as que são. Acho que vai ser sempre assim.

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  4. É, de facto, um problema que tem de ser tratado. Todas as modelos que colocaste aqui também devem ter a sua celulite ou bocadinho de barriguinha só que, com a edição de imagem, fica tudo muito mais liso. Até eu consigo fazer isso ao meu corpo. Contudo, deve ser passada a imagem de ser modelo não significa que tens de ser mesmo magra. A Fiona que costuma desfilar Fátima Lopes é o exagero dos exageros.
    Pessoalmente, e vendo outras fotografias das mesmas modelos que colocaste aqui apanhadas na praia ou outra coisa qualquer acho-as muito bonitas. Sara Sampaio incluída. Se eu trabalho para ter um corpo melhor? Sim, mas não quero um corpo anoréctico. Eu como mas também faço exercício físico. Vou para o ginásio fazer pesos e outras coisas que tais porque gosto muito do meu corpo mas quero tonificar mais e perder barriga que é, sem dúvida, o que mais me incomoda.

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    1. As pessoas têm os corpos que têm mas as manequins não têm de ser vistas como anorécticas apenas porque são magras. Podem ser pessoas mais saudáveis do que aquelas que as criticam.

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  5. Eu acho que o IMC não é a forma mais correcta de calcular se uma pessoa é magra, gorda ou assim-assim. Porque o meu está abaixo de 18,5 e nunca na vida alguém me iria definir como "demasiado magra". E existem aquelas mulheres que são magras naturalmente e nada conseguem fazer para engordar - que é o caso de muitas dessas manequins. O mais importante é a saúde e isso consegue ver-se perfeitamente sem ter que calcular coisas. Concordo perfeitamente com o que dizes sobre os pais que, muitas vezes, em vez de ajudarem, são os principais culpados.

    http://entreosmeusdias.blogspot.pt

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    1. O IMC é indicativo e limitativo. Só não vê isso quem não quer.

      Infelizmente muitas pessoas acham que os pais não são culpados de nada. A culpa está sempre da porta para fora.

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  6. Contratar modelos com base do IMC é um disparate, porque primeiro é apenas uma medida indicativa e segundo porque por exemplo quem for mais leve de ossos pode ter um IMC mais baixo e até ser mais rechonchudo do que tem um IMC mais alto.
    Tocas num ponto importante a culpa da obsessão pela magreza não é só da indústria da moda, mas foi aí onde tudo começou pois a magreza começou a ser desejada e apreciada porque assim se comunica em editoriais de moda, nas passerelles, nos anúncios, nos filmes e em todo o que comunica connosco, assim como a beleza a magreza é divulgada e como consequência promovida.
    Mas na minha opinião o maior problema será mesmo a educação em casa, na escola e na sociedade em geral, porque deveríamos saber distinguir entre o que é uma raridade e o que é comum e normal, as mulheres não podem ser todas altas, bonitas e esbeltas como a Gisele Bunchen assim como os homens não podem todos jogar futebol como o Cristiano Ronaldo.
    A moda tem bastante culpa neste tema mas as pessoas têm ainda mais:
    - Têm as mulheres porque não se sabem defender e valorizar e perceber que aqueles corpos são uma minoria.
    - Têm os homens porque não sabem conter-se em comentários e observações como se a maioria deles tivesse hipótese de conhecer uma mulher assim.
    - E têm ainda as mulheres por não exercerem a mesma pressão aos homens, já que nós também gostávamos muito de ter lá em casa Cristianos Ronaldos e Davids Beckam, sempre elegantes, bem vestidos, cheios de estilo e com o corpo definido ao milímetro.
    A única coisa boa disto tudo é que a maioria da população já percebeu que deixar de comer não é o caminho, mas sim comer de forma saudável e realizar exercício físico o que faz com que quer homens, quer mulheres estejam a ficar mais cuidados, mais tonificados e mais saudáveis.

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    1. Abordas diversos temas pertinentes e as pessoas deviam ler o teu comentário. Sobretudo a que olham para o IMC como regra que não pode ser debatida.

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  7. Tens toda a razão, isso é uma questão que vem muito antes das raparigas se tornarem manequins, vem efetivamente de casa.

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    1. Mas muitos pais acham que não têm culpa de nada.

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  8. E o papel dos médicos aqui tem , deve, falar mais alto.

