31.7.14

is this love? (capítulo dezanove)


O coração de Miguel batia como nunca antes tinha batido. Aquele era o momento mais intenso da sua vida. Era a altura em que, pelo menos era nisso que acreditava, ia saber o que se passava com Alexandra e com a filha de ambos. O seu coração batia tanto que parecia querer saltar do peito, rasgando a t-shirt que lhe cobria o tronco. “Doutor, não aguento mais. Diga-me por favor o que se passa”, disse Miguel. “Acompanhe-me por favor. Vamos conversar numa zona mais privada”, respondeu o médico mantendo a postura séria com que se tinha aproximado de Miguel.

Passaram a porta e caminharam mais alguns passos. Não mais de vinte. Como se tratava de uma zona de acesso restrito, o médico entendeu que poderia contar o que se passava a Miguel em pleno corredor, onde a probabilidade de serem incomodados não era grande. “Podemos ficar aqui a conversar que não seremos incomodados. “Ainda não me apresentei. Chamo-me Marco Aurélio e tenho estado a acompanhar a sua mulher”, disse. Miguel deu-lhe um aperto de mão que serviu também para interromper as palavras do médico. “Doutor, diga-me o que se passa que não sei nada”, implorou Miguel.

“Não lhe vou mentir. Foi algo grave o que aconteceu à Alexandra”, começou por dizer. Ao ouvir aquelas palavras, Miguel evitava, a todo o custo, chorar à frente de Marco Aurélio. “A Alexandra tem uma doença que se chama Pré-Eclâmpsia e que se caracteriza pela pressão alta”, explicou o médico. “Como assim?”, questionou Miguel. “Ela fez os exames todos e nunca acusou nada”, acrescentou. “Compreendo a sua indignação mas é algo que não é fácil de detectar e que só se manifesta no segundo ou terceiro trimestre da gravidez”, disse o médico. “Mas a situação fica pior”, prosseguiu Marco Aurélio. “É que a doença da Alexandra avançou para Eclâmpsia, uma patologia muito grave durante a gestação e que provocou a tensão alta e que pode levar à morte da grávida e do bebé”, explicou Marco Aurélio, num momento em que Miguel já não controlava as lágrimas.

“Não percebo doutor. Fizemos os exames todos. Fomos muito cuidadosos com tudo. Não percebo como é que isto foi acontecer”, disse Miguel já lavado em lágrimas. A conversa já se prolongava há alguns minutos. O tempo suficiente para que Miguel tivesse a lucidez necessária para compreender a situação. Analisando as palavras que ia ouvindo, Miguel mentalizou-se de que estava a ser preparado para uma má notícia. Era só nisso que pensava naquele momento. “Já me explicou o que se passou mas continuo sem saber como está a minha mulher. Acredito que todo o cuidado que teve na explicação foi para me preparar para algo que não quero ouvir. Por isso, força. Diga o que tem a dizer”, soltou Miguel, tremendo por todos os lados. “A Alexandra está bem. A sua mulher já está estável mas terá de ser controlada ao longo das próximas horas e terá de permanecer alguns dias no hospital”, pode ficar descansado”, disse Marco Aurélio.

Apesar do alívio, Miguel continuava a chorar. Se a má notícia não era sobre Alexandra, teria de ser sobre Carolina. “E como está a bebé?”, perguntou a medo. “Há pouco não me deixou explicar tudo sobre a doença. A Eclâmpsia resolve-se com o parto. Em alguns casos pode levar à morte da grávida, o que não aconteceu e também do bebé”, explicou Marco Aurélio, sendo prontamente interrompido por Miguel. “Está a querer dizer-me que a minha filha morreu? É isso”, insistiu.

“Não! Estou a querer dizer-lhe, apesar de não parar de me interromper, que já é pai. Que a sua filha já nasceu”, disse Marco Aurélio esboçando o primeiro sorriso da conversa. “Como? Importa-se de repetir?”, pediu Miguel. “Já é pai. A sua filha já nasceu”, voltou a dizer o médico. “Já sou pai”, gritou Miguel. Naquele instante, as lágrimas deram lugar aos sorrisos, acabando por abraçar o médico que devolveu o abraço. “Já sou pai! Já sou pai! Já sou pai!”, gritava vezes sem conta.

“Miguel, lamento interromper a sua alegria mas tenho mais coisas para lhe dizer”, disse Marco Aurélio. “Como lhe disse, a Alexandra terá de ser acompanhada e a sua pressão terá de ser monitorizada durante as próximas 48 horas mas não é tudo. Os bebés que nascem nestas condições têm quatro a cinco vezes mais probabilidade de ter problemas no pós-parto”, alertou. “Mas está tudo bem?”, perguntou Miguel. “Neste momento sim mas temos de dar tempo ao tempo”, disse o médico. “Quer ir ver a sua filha?”, perguntou.

