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21.5.15

(des)encontros (capítulo dez)


Tudo corria bem até ao momento em que João se aproximou da fila 23 do avião que o iria levar até Dublin. A única coisa que não queria, apenas naquele momento pois era algo com que até costumava brincar em outras viagens, era a companhia de uma mulher bonita e sensual no lugar ao seu lado. Mas, contrariamente ao desejado, lá estava ela, uma morena bastante bonita. A beleza era tal que nem o seu mau momento tinha poder suficiente para que não a visse.

Aproximou-se da fila, na esperança de que a mulher se desviasse para que pudesse passar para o seu lugar. Mas ela não se mexia. “Peço desculpa”, disse. E ela continuava a não se mexer. “Peço desculpa”, voltou a dizer com um tom de voz mais elevado. E nada. A morena permanecia imóvel. Para não lhe tocar no ombro optou por passar com a mão direita em frente aos seus olhos. Foi então que a mulher desviou os cabelos das orelhas e retirou os auscultadores com que ouvia música.

“Sim”, disse ela. “Peço desculpa mas a música estava um pouco alta e quando estou com música nos ouvidos parece que desligo do mundo e não reparo em nada. Mesmo nos homens que estão ao meu lado”, brincou num tom de voz do seu agrado mas que desejava detestar com todas as suas forças. “Eu também sou assim”, respondeu revelando um tom de voz um pouco ríspido. “Queria passar para o meu lugar se fosse possível”, acrescentou. “Claro que sim. Peço desculpa”, disse, levantando-se de seguida.

João ficou ainda mais perto da mulher que tinha tudo para lhe agradar mas que preferia tentar ignorar. Foi então que sentiu o aroma do perfume DKNY, um dos que mais gosta nas mulheres. Mas conseguiu manter o ar de homem que despreza mulheres, algo que não passou despercebido à morena. João instalou-se no seu lugar e foi a sua vez de se entregar à música, entregando-se aos melhores temas dos Foo Fighters com um volume que permitia que a mulher percebesse a letra na perfeição. Colocou o cinto, encostou a cabeça e fechou os olhos na esperança de só os voltar a abrir no destino

Até que sentiu um ligeiro toque no ombro. Abriu os olhos. Era a morena que pretendia falar consigo. Agora era a sua vez de retirar os auscultadores. “Foo Fighters! Só podes ser boa pessoa”, disse. “Ok. Era só isso?”, reagiu João. “Acho que começámos mal pois parecias chateado por não te ter ligado nenhuma quando querias passar mas sou eu que sou despistada. Sou a Inês e peço-te desculpa”, referiu. “Não é isso. Não tens de pedir desculpa nenhuma e que todos os meus problemas fossem esperar que reparasses que pretendia passar”, explicou. “Mas pelo menos podes dizer-me o teu nome”, prosseguiu Inês. “Claro. Sou o João”, respondeu.

“Já deves ter reparado que além de despistada falo pelos cotovelos. Por isso esta é a parte em que invado a tua privacidade e te pergunto o que vais fazer a Dublin”, gracejou. “Vou atrás de uma pessoa”, disse. “Quer dizer, vou à procura de uma pessoa”, corrigiu. “Homem misterioso e de poucas palavras. Além disso vais atrás, quer dizer, à procura de alguém. Esta é a parte da conversa em que me dizes que se me contares algo mais terás de me matar ou que trabalhas para o Governo a quem resolves os problemas chatos”, brincou, fazendo com que João deixasse cair o escudo e ficasse cada vez mais indefeso perante a simpatia de uma mulher que tinha acabado de conhecer. “Sim, tens razão. É a parte da conversa em que te posso dizer que faço cobranças difíceis e nada mais do que isto para não te arranjar problemas”, referiu com a voz colocada e com o seu ar mais sério. Inês, que era o espelho da alegria petrificou perante tal resposta. “Estou a brincar contigo”, disse João soltando uma gargalhada sonora. Inês sorriu. "Pelo menos deu para te ver os dentes e para perceber que tens humo", referiu.

“Agora a sério. Esta é a parte da conversa em que te digo que me despedi e que decidi ir a Dublin à procura de uma pessoa que vi apenas uma vez e de quem pouco sei”, explicou. “Isso é que é amor”, disse Inês. “Ou então apenas parvoíce”, acrescentou João. “Acabei de te conhecer mas quem faz isso por uma pessoa que mal conhece não pode ser palerma. Longe disso”, argumentou. “Obrigado. E qual o motivo da tua viagem?”, perguntou para mudar de assunto. “É uma viagem de trabalho. Vou ter algumas reuniões mas que não implicam ir atrás de alguém ou fazer o trabalho sujo do Governo”, gracejou, motivando novo sorriso a João.

“Afinal estava a ser parvo. Ainda bem que me calhou esta companhia”, pensou João enquanto sorria para Inês. Até que um homem se aproximou de ambos. “Peço desculpa menina mas está no meu lugar”, disse, mostrando o bilhete respectivo ao lugar B da fila 23. Inês confirmou os dados no seu bilhete. “Tem razão. Peço desculpa. O meu lugar é o B mas da fila 13. Mudo já”, respondeu numa altura em que João esperava que o homem dissesse que ficava com o lugar na fila 13. Algo que não aconteceu.

Inês levantou-se. Retirou a sua mala do compartimento da bagagem e começou a andar para o seu lugar. Até que se virou para trás. “Boa sorte João. Espero que a viagem corra bem”, disse. João agradeceu com um acenar de mão e um sorriso não sendo capaz de tirar os olhos de Inês enquanto esta se afastava de si. O homem sentou-se. “Esta gente. Nem olham para os bilhetes. Parvos”, disse, sem que João lhe ligasse nenhuma. Mas se não ligou às palavras foi incapaz de não ficar incomodado pelo cheiro. O aroma do perfume DKNY de Inês deu lugar a um cheiro resultante do consumo excessivo de tabaco misturado com a transpiração que parece acumular-se no corpo e na roupa. “Só tens o que desejaste”, pensou João.

23.4.15

(des)encontros (capítulo nove)


Chegara o dia da viagem para Dublin. João estava pronto para viajar. Tinha pedido a Jorge para lhe dar boleia até ao Aeroporto da Portela. Como já esperava que fosse acontecer, tinha dúvida sobre a opção de viajar até à Irlanda. “O que vais fazer?”, perguntava a si mesmo. “Andas a dizer ás pessoas que precisas desta viagem e do descanso quando na verdade tens a secreta esperança de encontrar a Sophia”, respondia a si mesmo em voz alta, tal e qual como se fosse um diálogo com outra pessoa.

“Estás preparado para a desilusão de não encontrar ninguém? E se regressas de lá ainda mais triste e descrente do que partiste?”, insistia. “Que se lixe tudo isso. Pelo menos tentei algo”, respondia às vozes que ouvia na sua cabeça enquanto acabava de arrumar a mala. “Seja como for, o Jorge fez questão de pagar as viagens. Por isso, tenho de ir. Não existe espaço nem tempo para arrependimentos”, dizia. Até que o seu raciocínio foi interrompido pelo barulho do seu telemóvel. Era uma mensagem. “Estou á porta do teu prédio. Desce”, era o conteúdo da mensagem enviada pelo seu melhor amigo.

“Anda Bauer”, disse para chamar o buldogue francês, que reagiu como se fosse dar um passeio à rua. “Não vais à rua. Vais uns dias para casa do tio Jorge. Vais poder brincar com a Inês”, explicou ao cão como quem fala com uma criança. Sendo que nesse momento, Bauer mudou a sua postura, como se estivesse a perceber o que lhe ia acontecer. “Boas! Obrigado pela boleia até ao aeroporto”, disse a Jorge enquanto entrava no seu carro. “Não tens de agradecer”, respondeu.

“Só quero que me digas uma coisa. Tens a certeza disto?”, perguntou Jorge. “Mesmo que não tivesse já pagaste as viagens. Por isso, resta-me viajar”, gracejou João. “Não é pelo dinheiro. Até porque só se perde o de uma viagem. A outra ainda devolvem”, referiu Jorge com um ar mais sério. “Mas eu quero viajar. Vai fazer-me bem, mesmo sem saber o que vou encontrar. Preciso desta viagem e destes momentos a sós”, explicou João. “Estou convencido”, disse Jorge.

“Sobe o volume do rádio que adoro esta malha”, pediu João ao perceber que estava a começar a música Hold my Hand, de Jess Glynne. “Standing in a crowded room, and I can't see your face
Put your arms around me, tell me everything's ok. In my mind, I'm running round a cold and empty space. Just put your arms around me, tell me everything's ok”, cantarolava João. “Break my bones but you won't see me fall, oh. The rising tide will rise against them all, oh”, acrescentou num tom de voz diferente enquanto Jorge se ria com o espectáculo protagonizado pelo amigo.

“Estamos a chegar. Queres que pare o carro no parque e que vá contigo lá dentro?”, perguntou Jorge. “Esquece lá isso. Encostas e saio. Não quero uma despedida muito sentimental”, respondeu João. “Tu mandas”, disse Jorge, dirigindo-se para a zona de partidas. “Estás entregue”, acrescentou. “Obrigado por tudo. És o meu melhor amigo e nunca esquecerei o que tens feito por mim”, referiu João, dando um apertado e sentido abraço ao amigo. “Já não se fazem pessoas como tu”, disse. “Bauer, toma conta deste gajo”, afirmou, fazendo uma festa ao seu cão antes de sair do carro.

Ao entrar no aeroporto deparou-se com o monitor onde apareciam as partidas. O check-in para o seu voo estava aberto e começava no balcão 23. “Tanto número e tinha logo de começar num que é especial para mim. Gosto destas coincidências”, pensou. Chegado ao respectivo balcão deparou-se com uma pequena fila. “Porreiro. O avião não deve ter muitas pessoas”, foi a ideia que lhe veio à cabeça. Chegada a sua vez, tratou de tudo até que lhe foi feita uma pergunta. “Tem preferência por janela ou coxia?”, perguntou a hospedeira de terra. “Aquilo de que gosto mesmo são daqueles lugares onde dá para esticar as pernas. Depois disso, aprecio um lugar à janela”, respondeu, entre risos. “Vou ver o que consigo fazer”, respondeu a funcionária sem evitar um sorriso às palavras de João.

