21.3.17

os homens são uns ignorantes (e o tema é sério)

Existem experiências pelas quais ninguém quer passar. No imediato recordo-me de nenhum pai querer enterrar um filho. Ou de nenhum irmão querer enterrar outro, tal como nenhuma mulher quer enterrar um marido, ou vice-versa. Ainda mais quando as pessoas são bastante novas. E se ninguém quer passar por isto, poucas pessoas sabem reagir a isto. Tal como será bastante reduzido o número de pessoas que sabe o que dizer a quem passou por algo assim.

Rio Ferdinand é uma destas pessoas. O ex-jogador inglês, que foi colega de Cristiano Ronaldo no Manchester United, viu a mulher morrer, vítima de cancro, quando tinha apenas 34 anos e apenas dez semanas depois de lhe ter sido diagnosticada a doença. Para “trás” ficou o marido e três filhos. Agora o ex-jogador decidiu relatar a sua experiência num documentário. E aquilo que conta é bastante duro.

Rio Ferdinand assume que passou a ter ataques de pânico e que se refugiou no álcool. “Antes de morrer, ela disse-me que seria um pai e mãe magnífico. Rebecca partiu 10 semanas depois de lhe terem diagnosticado o cancro. Ao princípio bebia muito depois de deitar os miúdos, até que um dia ao acordar vi que não os conseguia levar ao colégio. Até tive um acidente. Percebi que não podia continuar assim”, revela, assumindo que aí percebeu que necessitava de ajuda.

“Como é que marco consulta no médico? Sempre fui ao médico do clube. Não fazia ideia”, prossegue. “Quando os meus filhos me diziam que não era assim que a mãe fazia a cama, pensava: 'o que quer que eu faça nunca bastará'", diz. “Nós, homens, somos uns ignorantes. As mulheres cuidam da família e da casa e julgamos que isso não é um trabalho. É um trabalho muito duro e importante”, defende.

Um dos momentos mais marcantes do documentário diz respeito aos filhos. Especialmente quando um deles quis saber o significado dos cartões afixados numa das paredes do hospital. Ao que o pai respondeu que eram um agradecimento aos que cuidavam da mãe e de outras pessoas com o mesmo problema. “Mas não ajudaram a minha mãe”, respondeu o menino, deixando o pai sem resposta.

Este é apenas um excerto do muito que pode ser visto no documentário. E estes pequenos exemplos dão muito que pensar. Desde o refúgio na bebida porque parece ser a única solução quando o mundo se vai deitar. Aos comentários dos filhos que recordam o que a mãe faz, e que estão habituados a que seja feito pela mãe, e que deixam a pensar que o pai nunca será suficiente. Até à forma como uma pequena criança lida com a morte e com uma aparente dor relacionada com aqueles para quem olha como salvadores e que não ajudaram a mãe.

Este é um tema que me arrepia. A impotência que tudo isto deve causar. A dor sem fim. A ferida que se abre e nunca fecha. Este relato é impressionante. E provavelmente será bastante útil para quem passa pelo mesmo. Pessoas que cometem os mesmos erros de Rio Ferdinand e que não sabem a quem pedir ajuda. Pessoas que ouvem frases cliché dos amigos porque estes também não sabem o que dizer além dessas frases.

8 comentários:

  1. Arrepia qualquer um amigo. Ainda assim há gente que reage melhor que outros.
    Abraço

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  2. Caramba... que murro no estômago :( também me arrepia. Acho que é mesmo aquilo que mais me assusta, perder alguém que amo. E quando mete crianças... como lidar com isso??

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    1. As palavras dele revelam uma impotência assustadora.

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  3. Delicada sua postagem!...
    Realmente, muitas vezes não sabemos o que dizer... De repente estender as mãos seja mais significativo quando não passamos por isso!...

    Beijos =)

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    1. As pessoas não sabem o que dizer nem o que fazer...

      Beijos

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  4. É muito complicado perder um filho,um ormão.... perdi um irmão e os meus pais um filho( de 40 anos). Demasiado novo, e em apenas uma semana adoeçeu e faleceu.
    Os meus pais nunca mais foram os mesmos,obvismente.Ainda hoje,passados 8 anos, ocerebro prega partidas e penso: vou ligar ao mano para contar isto.
    Mas já não há mano....
    A vida é muita curta,mesmo para quem morre aos 90 : )
    Por isso...sejam felizes e vivam um dia de cada vez,sem grandes stress ☺ acreditem...nao vsle a pena.

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    1. Obrigado pela tua partilha. E não vale mesmo a pena ;)

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