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    1. Eu considero fundamental o papel da família e amigos.

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  9. Até à parte de que não se pode culpabilizar totalmente os media/mundo da moda tem razão,os paizinhos muitas vezes incentivam determinados comportamentos.
    Mas dizer isto quando tantas pessoas o lêem...
    "Mas considero errado usar uma mera fórmula para escolher quem está apto ou não a trabalhar. "
    é passar um atestado de estupidez à OMS.
    O índice de massa corporal não existe só porque sim, abaixo dos 18 não é considerado saudável, independemente de a sua namorada ter um IMC baixo e parecer saudável, isso não legitíma o facto.

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    1. Eu não passei um atestado de estupidez à OMS. Defendo é que o IMC é indicativo e limitativo. A minha mulher ser saudável não legítima o facto. Mas existirem mulheres com a sua altura e peso que não são saudáveis também não obriga a que ela não seja saudável. Cada caso é um caso.

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  10. Photoshop é uma coisa tramada, tanto para o bem como para o mal. Mas sinceramente se as tabelas de IMC existem, feitas pela OMS, por alguma razão é, correto? A anorexia quando é detetada normalmente já vai num estado bastante avançado, e antes para além do que é visível aos olhos, há também o invisível, como a falência dos orgãos.
    E a "culpa" ser dos pais também me parece too much.
    Acho é bastante importante que casos como a anorexia, não devam ser baseados no "eu não acho" e "a mim não me parece", porque são factos bem reais e que se medem em valores reais.

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    1. Eu considero que os pais têm um papel fundamental. Muitos pais alimentam a obsessão dos filhos ao mesmo tempo que culpam professores e sociedade. A tabela não foi feita pela OMS, foi adoptada pela OMS. Eu nada tenho contra a tabela mas acho que as pessoas não podem ser analisadas com base apenas numa conta matemática que nada sabe do meu corpo.

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  11. Tem que haver tabelas sim. Como em muitas outras situações, a tabela pode não funcionar, mas são as excepções que confirmam as regras. Por exemplo, os jovens podem votar a partir dos 18 anos, mas quantos estarão aptos para realmente o fazer? E quando são já maduros o suficiente para tomarem decisões aos 16? Este é só um exemplo de como tem que haver limites e tabelas, mesmo correndo o risco de existirem situações que contradigam as mesmas. Pegando no teu exemplo, em que os próprios pais incentivam as filhas a manterem-se magras, também esses estão formatados pelo estigma do sucesso televisivo e revisteiro. Há que combater isso.

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    1. Mas eu não critico a existência da tabela. Só defendo que a tabela não sabe o que se passa no meu corpo com dois dados (altura e peso).

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  12. Concordo plenamente, também sou uma magra com indice de massa corporal abaixo do normal , tenho imensa dificuldade em engordar embora coma tudo o que me apetece e como bem, e não sou nem de longe nem de perto um pessoa anorética.....aliás eu luto é para não emagrecer....(e não, não tenho nenhum problema de saúde...)

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  13. A questão do peso tem muito que se lhe diga, é tema que dá pano para mangas (por exemplo o meu é 16 e não sofro de anorexia, simplesmente tenho um metabolismo rápido e tenho um alimentação saudável).
    O IMC não é uma medida viável para saber se a pessoa está ou não saudável. Por alguma razão este cálculo não é utilizado nos atletas, pois dependo do desporto a constituição física exigida é diferente, se fizéssemos as contas teríamos atletas no limite do excesso de peso ou abaixo etc..
    Acho importante que as agências tenham atenção à saúde das modelos, tanto física como mental, pois muitos dos casos advêm de anorexia nervosa. A culpa dos distúrbios alimentares não é só do passa nas passarelas, o ambiente familiar também é um grande factor de risco para distúrbios alimentares, tanto para mais como para menos.

    B

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    1. Que os defensores da tabela passem os olhos pelo teu comentário.

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  14. 54kgs distribuidos num 1,80m é saudavel?!?! Ou temos noções de saude completamente diferentes ou você é mentiroso.Ana.

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    1. Olá Ana, tudo bem?

      Não, não sou mentiroso. E sim, a minha mulher é saudável. E quem passa por aqui que a conheça poderá testemunhar isso. Quanto à alimentação, testemunho eu, come tudo o que lhe apetece. Tem um corpo lindo.

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