Quando recebeu o bilhete, olhou para o mesmo e notou que ia ficar na fila 23, lugar A. “Outro 23? Já começa a ser coincidência a mais”, pensou. João encaminhou-se para a zona das partidas. Mostrou o bilhete de avião e seguiu para a porte de embarque número 12, não sem antes parar numa das lojas para comprar dois pacotes de Skittles, algo que não dispensa nas viagens de avião. Isso e música. Enquanto se encaminhava para a porta pensava em duas coisas. Primeiro, que a porta de embarque fosse com manga de acesso ao avião pois detesta esperar pelos autocarros. A segunda, que não ficasse sentado perto de nenhuma mulher que o pudesse distrair.

Enquanto se encaminhava para a porta de embarque percebeu que o seu primeiro desejo estava concedido. Como tinha demorado algum tempo, quando lá chegou já o embarque tinha começado. Restava saber se o seu segundo desejo seria satisfeito. Mostrou novamente os documentos e encaminhou-se para o avião. “Olá!”, disse às hospedeiras que recebiam os passageiros, a quem mostrou o bilhete. “Fila 23, do seu lado direito”, disse-lhe. “Espero que não esteja lá ninguém ou que seja um homem a ficar perto de mim. Não quero distracções”, pensava e desejava com todas as suas forças. Até que chegou à sua fila. Onde, estava uma linda morena, sentada no lugar B da fila 23.

26.3.15

agora escrevo eu #34

Neste texto, no passado fim-de-semana, brinquei ao dizer que era a “única” pessoa que não tinha estado na meia maratona de Lisboa. Nos comentários desse post expliquei que entendo que correr está na moda e que muitas pessoas ignoram a preparação necessária para uma prova destas. Correm porque é giro correr, porque todos correm e para partilhar imagens nas redes sociais. Um dia depois, recebi um email de um amigo que já foi atleta federado e que também correu a meia maratona de Lisboa. Como existem modas que podem ser perigosas, aconselho a leitura deste texto/relato de alguém que já levou a corrida muito a sério. Obrigado pelo texto.

“Li o texto que escreveste no blogue sobre a corrida e gostaria de partilhar a minha experiência enquanto foi atleta federado, isto caso não te importes.

Ao ler o teu texto, falas sobre algo muito importante e que muita gente desconhece, os seus limites, correr porque está na moda não é correcto, fazer uma meia maratona sem se treinar e sem se ter um acompanhamento correcto é ainda pior. Passo a falar da minha experiência pessoal enquanto atleta, em treinava todos os dias cerca de hora e meia a duas horas, sempre acompanhado por uma equipa constituída por médico e um treinador especializado em corrida.

Começando pela parte médica, ia fazer exames ao centro de medicina desportiva de 6 em 6 meses, e era ainda acompanhado pelo medico do clube que, nos controlava regularmente quer fosse através de análises de sangue quer fosse através de electrocardiograma normal ou de esforço, em que nos eram receitados alguns produtos para tomarmos, para nos ajudar a ter um equilíbrio fisiológico, no meu caso quase sempre era receitado duas vezes por ano magnesona para ajudar na recuperação muscular, e nas cãibras quais eu sofria muito.

A nível do treino era acompanhado por um treinador especializado, o qual me estipulava um plano de treino adequado aos meus objectivos. Treinava arduamente para esticar um pouco mais os meus limites, habituar o meu corpo a um grande esforço e a uma rápida recuperação, podia passar horas a falar sobre este tema, mas não o vou fazer.

No início desta minha aventura, não conhecia os meus limites, e por algumas vezes os ultrapassei caindo em lesões e fases de provas em que tive que abandonar e ser assistido pelos médicos, depois comecei a treinar com aquele que me ensinou muito sobre este desporto e que através de alguns testes físicos, definiu o meu limite e com um planeamento do treino me levou atingir novos limites, para os quais tive de trabalhar muito e ter muita calma, para os atingir.

Ao fim de alguns anos fiz a minha primeira meia maratona da ponte 25 Abril, com o tempo de 1 hora 16 minutos.

Com isto apenas quero dizer que quem pretende fazer corrida como desporto deve conhecer-se primeiro, fazer exames para ver se não existem problemas que impeçam a prática desportiva, e se possível procurar uma pessoa especializada para ajudar a melhorar e correr melhor, pois correr também tem técnica, não basta só sair de casa com uns ténis xpto e somos logo bons.”

12.3.15

(des)encontros (capítulo oito)


Poucos minutos depois Jorge estava de volta com o computador. Quando se aproximou de João notou que o amigo tinha estado a chorar. “Não me digas que estiveste a chorar por minha causa”, brincou. “Estive”, disse João. “És o irmão que não tenho. O meu melhor amigo. E nunca te conseguirei explicar o que senti quando notei que estavas disposto a viajar comigo caso dissesse que queria a tua companhia. Tal como nunca te conseguirei explicar o que senti quando deixaste claro que tens o desejo de pagar as viagens. Acho que sabes distinguir quando alguém te diz isto de forma sentida ou quando o fazem porque fica bem. Gosto muito de ti meu amigo”, referiu. “Uma pequena correcção”, disse Jorge. “Como assim?”, perguntou João. “Disse que te pagava uma das viagens e não as duas”, gracejou Jorge.

“Antes de reservar a viagem, já tens ideia de quando queres ir?”, perguntou Jorge. “No próximo Sábado”, respondeu João. “E onde vais ficar? Vais à maluca ou tens um sítio que queiras reservar já?”, inquiriu Jorge. “Boa pergunta! Procura aí o site do Maldron Hotel. O que fica na Cardiff Lane. Se não for muito caro fico aí”, disse. “Já estiveste a fazer uma pesquisa? Com essa resposta pronta”, gracejou Jorge. “Nada disso. Conheço esse local. Está bem situado e o hotel é muito porreiro. Já lá fiquei uma noite. Achei piada porque foi o primeiro local onde vi uma máquina, parecida com aquelas de vending, onde deixavas o telemóvel à carga. Os quartos são porreiros e sou capaz de ficar lá uma semana”, explicou João. “Ok! Já fiz aqui uma simulação e só a estadia fica-te em pouco mais de 1200 euros. Queres reservar?”, perguntou Jorge. “Deixa-me fazer contas de cabeça”, respondeu João. Depois de alguns segundos em silêncio pegou na carteira. “Precisas do meu cartão de crédito para a reserva, não é? Vamos lá reservar isso”, afirmou com convicção, colocando o cartão em cima da mesa.

“Done! A reserva do hotel já está feita”, disse Jorge. “Desta já não te escapas”, gracejou. “Agora vamos ver as viagens”, acrescentou. “Vamos a isso”, referiu João. Os minutos foram passando e Jorge nada dizia, continuando atento ao computador. “Então? Não estás a encontrar nada?”, perguntou João, ansioso e nervoso com a possibilidade da viagem fugir do orçamento que ainda tinha disponível para a viagem. “Isto está complicado. Não encontro nada de jeito para as datas que queres”, referiu Jorge. “Não me digas isso que já fizemos a reserva do hotel e se cancelar perco o valor de uma noite”, disse João com um ar assustado. “Estou a gozar contigo. Já te comprei as viagens. Paguei as duas”, explicou Jorge. “Estás a gozar. Tinhas dito que pagavas uma. Não quero que pagues as duas”, insistiu João. “Mas já paguei. Posso dizer-te que ficou em cerca de 350 euros. E a tua amizade vale muito mas mesmo muito mais do que isto. A comparar com o bem que já me fizeste, isto são uns meros trocos. Por isso, se te vai dar para contas e merdas dessas, pensa primeiro no bem que já me fizeste e no apoio que me deste quando me divorciei. Sabes que não me esqueço das coisas”, explicou Jorge. João voltou a chorar, abraçando-se ao amigo depois de lhe dar dois beijos. “Tu és e serás sempre família. Estarei aqui sempre que precisares”, sussurrou-lhe ao ouvido.  Jorge apertou-o com mais força.

“Já está tudo resolvido. Resta-me desejar-te que a viagem sirva para que encontres o teu rumo. O rumo que mereces e que desejo para ti”, disse Jorge. “Antes de começares com esses discursos existe um problema para o qual também és a solução”, referiu João. “Mais um problema? Não chega? Quando começas a dar-me soluções?”, brincou Jorge. “Agora. Vou apresentar-te o problema e vou fazer de ti a solução. Ou melhor, a tua filha será a pessoa mais satisfeita com a solução”, disse João entre risos. “Não precisas de dizer mais nada. Queres que fique com o Bauer lá em casa durante a semana da tua viagem. É isso não é?”, perguntou. “Se não quiseres, não te obrigo a ficar com ele. Mas sei que a tua filha adora o Bauer. E assim tenho a certeza de que ele não ia estranhar em demasia a minha ausência. Mas volto a dizer-te, não te sintas obrigado a ficar com ele”, referiu João. “Claro que fico com o Bauer. Ela vai adorar. Só espero que ele não me estrague nada ou a estadia sai-te cara”, brincou Jorge. “Obrigado mais uma vez. Muito obrigado mesmo”, soltou João com emoção nas palavras.

“Como te estava a dizer antes de me interromperes com a conversa do Bauer, espero mesmo que esta viagem sirva para que encontres o teu rumo. Conheço-te o suficiente para acreditar que irás encontrar as respostas que procuras nesta viagem. Espero mesmo que...”, argumentou Jorge sendo interrompido pelo amigo. “Guarda essa conversa para depois que ainda me fazes chorar outra vez e já pareço um bebé chorão. Não me vou embora agora. Por isso dizes-me isso depois. Deixa-me antes pedir-te mais uma coisa, pode ser?”, perguntou João. “Mais? O que ainda queres de mim?”, disse Jorge. “Quero ir beber uns copos e brindar à nossa amizade. Pode ser?”, disse João. “Agora ou já?”, perguntou Jorge.