“Claro que sim e garanto-lhe já que a bebé não terá qualquer problema pois tenho a certeza de que tem a força da mãe”, referiu Miguel aparentando toda a força e certeza que as suas palavras demonstravam. Enquanto caminhava ao lado de Marco Aurélio, Miguel era consumido por um pensamento. “Escolhemos Carolina mas esse não será o teu nome. Vais ter outro nome e aposto que a tua mãe vai querer”, era aquilo em que ia pensando enquanto caminhava para o primeiro encontro com a sua filha.

afinal, o que custa mais?

Num destes dias gerou-se uma discussão entre o meu grupo de amigos que frequenta o ginásio. O assunto era sobre a prova desportiva que exige um maior esforço. Ou, por outras palavras, qual era a que mais custava fazer. E as opções eram apenas duas: uma maratona ou uma prova de ciclismo como o tour ou a vuelta. E as opiniões divergiam, nem sempre com argumentos que as sustentassem.

De um lado, e num número menor, os que acreditam que uma maratona é a prova mais exigente a nível físico. Nem que seja apenas porque sim. É mais difícil de fazer, defendem. Do outro lado da barreira, e com mais adeptos, as pessoas que defendem que uma prova de ciclismo, como as duas que referi, é muito mais exigente. Quanto a mim, acho que não existem dúvidas de que a prova de ciclismo é muito mais complicada e exigente.

Porém, considero que é um bastante injusto comparar uma maratona com o tour ou com a vuelta. Em primeiro lugar, e aqui pode existir um termo de comparação, são provas que exigem uma intensa preparação física. Porque não é qualquer pessoa que corre 42,195 quilómetros em poucas horas. Tal como não é qualquer pessoa que pedala mais de três mil quilómetros em cerca de duas semanas. São exigências físicas intensas que só estão à altura de quem se prepara da melhor forma possível para tamanho esforço.

Mas, sendo obrigado a escolher uma destas duas hipóteses, tenho de escolher a prova de ciclismo. É que a maratona dura algumas horas. E acaba ali. A prova de ciclismo obriga a que sejam percorridos bastantes quilómetros diariamente. E isso significa uma exigência muito mais forte do que correr uma maratona. Reforço que defendo que são duas provas que não podem ser comparadas. Mas quando o tema é desporto e quando os protagonistas da conversa são homens... vale tudo! E todos querem ter razão. 

o mês da contagem decrescente

Estamos prestes a entrar num novo mês. E Agosto é aquele que considero o mês da contagem decrescente. Porque é neste mês que tem maior incidência um fenómeno que começa a surgir no final de Julho. Não passa um único dia em que não leia numa qualquer rede social ou ouça alguém dizer “faltam x dias para ir de férias”.

30.7.14

o que farias?

Existem homens que passam a vida a dizer que fariam isto e aquilo se fossem uma mulher. Por sua vez, existem mulheres que também não têm dúvidas em relação aquilo que fariam se fossem um homem. Resumindo, todos sabem o que fazer no lugar dos outros, sobretudo em relação ao sexo oposto. Por isso, aquilo que quero saber é a primeira coisa que fariam se amanhã acordassem e fossem do sexo oposto. E dou o meu exemplo. Se amanhã acordasse mulher, ligava a algumas amigas e combinava uma ida conjunta à casa-de-banho para tentar perceber o que se passa lá dentro e descobrir um dos mistérios da humanidade.

ainda sou do tempo...

As frases que começam por “ainda sou do tempo...” costumam ser proferidas por pessoas que lamentam algo que existiu num passado mais ou menos distante. Em alguns casos estão carregadas de uma forte dose de melancolia. É o caso desta. Que, além da tristeza por algo que se perdeu, carrega igualmente uma boa dose de orgulho. Hoje celebra-se o Dia da Amizade e é com orgulho que digo que ainda sou do tempo em que amigo se escrevia sem aspas.

Não sou nem me considero velho pois tenho apenas 33 anos. Mas, quando o tema é amizade, sinto-me antiquado. Porque, no meu tempo, não existiam aspas, alíneas o ocasiões para os amigos. Era tão simples quanto ser amigo ou não ser. Não existiam amizades baseadas em interesses. Não existia o amigo do futebol, o amigo da escola, o amigo do bar e o amigo que só é amigo se me ligar todos os dias a perguntar se o almoço estava bom.

Diz-se, e bem, que os amigos são a família que escolhemos. O que pode, em alguns casos, representar uma ligação mais forte do que a família de sangue que é imposta e que pode não ter uma grande ligação afectiva connosco. Por isso, para mim, a amizade e este dia, são muito mais especiais do que as dez t-shirts brancas que tenho no roupeiro. Que são todas iguais e que uso quando tenho necessidade e que escondo no fundo do roupeiro quando não me servem para nada.

É também por isso que tenho menos amigos do que t-shirts brancas. Mas, os poucos que tenho não necessitam de aspas. Nem de alíneas. Nem sequer gosto deles apenas quando me dá jeito gostar. E muito menos exijo a sua atenção diária. Os poucos amigos que tenho são aqueles que estão lá quando é preciso estar. Aqueles que me dão (e a quem dou) uma t-shirt quando necessário. São um pequeno grupo de pessoas muito importantes e por quem faço tudo o que for necessário. E é com muito orgulho que digo que ainda sou do tempo em que as amizades eram assim. Coisa rara nos dias que correm.

de quem é o cão?!?