5.3.15

agora escrevo eu #33

Considero-me um eterno apaixonado e um romântico que sempre o será, por maior que seja a dor que o amor possa motivar ou feridas que possa deixar. E já não sei o número de conversas que tive em que se falou do amor. E em acabaram por levar até ao “quando se gosta” que serve para explicar que não existem problemas nem obstáculos no amor. Existem apenas soluções. E é esse o tema deste maravilhoso texto da Pê. Um texto mais do que recomendado para românticos.

“Quando se gosta não há desculpa. Não há falta de tempo. Não há cansaço, não há horas. Não há nada que nos impeça de estar ali, ao lado de quem se quer. Para além do trabalho, onde durante essas horas se bombardeia o objecto do nosso amor com mensagens infindáveis e lamechas, tudo o resto é contornável.

A chuva e o sol aparecem quando devem, só para tornar cada momento mais especial. Toda a gente nos lê nos olhos e nos perdoa as ausências. Os amigos sorriem, estão felizes por nós. Nós estamos felizes. E o mundo sorri para nós.

Dorme-se menos. Come-se a correr. Trocam-se horários. Desdobramo-nos em festas e situações, só para podermos fugir e ir ter com. É isso que nos faz acordar com um sorriso estúpido depois de 2h de sono. Não há motivos, não há doenças. Não há cafés nem há compromissos. Não há impossíveis, nem falta de dinheiro. Não há nada que nos separe.

Só há vontade e borboletas. Conversa deitada fora, porque se quer conhecer mais e mais. Não há monólogos, só perguntas. Porque nos queremos actualizar de todos os anos que não estivemos ali. Comentários, cabeças na lua e sorrisos estúpidos. Frases sem sentido, olhares brilhantes. Problemas que deixam de existir. E um único objectivo, estar ali.

As horas são minutos, as frases são palavras e um beijo é tudo. As promessas são eternas, as mãos dadas são compromissos e os segredos são selados com um sorriso cúmplice. Faz-se das tripas coração, sem sequer se ter consciência disso.

Queremos apresentá-lo ao mundo para que toda a gente veja e se deslumbre, como nós nos deslumbramos. Para que toda a gente entenda o porquê do sorriso sem motivo. E perguntamo-nos como é que algum dia ousamos estar tristes se neste momento temos a certeza de que somos as pessoas mais felizes do mundo.

As músicas têm novas letras, os braços abrem-se e só queremos dançar, enquanto gritamos bem alto que aquela pessoa é nossa. E que nós somos dela. E que assim é que sempre devia ter sido.
Mas tudo tem um propósito. É um sentimento egoísta, só queremos o nosso bem, e esse só é atingido se o outro estiver connosco. Porque é o que somos quando o outro está presente e o que sentimos por ele que importa.

É querer mudar o mundo, achar que tudo é possível, acreditar que sempre devia ter sido assim. Não entender como é que até agora podíamos ter sido felizes se nos faltava uma parte tão importante. E acreditamos que vai ser infinito. Não só enquanto dure, não. Neste momento acreditamos que o infinito é eterno.

As pernas tremem só de o ver chegar. Um sorriso salta só porque sentimos que está a olhar para nós. O coração quase que pára quando ouvimos o nosso nome dito por aquela boca, com aquela voz. Aquela boca que nos dá os melhores beijos. A voz que nos faz suar frio.

Trocamos a festa do ano por cinco minutos com direito a um beijo e um xi apertadinho. Fazemos quilómetros só por um olá. Não conseguimos engolir só porque ouvimos uma palavra bonita. Acordamos a meio da noite só porque queremos ter a certeza de que a outra pessoa está ali, que não é só um sonho bom. Sonhamos acordados, e vivemos em sonhos, porque o dia só tem 24h. Um toque no cabelo que nos faz arrepiar, um beijo que nos faz desejar o mundo. Agarrá-lo para sempre, esperar que o tempo pare e passar a eternidade assim.

E não há desculpa para não estar.
Para não telefonar.
Para não ir.
Para não dormir.
Para não dizer.
Para não andar.
Para não abraçar.
Para não ouvir.
Para não contar.
Para não sentir.
Para não tremer.
Para não dançar.
Para não suar.
Para não correr.
Para não sorrir.
Para não cantar.
Para não ferver.
Para não ter.
Para não beijar.
Para não viver.
Para não ser.
Não há desculpa.
Porque quando se gosta…”

26.2.15

(des)encontros (capítulo sete)


Já a segunda garrafa de Grandjó estava na mesa e João e Jorge continuavam à conversa. “Não te quero demover desta ideia. Não é esse o meu objectivo mas tens a certeza do que estás a fazer?”, perguntou Jorge. “Estás a referir-te ao facto de me ter despedido ou a tua dúvida diz respeito à viagem à Irlanda para tentar encontrar uma mulher com quem estive numa noite?”, questionou João. “Já que colocas as coisas nessa perspectiva, refiro-me aos dois casos”, referiu Jorge. “Então, e como diria Jack, o estripador, vamos por partes”, gracejou.

“Em relação ao emprego, já me tinhas ouvido queixar vezes sem conta. Estava farto e saturado daquele local. Daquele chefe que nasceu para tudo menos para o cargo que ocupa. Não percebe o que faz e é um mau líder. Se esta situação precipitou a minha decisão? Talvez! Se me arrependo do que fiz? Nada! Já trabalhei em centros comerciais e em muitas outras coisas. Se tiver que o voltar a fazer, irei fazer sem qualquer problema. Mas estou a preservar a minha sanidade mental. Podes criticar-me pela forma como saí. Podia ter feito tudo de outra forma, assumo isso mas sabes como sou”, explicou João. “Sei como és. Adoro a pessoa que és e é por isso que te amo como um irmão. Se estás de consciência tranquila, melhor ainda. Não há nada melhor do que ir para a cama de consciência tranquila. Agora, acabas de sair de um emprego de uma forma que acaba por não te defender financeiramente e queres gastar dinheiro que te pode fazer falta numa viagem que é uma autêntica caça aos gambozinos”, refere Jorge.

“Que queres que te diga? Não acredito no amor. Ou pelo menos pensava que não acreditava. E esta miúda em pouco tempo fez-me sentir vivo nesse aspecto. Fez o meu coração bater de forma inesperada. Roubou-me o ar. Parecia que não conseguia respirar ao mesmo tempo que parecia não ter os pés no chão. Há muito que não sentia isso. Se é isto que me faz querer ir à Irlanda? É capaz de ser. Se acredito que a irei encontrar? Não, porque pouco sei em relação aos espaços onde costuma ir. Se isso me preocupa? Nada. Até porque a cerveja é boa. Gosto da cultura deles. Gosto das pessoas que se juntam nos bares ao final do dia de trabalho. E isso chega-me. Se há coisa que não me preocupa é chegar lá e pensar que deitei dinheiro à rua. Acredito que, mesmo não encontrando a Sophia, irei ficar preenchido com a viagem. Irá ajudar-me a encontrar o meu rumo”, justificou João com um tom de voz onde a seriedade e emoção se misturam.

“Queres que vá contigo?”, perguntou Jorge. Ao ouvir aquelas palavras, João chorou. “Estás a chorar porquê? Estás a dar em sentimental?”, brincou Jorge. “Estou a chorar porque sei que és a única pessoa que me diz isso com sentimento. Sei que se te disser que quero que venhas comigo, tu vens. Ao contrário das restantes pessoas que fazem essa pergunta na esperança de que responda que não e com medo que diga que sim, algo que as levava a inventar desculpas para não ir”, disse João, ainda com lágrimas nos olhos. “Deixa-te dessas merdas que isso não é conversa para mim. Queres que vá? Dizes que sim e preparo tudo em casa pois a tua amizade diz-me muito”, insistiu Jorge. “Não, não quero que venhas comigo. Não te posso pedir que gastes dinheiro quando tens uma filha e um enteado em casa para sustentar. Nem sequer quero que possas ter problemas em casa por minha causa. Será uma viagem sozinho. Mas agradeço-te”, refere João enquanto bate com a mão direita no coração.

“Fode-te com essa conversa. Queres ou não que vá contigo?”, voltou a perguntar Jorge. “Não! Não quero mesmo. Obrigado mas não quero”, respondeu João. “Bem, nesse caso vou ali tratar de uma coisa”, disse Jorge. “Também não é preciso ficares assim. Não quero pelo teu bem. Não acho necessidade que tenhas de gastar dinheiro num devaneio meu. Mas não quero que te zangues comigo por causa da minha decisão”, referiu João, preocupado com a reacção do melhor amigo. “Não sejas parvo. Achas que me vou chatear contigo por causa disto? Vou ao carro buscar o computador para se fazer a reserva da tua viagem. Não queres que vá mas faço questão de te pagar uma das viagens. É o mínimo que posso fazer por ti”, disse Jorge. João voltou a chorar enquanto o amigo se afastava.

19.2.15

(des)encontros (capítulo seis)


João acabara de se despedir. Encaminhava-se para a porta enquanto pensava que finalmente tinha tido coragem para tomar uma atitude com a qual apenas sonhara e que nunca julgara ser capaz de concretizar. E quando pensava no dia em que dissesse ao chefe que não aturava mais as suas atitudes acreditava que seria consumido imediatamente pelo arrependimento. Porém, caminhava em direcção à porta do escritório com uma sensação de liberdade que não sentia há muito. Mais do que orgulho pessoal pelo que tinha feito, acreditava ter tomado a decisão certa.

Já na rua, lembrou-se de enviar uma mensagem para Jorge, o seu melhor amigo. “Queres ir jantar ou beber um copo logo?”, perguntou. Minutos depois a resposta. “Sabes que dia é hoje? Nunca queres combinar nada durante a semana. O que se passa contigo?”, foi a resposta. “Sei que dia é hoje. E sei que não te costumo convidar para nada durante a semana. Aliás, recuso os convites que me fazes. Mas preciso de falar contigo. Se quiseres jantar, agradeço a companhia”, escreveu. “Chinês do costume, às 20 horas, para recordar os bons velhos tempos enquanto bebemos uma garrafa de Grandjó?”, perguntou Jorge. “Está feito. Até logo. Beijos”, gracejou como era seu hábito.

Durante o resto do dia evitou o contacto com a família. A decisão que tinha tomado a quente, mas da qual estava seguro, fazia com que temesse uma reacção negativa da parte da família. Como tal, decidiu ir para casa. Quando chegou entregou-se à Playstation e ao jogo GTA V. Aliás, jogar mata mata online era a melhor forma para lidar com os momentos em que estava preocupado, chateado ou em que tinha algo a matutar na cabeça. Minutos depois fartou-se e decidiu ir correr na marginal. Vestiu-se, colocou o relógio no pulso e prendeu o iPod shuffle aos calções. Há meses que não mudava as músicas que considerava ideais para correr. Optou pelo modo aleatório e saiu de casa.

Ainda no elevador fazia alguns alongamentos e cantava como se estivesse num local ao qual ninguém tinha acesso. Contudo, a meio da viagem, e sem que se apercebesse, o elevador parou. No momento em que cantava uma das suas músicas preferidas para correr – Fight to Survive, de Stan Bush – deu de caras com o casal do terceiro andar que não evitou rir no momento em que a porta do elevador se abriu. Sem perder a postura, e como se nada fosse, disse boa tarde e informou que o elevador ia descer. E continuou a cantar. De forma mais discreta, mas sem parar. Assim que o elevador parou, despediu-se dos vizinhos e colocou o volume no máximo. Assim que saiu do prédio, colocou a música do início e começou a correr em direcção à marginal.

“I've worked hard every night and day. So I'm prepared to make my way. Mind and body are the perfect team. Now's my chance to live my dream. I'm taking hold of every moment. Given strength by the breath of life. I'm gonna stake my claim. I fight to survive”, era o que cantava a cada passada. Nunca aquelas palavras lhe tinham feito tanto sentido. Há muito que não corria na marginal aquela hora. Já nem se lembrava da sensação de paz que sentia no momento em que a sola dos ténis pisava o chão de forma suave enquanto observava o rio do seu lado direito. As corridas permitiam-lhe abstrair-se do mundo, focando-se apenas nos detalhes que iam do casal que se beijava apaixonadamente no pontão até ao cão que avistava ao longe sem saber como ia reagir à sua passagem. Os mais de sete quilómetros que correu foram passados a pensar na decisão que tinha tomado e no que ia fazer agora.

Ao contrário do que costumava fazer quando acabava de correr, ficou junto ao rio ao olhar para a paisagem. Como se tivesse a certeza de que seria a sua última oportunidade para observar aquela paisagem. Olhava para cada detalhe como se o quisesse gravar para sempre na sua memória. Não encontrava explicação para o que estava a fazer mas sentia-se incapaz de sair dali. Mais de trinta minutos depois, e quando o Sol começava a desaparecer, encaminhou-se para casa ao som de You´re the Best, de Joe Esposito, outra das suas músicas de eleição para correr. “History repeats itself. Try and you’ll succeed. Never doubt that you’re the one. And you can have your dreams You’re the best! Around! Nothing’s gonna ever keep you down. You’re the Best! Around”, era o que ouvia. Curiosamente, também aquela letra nunca lhe tinha feito tanto sentido.

Como tinha tempo aproveitou para fazer algo que não fazia há muito. João encheu a banheira de água quente e por lá ficou até que a mesma começasse a arrefecer. Seguiu-se um duche e estava na hora de ir ter com Jorge ao restaurante onde tinham hábito de jantar pelo menos uma vez por semana há alguns anos. Jeans, a primeira t-shirt que apanhou, Stan Smith e um casaco. Pegou na carteira, nas chaves de casa, do carro e nos óculos escuros. Quando chegou ao carro soltou uma gargalhada por ter os óculos escuros na mão. Já não precisava deles porque a noite já tinha caído mas tinha o hábito de pegar sempre nos seus Komono pretos.

Quando chegou ao restaurante recordou os antigos e regulares jantares com o seu melhor amigo, numa altura em que ambos eram solteiros. Agora, Jorge estava numa relação longa e até já tinha uma filha. Lamentava a ausência daqueles jantares mas nunca se tinha sentido triste com o final dos mesmos pois entendia que faziam parte de um determinado momento da vida de ambos e era normal que não fossem eternos. Mas estar ali fez com que recordasse memórias que lhe eram especiais. “Boa noite! É uma mesa para dois se faz favor”, disse ao mesmo empregado de antigamente que, tal como no passado, o recebeu com um sorriso. “Esqueça. Está ali o meu amigo. Vou sentar-me com ele”, explicou.

Depois de um apertado abraço a Jorge, sentou-se. Instantes depois aproximou-se o empregado da mesa. “Pode trazer dois crepes e  uma garrafa de Grandjó enquanto escolhemos a comida. E coloque outra no congelador que esta não deve ser a única se faz favor”, disse João. “Então? Que se passa contigo? Estás bem?”, perguntou Jorge ao estranhar o comportamento do amigo. “Está tudo bem. Tinha saudades de jantar contigo nestes moldes”, respondeu João. “Vai-te lixar! Conheço-te melhor do que isso. O que se passa?”, insistiu Jorge. “Está tudo ok. Despedi-me”, disse João com a maior naturalidade do mundo.

“Des quê?”, reagiu Jorge com espanto. “Estás a brincar comigo não estás?”, perguntou. “Há muito que te digo que estava farto das merdas do meu chefe. Hoje mandei-o à merda, virei-lhe costas e saí”, explicou João esperando ouvir uma repreensão do amigo. Algo que não aconteceu. “Se achas que foi a melhor decisão, apoio-te ao máximo. E estou aqui para o que precisares”, disse. “Obrigado. Era mesmo só isso que precisava de ouvir”, agradeceu João. “Conheço-te ao ponto de saber que não tomavas essa decisão sem ter algo em mente. O que vais fazer?”, inquiriu. “Por acaso tomei esta decisão a quente mas estou a precisar de umas férias. E este é o momento ideal para as gozar”, explicou.

“Férias?!? Tu?!? Nunca queres ir para lado nenhum”, soltou Jorge. “Mas agora quero”, afirmou João com um sorriso nos lábios. “Uiiiii. Palpita-me que este é o momento em que aquela rapariga que conheceste no outro dia vai fazer parte da conversa. Como é que ela se chama? Carla?”, perguntou Jorge. “Sophia. O nome dela é Sophia e pode ser que venha a fazer parte destas férias. Vou até à Irlanda à procura dela”, explicou João. “Tenho algumas poupanças e vou juntar as férias à tentativa estúpida, e assumo isso, de encontrar a mulher que mexeu comigo como há muito ninguém mexia”, contou. “Esta é aquela parte em que deveria revelar a minha surpresa mas conhecendo-te como conheço, não fico surpreendido e sei que nada nem ninguém te irá convencer do contrário. E tinhas razão”, referiu Jorge. “Como assim? Tinha razão no quê?”, perguntou João. “Uma garrafa de Grandjó não vai chegar”, referiu Jorge.

agora escrevo eu #32

Depois de alguns meses de ausência, volto a dar vida a este espaço onde publico os textos que me enviam. Para já tenho de pedir desculpa a quem me enviou textos que ainda não publiquei. Peço desculpa pelo meu desleixo mas todos os textos vão ter o seu espaço aqui. Recordo também que quem quiser participar – pois esta rubrica não tem data de validade – só tem de enviar um email para homemsemblogue@gmail.com com o seu texto e com “agora escrevo eu” no assunto do mesmo. Identificar o autor do mesmo é algo que deixo ao critério de quem envia o texto.

Para recuperar este espaço publico um texto de Ana Tavares, autora do blogue A mamã é só Minha, e que tem como tema a polémica em torno dos sacos de plástico que passam a ser vendidos a dez cêntimos. Será que pagar por um saco faz de nós amigos do ambiente? Será que é assim que se resolvem os problemas? Ou será que nos querem enganar fazendo de nós amigos do ambiente a troco de dez cêntimos o saco? No seu texto, que começou por ser um desabafo na sua página pessoal de facebook, Ana defende o seu ponto de vista, recorrendo também a duas imagens para passar a sua mensagem.

“0,10€ por um saco de compras?

A sério? UAU! Parece que, finalmente descobriram a fórmula mágica para acabar, com essa praga de sacos inúteis. Vou começar a dar esse dinheiro todo por um saco, como penalização pelas poucas vezes que me esqueço de levar o meu saco amigo do ambiente às compras, e pelas vezes que preciso de sacos de plástico para colocar nos baldes de lixo e da reciclagem cá em casa. Senhores governantes, já pensaram que, se calhar, graças às vossas políticas de austeridade, há por aí muitos portugueses que nem dinheiro têm para comprar sacos reutilizáveis? Se calhar não! Pessoas, que “enchem o papo”, à custa do povo, dificilmente têm a capacidade de se colocar no lugar do outro.

É isso mesmo, levem tudo o que puderem, extorquem-nos até ao tutano! Alguém tem de pagar os vossos carros de alta cilindrada, não é? Já agora, até posso dar uma sugestão, e que tal começarem por dar o exemplo e trocarem os vossos luxuosos automóveis por carros eléctricos? Se calhar fazia alguma diferença no ambiente, não?

Esta medida não vai melhorar em nada o ambiente, apenas vai penalizar os portugueses. Porquê? Porque a culpa não é dos sacos. Se os sacos vão parar ao mar, conforme alegam, a questão é outra: falta de civismo.  Considero uma tremenda injustiça castigar uma nação inteira, porque há pessoas que não são responsáveis pelos sacos que usam. Provavelmente são as mesmas que atiram beatas para o chão, lenços de papel, e outro lixo…  E que tal apostarem mais na educação? Seria bem mais benéfico e traria resultados em mais áreas.