Na pastelaria onde tomo o pequeno-almoço diariamente costuma estar um cão à porta. Trata-se de um cão branco, de porte médio/grande, que está por ali para também ele tomar o pequeno-almoço. Deita-se à porta, olha para os clientes e quando a fome aperta ladra umas quantas vezes. É um daqueles cães que, não sendo de ninguém, é de todos. Porque todas as pessoas gostam dele e o tratam bem, dando-lhe comida e mimos.

Num destes dias fiquei sentado perto da porta. E reparei numa senhora, que estava, em pé, dentro do café praticamente ao lado da minha mesa, e que olhava para o cão com um ar muito sério. Até que olhou para mim, notando que eu estava a olhar para o cão e meteu conversa comigo. “De quem é o cão?!? É seu?”, perguntou com uma certa indignação.

“O cão não é meu. Aliás, não é de ninguém”, respondi. “Não é de ninguém? Como assim?”, disparou ainda mais indignada. Naquele momento achei estranho que não percebesse que era um cão vadio, como tantos outros que, infelizmente vivem nas ruas (do mal o menos, este tem a sorte de ser bem tratado pelas pessoas). Até que chegaram dois homens para entrar no café. E que fizeram o que muitos clientes fazem, que é meter-se com o animal.

Quando o cão estava entretido, a mulher apressou-se a sair do café. Afinal, a sua indignação não era mais do que medo. A senhora estava cheia de medo que o cão lhe fizesse algo no momento em que saísse. Mas foi incapaz de pedir a alguém para desviar o cão da porta. A sua esperança, refugiada no medo, era que o cão tivesse um dono para que pudesse, provavelmente, refilar com o dono (e teria a sua razão) pelo facto do animal estar deitado à porta do café, obstruindo a passagem.

Conheço várias pessoas com medo de cães. Quase todas porque em tempos tiveram episódios menos simpáticos com animais. Quando era mais novo fui a casa de uma amiga da minha irmã, que tinha um doberman. “Podes fazer festinhas que não faz mal”, disse a dona. Porém, quando estava prestes a mexer no cão, ia ficando com a minha mão dentro da sua boca. Mesmo assim, nunca ganhei medo. O meu único receio é quando estou a correr com música nos ouvidos. Porque existem pessoas que deixam os animais andar à solta e já fui “perseguido” por alguns, algo que consegue assustar. Curiosamente, nunca fui perseguido por nenhum cão vadio.

a fama e os outros

Ontem chegou-me à redacção o último álbum de David Bisbal. Poderia ser apenas mais um disco mas é especial. Porque se trata de uma pessoa que recordo de forma diferente. Já tive a oportunidade de estar à conversa com este cantor, cujo talento admiro desde a Operação Triunfo, em duas ocasiões. E um dos benefícios da profissão que escolhi é poder conhecer melhor pessoas com quem provavelmente nunca falaria.

Já perdi conta às pessoas que entrevistei. Mas não perdi conta aquelas que recordo. E esse leque é muito reduzido. Porque existem pessoas que acham que são estrelas mundiais quando, assim que chegam a Badajoz, ninguém sabe quem são. Existem pessoas que têm 2312 imposições para conversar. Existem outras que chegam horas depois da hora marcada para a conversa ou que nem aparecem, sem justificação. Existem aquelas que se acham superiores a quem as entrevista e as que acham que os entrevistadores são burros e que só devem fazer as perguntas que desejam ouvir, tipo pau mandado.

Depois, existem os outros. Aqueles que são realmente famosos. Que são (re)conhecidos em diversos países e que são as pessoas mais normais do mundo. Pessoas sem tiques de fama que falam com os jornalistas como se estivessem a falar com um amigo, quando existe essa confiança que se conquista durante a conversa. E o David Bisbal é uma dessas pessoas. Tratou-me como se me conhecesse há anos. E não existiram tabus na conversa. Deu-me liberdade para abordar todos os temas apesar de uma das conversas ter acontecido numa altura em que a sua separação fazia correr muita tinta em diversos países.

Outro destes exemplos é James Morrison, que tive o privilégio de entrevistar em Barcelona. Artista que vende milhões de álbuns e que não tem um quinto dos tiques de vedeta de algumas pessoas que apareceram cinco minutos a fazer figuração num qualquer programa português. Mais uma vez, todos os temas podiam ser abordados e não era necessária a presença de dez pessoas a ouvir a nossa conversa e a fazer sinais para que não me respondesse a isto e aquilo. Além disso, ainda fez questão de reforçar o convite para estar presente num concerto que ia dar nessa noite num clube de jazz em Barcelona onde só estariam cerca de cinquenta pessoas, uma das experiências que mais destaco dos anos que levo nesta profissão.

Não sou jornalista há muitos anos. Mas, a caminho da primeira década, já percebi que o conceito de fama em Portugal é completamente oposto ao seu verdadeiro significado. E, quem pensa que a tem, não tem e provavelmente nunca terá. Quem a tem, não faz dela bandeira e não recorre a ela para se fazer maior (e mais importante) do que verdadeiramente é.