Não tenho formação na área do ambiente, mas tenho outra coisa, que vocês governantes, que apenas sabem subir e aplicar impostos, não têm! Tenho um enorme respeito pela Natureza. Reciclo tudo, mesmo tudo! Sou dos melhores exemplos que conheço a poupar água. Sempre que possível compro o que é nosso, para evitar que os produtos viagem kms. Olho para as embalagens e escolho com consciência.


E é aí que deviam intervir, só para começar. Que tal aplicar multas às empresas que enganam o consumidor com grandes embalagens mal cheias e que não respeitam o meio ambiente? Proibir a entrada de produtos em Portugal com embalagens mal cheias, e criar uma lei que obrigue as nossas empresas a ajustar as embalagens/invólucros à quantidade de produto. Pegávamos em menos peso a transportar as compras pelas escadas acima e poupávamos também dores de costas e idas ao centro de saúde, comprávamos menos medicamentos e fazíamos menos lixo… Com um simples gesto como este, ficávamos todos a ganhar, inclusive mais espaço na despensa e nos Eco Pontos.

Por outro lado, os transportes de mercadorias ganham mais espaço e podem transportar mais produtos por viagem, reduzindo dessa forma milhares de viagens e também emissões de gases poluentes emitidos pela queima dos combustíveis, que por sua vez, reduz também o aquecimento global.

O que é que vai acontecer agora? Os portugueses vão resistir durante alguns meses e não vão comprar os referidos sacos, optando pelos sacos ditos “amigos do ambiente” (alguém vai ganhar muito dinheiro com isto). Entretanto vão-se esquecendo e habituando-se ao novo preço dos sacos e voltam aos velhos hábitos (alguém vai ganhar muito dinheiro com isto).  Quanto ao ambiente esse vai continuar no esquecimento porque tudo isto não passa de uma manobra para encher os cofres de alguém. Se a preocupação com o ambiente fosse verdadeiramente genuína, havia tanto a fazer…”

Ana Tavares
Autora do blog “A mamã é só minha” 

22.1.15

(des)encontros (capítulo cinco)


Já sem whisky no copo, onde restavam apenas as duas pedras de gelo que não tinham tido tempo de derreter antes de acabar com a bebida, e depois de dois cafés, um hábito que tinha nas ocasiões em que bebia aquilo a que chamava de “sobremesa escocesa”, João preparava-se para ir para casa. “Vou embora puto que amanhã é dia de trabalho”, disse a Carlitos. “Quanto te devo?”, perguntou. “Esquece lá isso. Depois do que me contaste quase que sinto a obrigação de te oferecer aquilo que consumiste”, brincou Carlitos. “Obrigado”, disse acompanhado de um aperto de mão e abraço ao amigo.

A caminho de casa, os pensamentos dividiam-se entre o desejo de encontrar Sophia e as inesperadas palavras de Daniela. Era nisto que pensava, com maior incidência na vontade de voltar a estar perto da mulher com quem tinha estado apenas uma vez do que no desabafo de uma mulher que não era mais do que um episódio antigo e um capítulo encerrado da sua vida. “Como é que te encontro?”, perguntava a si mesmo a cada passo que dava. Até que começou a chover. A intensidade era fraca mas suficiente para João olhar para cima e desabafar. “O que mais falta acontecer?”, perguntou. Ainda as palavras não tinham acabado de sair da sua boca e a chuva aumentava de intensidade, passando de umas meras gotas que mal molham para uma quantidade de água suficiente para encharcar a roupa que trazia vestida.

Sem outra opção, e também porque a distância não era assim tão longa, João abriu o passo para chegar a casa. À medida que aumentava a intensidade da chuva, aumentava também a intensidade da sua passada que em pouco tempo deu lugar a corrida. E foi com a batida do coração acelerada que chegou ao prédio onde pode proteger-se da chuva que se fazia sentir aproveitando também para retomar a respiração normal. Foi então que levou a mão ao bolso direito das calças de ganga para retirar a chave de casa. Assim que colocou a mão direita no bolso sentiu a chave do carro que usava sem porta-chaves. “Nem me lembrava que tinha levado o carro para o café”, disse, começando imediatamente a sorrir. “Vou lá buscar o carro amanhã”, acrescentou já com as chave de casa na mão e enquanto limpava a água da roupa.

Já em casa, Bauer olhou para si com um olhar que desafiava um passeio nocturno. “Não olhes assim para mim. Está de chuva e vais sujar-te todo. Desculpa mas não te levo à rua”, explicou a Bauer que baixou a cabeça antes de se encaminhar para a sala, subindo para o sofá onde esperava a companhia do dono. Minutos depois João chegava ao sofá. “Vamos ver um filme?”, perguntou ao cão. “Que achas de Entre Inimigos?”, acrescentou como se estivesse a falar com alguém que iria escolher o filme a ver. Já o filme levava 23 minutos quando João voltou a dirigir-se a Bauer. “O DiCaprio já merecia um Oscar, não achas?”, disse com uma voz ensonada que não foi suficiente para acordar Bauer que já ressonava no sofá. Menos de dez minutos depois João também já estava num sono profundo.

Os ponteiros do relógio estavam a caminho das três da manhã quando João acordou atordoado sem perceber que dia era. Minutos depois percebia que a manhã de segunda-feira estava à porta e que era melhor ir para a cama. Com um olho fechado e outro aberto, percorreu a distância que separa o sofá da sua cama no triplo do tempo necessário, num percurso que foi acompanhado na sua totalidade por Bauer. Já na cama teve o discernimento de colocar o despertador para as sete da manhã. E o discernimento necessário para antecipar o acordar em meia hora a contar com o tempo necessário para ir buscar o carro que tinha ficado perto do café do amigo.

Quando o despertador tocou, João praguejou, como era hábito nas manhãs de segunda-feira. “Odeio este dia”, disse enquanto esfregava os olhos. Com receio de se atrasar, saltou de imediato da cama e despachou-se. Antes de ir buscar o carro teve ainda tempo para passar na papelaria habitual para comprar A Bola, jornal que gosta de ler ao pequeno-almoço. Já no café habitual, pediu uma torrada em pão alentejano com manteiga apenas de um dos lados do pão e uma meia de leite morna. Com que se deliciou enquanto devorava as páginas do desportivo ficando a par das últimas do mundo do desporto, nomeadamente do futebol, o desporto que mais acompanha.

Às 9h30 em ponto chegava ao trabalho. Pouco tempo depois estava na sua secretária. Apesar do seu departamento estar praticamente despido de gente, já tinha os headphones colocados, deliciando com as músicas de Wanted on Voyage, o álbum de estreia de George Ezra. A música era a fórmula encontrada para se afastar do ambiente do local de trabalho. Às 11h31 chegava o seu chefe. Que mal tinha entrado no escritório já estava a falar para si. “Vê lá se tiras essa porcaria dos ouvidos que estou a falar contigo”, disse-lhe. “Tenho isto nos ouvidos mas estou a ouvir-te. Não tenho o volume alto e não sabia que era proibido ouvir música durante o expediente”, referiu João.

“Não estou para te aturar. Vê lá é se me dás a merda do relatório que te pedi na sexta-feira à tarde e que nunca mais me envias. Deve ser a música que te atrapalha”, disse o chefe num misto de ironia e raiva. “Em primeiro lugar a música não me atrapalha. Existem vozes que me atrapalham mas essas não me fazem companhia na música. Depois, já viste o teu email? É que enviei-te a merda, como dizes, do relatório na sexta-feira”, argumentou João. “Ainda não vi o email. Não sabia disso”, referiu o chefe sem perder a postura de chefe que sabe tudo e tem sempre razão.

“Olha e sabes uma coisa. Quem não está para te aturar nem as tuas merdas sou eu. És um chefe intragável e estou farto de ti. Por isso, vai à merda e arranja outra pessoa para o meu lugar”, soltou João num tom de voz mais elevado enquanto arrumava as coisas para se ir embora. “João, não é preciso reagires assim. Tive um fim-de-semana complicado”, justificou o chefe. “Se não ouviste bem, volto a dizer, vai à merda”, reforçou voltando costas ao chefe e encaminhando-se para a saída do escritório perante o olhar de espanto dos colegas.

15.1.15

(des)encontros (capítulo quatro)


E ali estava João. Sozinho na mesa de café. “Puto, traz-me um whisky se não te importas. Um Grant´s com duas pedras de gelo, se faz favor”, pediu. Carlitos aproximou-se da mesa, puxou uma cadeira e sentou-se. “Conheço-te e costumas beber mas aqui no café nunca te vi beber mais do café e água com gás. Deixas o álcool para outras ocasiões. Por isso, mais do que a bebida, que não tenho problemas em servir-te e até te ofereço, enquanto teu amigo, acho que precisas de conversar”, disse. “Precisar até preciso mas nem sei o que dizer”, referiu João. “Mulheres”, suspirou.

“E que tal começares pelo principio. Por outras palavras, a tua companhia abandonou-te. Pelo menos é isso que parece. O que se passou?”, perguntou Carlitos. “Vou tentar resumir-te tudo da forma mais simples, tentando não usar muitas palavras mas, podes trazer o whisky à mesma que vai ser uma uma boa companhia. E não te esqueças das duas pedras de gelo”, disse. “Ok”, respondeu Carlitos, que se levantou para ir buscar a bebida para o amigo. Enquanto isso, João mantinha-se com o cotovelo apoiado na mesa e com a mão a percorrer o rosto ao mesmo tempo que repetia a palavra mulheres acompanhada de diversos suspiros.

Carlitos aproximou-se da mesa e bateu com o copo alto de whisky na mesa. “Aqui tens”, disse. “É agora que vais contar o que se passa contigo?”, acrescentou. “Sabes que prefiro em balão. Como é possível que me dês o whisky num copo alto?”, perguntou João. “Olha bem à tua volta. Pensas que estás onde?”, respondeu Carlitos. “Estou a brincar contigo. O que não significa que não prefira beber em balão. Não gosto de beber whisky em copo alto mas como estou na tua casa não faz mal”, disse. “Bem... queres saber o que se passa, não é? Sendo assim vou desabafar e também me liberto desta história que se não for presenciada, e tu acabaste de assistir a um episódio, ninguém acredita nela”, começou por dizer.

“Vou começar por te falar da Daniela que saiu daqui que nem um foguete”, referiu, sendo interrompido por Carlitos. “Porque saiu daqui assim?”, perguntou. “Calma. Já lá chegamos”, disse João. “Para já, posso dizer-te que sempre achei piada à Daniela. Mas também te posso dizer que sempre fui ignorado por ela. Até hoje nunca me ligou nenhuma. Como nunca deu sinal de reparar em mim, nunca liguei muito a isso. Até que me envia uma mensagem a dizer que gostava de estar comigo. Foi por isso que vim aqui ter com ela”, contou. “Até que, para minha surpresa, disse que gostava de mim”, prosseguiu. “Ui! Cena marada”, soltou Carlitos.

“Calma. Isto não é tudo”, disse João. “Na sexta-feira fui sair com o pessoal. E acabei a noite com uma rapariga estrangeira”, explicou. “Define acabei a noite”, pediu Carlitos. “Acabar a noite, neste caso, significa um beijo e muita conversa. Nada mais do que isso”, disse João. “Conheci a Sophia, assim é o nome dela, e fiquei apanhado pela rapariga. Ainda estou a bater mal por causa dela. A noite foi perfeita”, continua. “Até agora parece tudo bom”, diz Carlitos. “Tudo estava bem até ao momento em que me beijou e depois me disse que estava noiva”, disse João. “Ouch!”, gracejou Carlitos. “Não gozes já tudo que isto ainda melhora”, avisou João.

“Acabei a noite a bater mal e fui para casa. Tentei de tudo para me desligar da Sophia mas sem sucesso. Até que recebo uma mensagem da Daniela a dizer que queria beber café comigo. Vê lá o meu desespero que até vi isso como um sinal para esquecer a Sophia”, explicou, bebendo de seguida mais um pouco de whisky. “Pela saída dela daqui acredito que não resultou”, referiu Carlitos. “Até nem estava a correr mal. Tirando dois pequenos grandes pormenores”, acrescentou João. “Como assim?”, perguntou Carlitos.

“Primeiro ponto. A Daniela disse que gostava de mim. Pior, disse que o Timóteo sempre soube que gostava de mim e aquele cabrão não foi capaz de me contar isso. Conta-me tanta merda que não interessa a ninguém e isto escondeu porque ela não queria que me dissesse”, referiu. “E, como se isto não bastasse, ainda lhe chamei Sophia. Claro que ela ficou em brasa. Ainda tentei disfarçar e fingir que tinha dito Daniela mas ela não é parva e percebeu. Resumindo, não sei como encontrar uma. Outra, de quem gostei e que pensava que me ignorava, afinal gosta de mim e troquei-lhe o nome. E assim acabei aqui sozinho na mesa”, concluiu João.

“Mulheres”, soltou Carlitos. “Quem as vai compreender”, disse, ao mesmo tempo que enalteceu uma das suas características. “Parece que têm um sensor que adivinha tudo”, acrescentou. “Vês como me compreendes”, referiu João, acabando com o whisky que ainda tinha no copo. Depois, passou as costas da mão na boca antes de pedir um reforço. "Assim vai a minha vida", soltou em tom de desabafo.

13.11.14

(des)encontros (capítulo três)


O tempo passava e João continuava a pensar em Sophia e nas poucas horas que tinham passado juntos. Há muito que não se sentia assim e não era algo do seu agrado. Não aquilo que sentia mas a forma descontrolada como estava a ser consumido pelo desejo de voltar a ver a mulher com quem se tinha cruzado por mero acaso e que tinha beijado uma única vez. Era final de tarde de Sábado e os amigos tinham planos para outra saída mas João preferiu ir para casa. E durante o tempo em que esteve perto dos amigos não fez nada mais do que vasculhar as redes sociais na esperança de encontrar uma fotografia que o ajudasse a chegar até Sophia.

Já em casa e refastelado no sofá, mantinha-se agarrado ao telemóvel. Via no iPhone uma espécie de objecto mágico que o iria levar ao encontro de Sophia. “O destino não se deu ao trabalho de nos juntar apenas por umas horas”, era aquilo em que pensava. Bauer estava perto de si, com uma galinha de borracha na boca, que era o seu brinquedo preferido, como que a desafiar o dono para brincar. Mas desta vez João não lhe ligava. Nem sequer parecia ouvir o característico barulho do brinquedo quando mordido pelo cão. Tal como não sentia os toques de Bauer no seu corpo. Em vez disso, repetia vezes sem conta os mesmos passos no telemóvel. Sempre em vão pois continuava a não encontrar a mais pequena pista que o levasse até Sophia. O desespero aumentava pois João sabia que era uma missão com tempo contado. Mais precisamente até à hora em que Sophia ia regressar ao seu país.

Aparentemente vencido pelo cansaço atirou o iPhone para cima do sofá, acabando por reparar em Bauer com quem esteve na brincadeira durante alguns minutos. “Achas que vou encontra-la?”, perguntou ao buldogue francês, em mais um dos muitos diálogos que mantinha com o seu animal de estimação. Para evitar a tentação de se agarrar ao telemóvel, ligou a PlayStation para jogar Grand Theft Auto V online. Ainda fez um jogo de mata-mata, o seu preferido, mas rapidamente se fartou. Do jogo passou para mais um episódio de Dexter, já com Bauer aninhado ao seu lado no sofá. O tempo ia passando e João tentava tudo o que estivesse ao seu alcance para ignorar o desejo de se agarrar ao telemóvel.

O episódio ainda não levava vinte minutos quando as suas defesas foram vencidas pelo desejo. Desligou a PlayStation e optou por ouvir música na televisão. Sintonizou a televisão no canal 155 e deixou-se levar pelos vídeos do VH1 Classic enquanto saltitava entre o facebook e o instagram nas esperança de que todas as hashtags de que se recordava o levassem até Sophia. Mais uma vez, sem sucesso. Insucesso esse que não o demovia do seu desejo. Até que no ecrã apareceu uma mensagem. Que João abriu. “Queres ir beber café?”, era o que estava escrito. A mensagem era de Daniela, uma amiga a quem achava piada mas que sempre pensou que nunca lhe ligasse nenhuma. “Só podes estar a gozar comigo? Só pode! Nunca me ligaste nenhuma e agora é que te lembras disto? Parece que as mulheres têm um sensor que detecta tudo”, disse, em voz alta. 

“Obrigado pelo convite mas não vai dar”, foi o que escreveu na resposta. Quando estava prestes a carregar em enviar arrependeu-se, numa altura em que tocava If You´re Gone, dos Matchbox Twenty. “E se isto é um sinal para a esquecer. Será aquilo que preciso para me distrair? Sempre saio de casa e esta mensagem não significa que ela queria algo comigo”, pensou. “Vamos a isso. A que horas e onde?”, respondeu. “Pode ser às 21h27 no café do Carlitos. Até já. Beijos”, foi a mensagem que recebeu menos de um minuto depois e que o fez rir. “Ainda não perdeu a mania dos números esquisitos”, disse. O tempo foi passando e o convite de Daniela acabou por distrair João.

Chegou a hora marcada e às 21h27 João entrava no café. Daniela já estava sentada numa mesa. “Oi puto, ´tás bem?”, disse a Carlitos. “Levas-me um café à mesa se faz favor”, acrescentou. Depois de cumprimentar Daniela sentou-se e antes de chegar o café já a questionava. “Estranhei a tua mensagem. Porquê o convite? Nunca me ligaste nenhuma”, disse, sem rodeios. “Entrada a pés juntos”, gracejou Daniela. “Podia dizer-te quatro ou cinco frases de circunstância antes de fazer a pergunta que acabaria sempre por fazer. Mas já não tenho paciência para isso. Dispenso atalhos”, disse. “Ouvi dizer que tiveram uma grande saída na sexta-feira e queria falar contigo por causa disso”, referiu com um ar meio tímido. “Só podem ter um sensor. Nunca me ligou nenhuma. Sabe da noite e convida-me para um café”, pensou. “Foi uma saída normal. Quem te contou?”, perguntou. “Foi o Timóteo”, respondeu. “Essa boca de trapos nunca consegue ficar calado. E o que te disse?”, inquiriu João. “Nada de especial. Que foram sair e que acabaste a noite com uma miúda qualquer”, respondeu Daniela.

“Isso é uma forma bastante simples de resumir a noite. O resumo podia ter mais algumas frases e outros protagonistas mas foi isso que aconteceu. Se bem que não sei o que pensas que aconteceu entre nós mas posso dizer-te que foi apenas um beijo”, explicou João. “E não me leves a mal mas nunca tivemos nenhuma conversa deste género e estou a estranhar essa curiosidade que me parece ser movida por um ciúme que desconhecia. Posso perguntar o motivo dessa curiosidade?”, disse João.

“Tens razão. Mas fiquei possuída quando o Timóteo me contou isto. Ele sabe que gosto de ti e foi por isso que me contou. E foi por isso que quis falar contigo. Para te dizer que gosto de ti”, referiu Daniela. “Como? Mas Sophia, nunca me tinhas dito que gostavas de mim”, disse João. “O que me chamaste?”, perguntou Daniela. “Já fiz merda”, pensou João. “Chamei-te Daniela. O que te ia chamar”, justificou João, consciente do que tinha dito e na esperança de que a dúvida ficasse no ar. “Não! Chamaste-me Sofia ou Sophia”, disse Daniela, levantando-se e abandonando o café. João ficou sozinho na mesa. “Tens aqui o café. Desculpa o atraso mas não quis interromper”, justificou Carlitos. “Fizeste bem”, respondeu João. 

23.10.14

(des)encontros (capítulo dois)


Já passava das nove da manhã quando João chegou a casa. Sozinho, ainda foi à pastelaria perto de sua casa. Hesitou entre tentar pedir um gin, porque lhe apetecia e sentia que ainda estava na noite anterior. Mas, vendo que todos os clientes estavam entregues a cafés, torradas, meias de leite e bolos, acabou por perceber que o melhor era não destoar. Já sentado, com uma bola de berlim e uma Coca-Cola à sua frente, não parava de pensar em Sophia. Porém, sentia que todos olhavam para si, o que o deixava com várias dúvidas. Estaria com um aspecto tão desleixado, que facilmente se percebia que não tinha ido à cama? Ou seria o bolo e a Coca-Cola, o pequeno almoço típico de quem está de ressaca, que o denunciavam? O que é certo é que pouco se importava pois só conseguia pensar em Sophia e no beijo que tinham trocado.  “Como é que a volto a ver?”, era a pergunta a que tentava dar resposta. Sem sucesso.

Em pouco tempo já sacudia o açúcar da boca. E abanava a lata de Coca-Cola na esperança de que caíssem mais umas quantas gotas no seu copo. Perante a quantidade de álcool que tinha bebido, nada lhe sabia melhor do que aquelas duas coisas combinadas. Minutos mais tarde entrava em casa, sendo recebido por Bauer que ansiava por um passeio matinal. “Estou de rastos”, disse ao cão que olhava para ele com um aparente ar de reprovação por lhe ter dito que ia demorar poucas horas. Mesmo estafado, ainda decidiu passear Bauer. “Vamos à rua?”, disse-lhe, provocando uma onda de euforia no buldogue francês. Enquanto estava na rua continuava a tentar responder à pergunta que o inquietava. Sempre sem sucesso. Até que percebeu que o seu estado não lhe permitia ter o discernimento necessário para pensar no que quer que fosse. Aliás, passear Bauer já era uma feito digno de registo.

Mesmo assim, ainda teve a frescura necessária para levar consigo um saco de plástico com que apanhou as fezes de Bauer. Sendo um acérrimo defensor das ruas limpas, não havia bebedeira que o fizesse esquecer as coisas que mais defendia. Voltaram a casa. E, até chegar à cama foi deixando um rasto de roupa. Perto da porta, a camisa. Depois, peça a peça até à cama, onde se deitou apenas com as meias calçadas. Já passavam das cinco da tarde quando acordou. A bola de berlim e a Coca-Cola impediram que a ressaca fosse maior. Mesmo assim, e quando percebeu que estava apenas de meias e que tinha um rasto de roupa à porta do quarto não evitou esboçar um sorriso enquanto esfregava a cara, dizendo em voz alta “estavas bonito ontem”. Seguiu-se um duche e uma mensagem para os restantes guerreiros – era assim que se chamavam quando aguentavam uma noite de copos – da noite anterior a marcar uma hora para estar no café.

Depois do banho, e já vestido, foi à cozinha e abriu o frigorífico onde nada tinha para comer. Andava para fazer compras há dias mas ia sempre adiando. Foi à dispensa onde tinha um frasco de Nutella e duas tabletes de chocolate. “Escolha difícil”, disse, olhando para as possibilidades. Optou pelo frasco de Nutella, que abriu e onde colocou o dedo, que levou à boca cheio de chocolate. Voltou a repetir o gesto mais duas vezes antes de ser consumido pelo peso na consciência. Depois, levou as mãos aos bolsos das calças acabando por encontrar uma nota de dez euros num dos bolsos. O dinheiro foi o mote para seguir para o café, onde comeu uma tosta mista com manteiga, que dispensa quando não está de ressaca, e um sumo natural duplo de laranja, aquilo que considera o segundo take de uma alimentação típica de quem está de ressaca, por mais fraca que seja. Voltou a casa. Ainda se deixou dormir no sofá antes de ir para o café onde se ia encontrar com os amigos.

Ainda ia a andar para a mesa quando ouviu os primeiros comentários. “Bela noite ontem. Desapareceste com a miúda”, disse Revez. “Chama-se Sophia e só estivemos à conversa”, respondeu. “Olha o menino. Já a defende e trata pelo nome. Isto é sério. É amor”, acrescentou Duque, provocando uma gargalhada geral. Até João não evitou sorrir. “Lembro-me de poucas coisas. Sei que ela me beijou mas depois arrependeu-se”, confessou João. “E pouco mais me lembro. Sei que houve uma altura em que lhe perguntei o apelido pois sabia que assim era mais fácil encontra-la mas estava tão mal que nem me lembro do que ela disse. Aliás, ela estava como eu e também não se percebia bem o que dizia”, gracejou. “Agora é aquele momento tipo Ressaca em que vamos aos bolsos à procura de coisas que nos relembrem da noite anterior”, disse João. “Mas eu nem tenho a roupa de ontem e não me recordo de ter colocado o que quer que seja no bolso”, referiu Timóteo. “Puto, estava a brincar. Era para ver se alguém se lembra de algo que me possa ajudar pois gostava de rever a Sophia e lembro-me de que me disse que ia estar mais uns dias em Portugal”, explicou João. “Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Mas não me lembro de nada”, disse Timóteo. “Sei que uma delas me disse o nome do hotel onde estavam mas não me recordo”, revelou Duque. “Não me recordo de nada. Acho que era o pior de nós. Deixei-me dormir em casa a comer um ovo Kinder. Sou um desgraçado”, revelou Revez.

“O nome do Hotel já não era mau de todo”, suspirou João. “Já sei, vou procurar no facebook e no instagram”, disse João. “Vais procurar como?”, perguntou Timóteo. “Pelas hashtags do bar e da nossa zona pois elas fartaram-se de tirar fotografias”, explicou João, agarrando no telemóvel de pronto. A conversa prosseguiu durante vários minutos com João sempre atento ao telemóvel. “Bela merda! Nenhuma delas partilhou uma foto nas redes sociais. Pelo menos com uma hashtag que me permita chegar a elas”, desabafou com tristeza. “Como é que a vou encontrar? Sei apenas que se chama Sophia e que vieram de Dublin”, suspirou.

14.10.14

(des)encontros (capítulo um)

Era uma noite de sexta-feira igual a tantas outras. O relógio marcava 23h23 e João estava , de boxers e t-shirt, deitado no sofá. Aninhado ao seu lado estava Bauer, o seu buldogue francês. E ambos estavam prestes a ver um episódio de Dexter, depois de já terem assistido a um filme. Até que o telemóvel tocou. “Daqui a vinte minutos apanho-te em casa. Vamos beber umas cervejas”, era o que se podia ler na mensagem de Ricardo, um dos seus amigos. “Não sei se me apetece ir”, foi o que disse a Bauer. E o telemóvel voltou a tocar. “E nem penses em dizer que não vais que não saio daí sem te levar”, era o que estava escrito em mais uma mensagem de Ricardo.

“Parece que vais ter de ver o Dexter sozinho. Mas vou só beber uma cerveja e nem duas horas devo demorar”, disse João a Bauer, que olhou para ele como quem compreendia as palavras, dando-lhe depois uma lambidela na mão. Vestiu os jeans azuis escuros com que tinha andado durante o dia, calçou os Stan Smith brancos e vermelhos e pegou na t-shirt vermelha com “awesome” escrito a preto, com que também tinha andado durante o dia. Encostou-a ao nariz e percebeu que não cheirava a suor. Antes de a vestir, borrifou-se uma vez com Hugo Red, da Hugo Boss. “Desce”, era o que dizia a mais recente mensagem de Ricardo.

Quando chegou ao carro percebeu que além de Ricardo, também Duque, Revez e Timóteo estavam no carro. “Como é puto, vamos curtir?”, disseram em coro com o entusiasmo de quem procura uma noite longa de diversão. “Conheço essas caras. Não me digam que querem ir a uma casa de strip que volto já para cima”, respondeu. “Pussy. Até parece que não gostas”, gracejou Revez. “Gosto mas não estou para aí virado hoje”, disse. “Esquece isso Zé Manel. Vamos ao Kopophonia que hoje é dia de música ao vivo”, acrescentou Ricardo. “Se for a banda do costume é muito manhosa. Começo a ficar com vontade de um strip”, brincou João, já dentro do carro.

Em poucos minutos estavam no bar, onde já são conhecidos. “Fixe. Isto está às moscas”, disse João assim que entrou. “Vê lá se te animas”, referiu Timóteo antes de lhe dar uma palmada nas costa. “Já trato disso”, acrescentou Revez, dirigindo-se ao bar. Em poucos segundos estavam cinco Jägerbombs no balcão do bar. “Estes pago eu. E as cinco cervejas que aí vêm também”, explicou Revez. Brinde feito. Shot bebido. Cerveja na mão. E a noite animava-se um pouco mais para João. Os minutos iam passando. O bar ia ficando com mais pessoas. E a banda já tocava umas versões manhosas de clássicos do rock. 

As jägerbombs e os shots de Sambuca misturavam-se com as cervejas e estas bebidas multiplicavam-se com o avançar da noite. O que fazia com que a qualidade da música ficasse ligeiramente melhor e os desfiles de moda, que estavam a dar numa das televisões, e um torneio de curling, que dava na outra, parecessem deveras interessante. Pelo menos para João, o único atento às televisões enquanto os amigos já estavam a conviver com um grupo de raparigas que costumava frequentar o bar. Até que, enquanto derramava mais um shot de Sambuca, a banda tocou uma versão de I Want You to Want Me, um original dos Cheap Trick, que adora. Aquele momento mudou a sua noite. A animação apareceu. João dirigiu-se ao bar, pediu dez shots, cinco de Sambuca e cinco jägerbombs e mais cinco cervejas. “Acordaste agora?”, brincou Timóteo. “Cala-te e mama isso tudo”, respondeu João.

Depois do característico bater com o copo de shot no balcão, João pegou na cerveja e voltou-se. Foi aí que reparou num grupo de sete raparigas que estavam a entrar no bar. Sobretudo numa. Notava-se nitidamente que não eram portuguesas. E pelos acessórios que traziam, só podiam estar numa despedida de solteira ou, eventualmente, numa animada festa de aniversário. Apesar do entusiasmo, João voltou para o seu lugar e voltou a centrar o olhar no torneio de curling e no desfile de moda, enquanto bebia a cerveja. Pouco tempo depois, aquele grupo de amigas estava ao seu lado e com um ritual semelhante ao do seu grupo de amigos, com cada uma delas a pagar shots às amigas.

“Puto, já viste esse grupinho?”, disse Timóteo na esperança de espicaçar o amigo. “Deve ser uma despedida de solteira. Parecem espanholas”, respondeu enquanto bebia mais um trago de cerveja. Pouco tempo depois, as amigas que estavam com os seus amigos abandonaram o bar. Timóteo, Ricardo, Duque e Revez juntaram-se a João. Sempre com novas rodadas de shots e de cervejas. Entretanto, João já tinha percebido que o grupo de raparigas falava em inglês. E, reparou que uma delas tinha uma pequena etiqueta, com o preço de dez euros, colada ao chapéu. Quando essa rapariga se aproximou dele, meteu conversa com ela. “Vira-te de costas”, disse-lhe em inglês, para espanto da rapariga. “Confia em mim. Vira-te de costas que não te vou fazer nada”, insistiu, convencendo a rapariga a voltar-se de costas para si, perante o olhar das amigas.

Depois, arrancou-lhe a etiqueta do chapéu. “Tinhas o preço colado ao chapeú”, disse-lhe, entregando-lhe o pequeno autocolante, que motivou um sorriso na jovem. “Disse que não te fazia nada de mal”, referiu, voltando à cerveja e ao torneio de curling, que estava cada vez mais interessante. Por sua vez, aquele pequeno gesto fez com que todas inspecionassem os seus chapéus e restantes acessórios em busca de autocolantes com preços. E ainda eram uns quantos. Minutos depois, uma das mulheres do grupo aproximou-se de João. “Gostas muito de curling ou dispensas a companhia dos teus amigos?”, perguntou-lhe. “Isso é uma história longa. Posso dizer-te que a cerveja não é das piores e que este desporto tem muito que se lhe diga”, disse com uma expressão onde o riso se misturava com a seriedade das suas palavras.

“E vocês? Que fazem por aqui?”, perguntou. “É a minha despedida de solteira. E juntei as minhas melhores amigas. Paguei-lhes a viagem até Portugal e aqui estamos”, disse. Os minutos foram passando. E ambos foram conversando. Em pouco tempo, os dois grupos estavam misturados. João ficou a saber que estava a falar com uma médica e explicou-lhe que era jornalista, algo que a fascinou por ser uma carreira que tinha pensado seguir. Quando João olhou para o relógio já passava das três da manhã e o bar estava prestes a fechar. Apesar do convívio entre todos, existia uma rapariga que se mantinha mais distante. Curiosamente, aquela que tinha chamado a atenção de João.

Quando estavam preparados para se despedir, a noiva perguntou onde é que a festa podia continuar. “A esta hora só podemos ir ao Jo, é o único bar que está aberto. Elas aceitaram. Quando estavam a sair do Kopophonia, a rapariga que era linda aos olhos de João, meteu conversa com ele. “Tens lume?”, perguntou. “Não. Não fumo mas peço a um dos meus amigos”, referiu. Já com o isqueiro e enquanto lhe acendia o cigarro, perguntou se não gostava deles, da música, do bar ou de tudo junto pois tinha notado que estava mais distante do que as amigas. “É a minha maneira de ser”, limitou-se a dizer. “Já agora sou o João”, disse. “O meu nome é Sophia”, mencionou, sem trocar dois beijos com João.

Ja no outro bar, nada mudou. Multiplicavam-se as bebidas. Animavam-se as conversas. Sophia continuava distante. E João continuava a responder às perguntas da médica, cujo nome nem se conseguia lembrar, uma curiosa de tudo o que diz respeito à vida de um jornalista. Ligeiramente alcoolizada, a médica arrastava a voz e repetia as perguntas. João respondia a tudo como se fosse a primeira vez que lhe colocava a pergunta. Até que chegou a hora do bar fechar, já perto das cinco da manhã. “E agora? Vamos para onde?”, perguntou a noiva. “Daqui só para uma discoteca. Há aqui uma perto e até dá para ir a pé”, respondeu Duque. “Vamos a isso!”, disse a noiva.

Já na discoteca, João fartou-se da cerveja e pediu um gin. Quando estava prestes a beber, Sophia apareceu no bar. “Que estás a beber?”, perguntou. “É gin. Prova”, disse. “É muito bom”, referiu. João pediu mais um e ofereceu-lhe. “Isso deve ser caríssimo”, disse Sophia. “Não te preocupes com isso”, referiu. “Vou à zona dos fumadores. Já que me pagaste a bebida, podes fazer-me companhia”, disse. “Claro que sim. Tenho todo o gosto”. Já na zona de fumadores, João aproveitou estar sozinho com Sophia para fazer algumas perguntas. “Estiveste distante a noite toda mas pareces uma miúda simpática. O que se passou”, perguntou. “Queria que metesses conversa comigo mas estiveste a noite toda à conversa com a minha amiga”, respondeu Sophia. João soltou uma gargalhada. “Reparei em ti assim que entraste no bar. Depois os grupos acabaram por se juntar mas pareceste sempre tão distante. Por mais que quisesse, acabei por achar melhor não meter conversa”, explicou. “E assim perdemos largas horas de conversa”, acrescentou, olhando para o relógio e vendo que já eram quase seis da manhã.

“Tens namorada?”, perguntou Sophia. “Isso é uma história longa”, começou por dizer João. “Sou daqueles para quem o amor não é mais do que um sentimento esquisito e frio que parece animar e dar sentido à vida de outras pessoas”, prosseguiu. “Magoaram-te?”, foi a pergunta de Sophia. “Depende da perspectiva. Tenho 33 anos e não tenho uma relação desde os 30. Antes, tinha namorado 12 anos com uma mulher que pensava ser a da minha vida. Que me traiu com o meu melhor amigo. Sim, acho que fui magoado”, disse. “Fuck”, soltou Sophia. “Mas isto fica melhor. Nos últimos dois anos ela namorou comigo e com ele em simultâneo. Enquanto eu e ele fazíamos aqueles programas normais dos melhores amigos”, explicou. “Fuck! Fuck! Fuck!”, insistiu Sophia. “Se conseguires bater a minha história, pago-te mais um gin”, gracejou.

“Tal como tu, tive um longo namoro. Foram mais de quinze anos. E, já agora, tenho 38 anos”, começou por dizer. “Não te dava mais de 25 e não estou a ser simpático nem é o álcool a falar. És bonita, sensual e não pareces ter essa idade. Mas desculpa ter-te interrompido. Prossegue”, disse. “Amava-o muito. Infelizmente morreu de cancro e isso deu cabo de mim. Mudei a minha vida, fechei-me muito e acabei por me dedicar a esse mundo. Hoje trabalho com doentes oncológicos”, explicou. “Foda-se! Puta da vida”, foi aquilo que João conseguiu dizer. “Só agora é que voltei a namorar. E estou noiva. Sou a próxima do grupo a casar”, disse. “Não me leves a mal mas não pareces muito entusiasmada com o que acabaste de dizer”, referiu João.

“Acho que me antecipei. Sofri muito com a minha relação longa. E agora acho que as coisas estão a acontecer muito depressa. E o meu noivo é complicado. Já me ligou cinco vezes durante esta noite. Enviou-me dez mensagens. E, a roupa com que me vês – uns calções curtos mas não demasiadamente curtos, uma camisola e uns sapatos de salto alto – raramente a uso”, explicou Sophia. “Não tenho nada a ver com isso mas uma mulher como tu desperdiçar a oportunidade de ser sensual não parecendo fácil é um crime. Ele não sabe a sorte que tem”, disse, motivando um sorriso em Sophia. As conversas multiplicaram-se. E a proximidade era cada vez maior.

Até que, do nada, Sophia beija João. Um simples beijo na boca, sem língua. Um selinho, como lhe chamam os brasileiros. João quis devolver o gesto mas Sophia revelou arrependimento com a sua atitude. “Desculpa mas não posso. Vou casar-me”, disse. “Desculpa ter tentado beijar-te”, referiu João. “Não tens de pedir desculpa porque fui eu que te beijei. A culpa é apenas minha”, referiu. “Transforma essa culpa num segredo nosso que seja igualmente uma boa memória”, pediu João. “Não me leves a mal mas gostava de manter o contacto contigo”, disse João. “Não é boa ideia. Não quero falar com uma pessoa que desejo e que não posso ter. Isso será ainda pior”, explicou Sophia. “E posso ver-te antes de ires embora pois a tua amiga disse que ficam mais uns dias em Portugal antes de regressarem a Londres”, insistiu João.

“Se ela te disse isso também te devia ter dito que os nossos namorados também estão cá. Enquanto estamos aqui, eles estão na despedida de solteira do noivo”, disse, levando a que João não insistisse mais, dizendo apenas que esperava que aquela noite fosse uma recordação eterna para Sophia. “Gostava de te ter conhecido mais cedo. Antes deste namoro e do meu noivado”, desabafou Sophia. “Nunca é tarde para se conhecer quem quer que seja”, defendeu João. As horas foram passando. Agora era a discoteca que ia fechar. Na rua, já com o Sol a brilhar, despediram-se uns dos outros. “Nunca te vou esquecer”, sussurrou Sophia no ouvido de João, que sorriu e se afastou. “Então Zé Manel? Desapareceste com a miúda”, brincou Revez. “Estivemos à conversa. Depois beijou-me e arrependeu-se. Aquela miúda mexeu comigo”, suspirou.