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9.2.17

jornalismo? as pessoas querem é publicidade

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Esta frase, da autoria de George Orwell, irá definir sempre o jornalismo. Porque o jornalismo é mesmo isto. E o que vai além disto é publicidade. O que não implica que não seja notícia. Muitas pessoas ficam indignadas quando um jornalista está associado aquilo que consideram publicidade mas ela está presente em tudo no jornalismo.

Se entrevisto um actor com base num projecto novo, estou a publicitar esse projecto. Se entrevisto um escritor com base no seu novo livro, estou a publicitar essa obra. E poderia dar muitos outros exemplos dentro do mesmo registo. O caso muda de figura se por acaso alguém escrever que o tal actor é execrável quando está no set de filmagens. Ou se alguém escrever que o livro é um plágio de uma outra obra. Estes dois exemplos servem para ilustrar notícias que vão além da publicidade e que as pessoas não querem que se publiquem.

Depois existe outro fenómeno local. Em Portugal muitas pessoas “conhecidas” acreditam que são conhecidas em todo o mundo. Que são estrelas no mundo inteiro. Quando na realidade em Badajoz já ninguém sabe quem são e não têm nenhuma das mordomias que têm em Portugal onde são vistos como reis e rainhas de um pequeno povo que come tudo o que lhes é colocado à frente. E estas pessoas sabem que conseguem, com bastante facilidade, manipular a opinião do público. Que infelizmente ainda é muito inculto nesta realidade.

Por exemplo, os jornalistas norte-americanos que têm feito frente a Donald Trump são vistos como um exemplo. São vistos como rostos daquilo que o jornalismo deveria ser em todo o mundo. Os vídeos destes momentos de confrontação são partilhados nas redes sociais e todos aplaudem os jornalistas. Mas em Portugal nada disso acontece. As pessoas esperam que os jornalistas portugueses também confrontem Trump mas não aceitam que confrontem, quando é caso disso, uma figura pública – seja de que área for – nacional.

Quando um jornalista português ousa saltar a barreira da publicidade para publicar uma verdade que incomoda é logo visto como mentiroso, invejoso e como alguém que só deseja o mal dos outros. E estes rótulos fazem logo com que as pessoas olhem para os jornalistas como maldosos e invejosos. As pessoas nem tentam perceber se determinada notícia é verdadeira ou falsa. Assumem logo que é falsa. E pelo simples motivo de que a figura pública consegue manipular a opinião da maioria das pessoas. E isto acontece em todas as áreas nacionais.

E é por isto que as pessoas olham para os jornalistas da CMTV, do Correio da Manhã, alguns da TVI e todos aqueles que fazem parte da maldita “Imprensa cor-de-rosa” como gente de merda. Como uma cambada de falsos e invejosos que só querem mal aos outros. Escrever verdades que doem a alguém não passa de uma grande maldade. Mas se for sobre Trump e outros que tais os jornalistas portugueses voltam a ser os maiores.

As pessoas em Portugal não querem jornalismo. Querem publicidade. Só aceitam jornalismo, principalmente aqueles que são motivo de uma notícia menos feliz, quando se trata de figuras que estão a milhares de quilómetros de distância e que nem sabem que existimos. E enquanto as pessoas não perceberem isto vão continuar a olhar para os jornalistas de forma errada. Vão continuar a achar que tudo aquilo que é escrito é mentira e que as figuras públicas portuguesas, de todas as áreas, são vítimas de uma cambada de gente maldosa.

8 comentários:

  1. Será assim mesmo? Ou as pessoas não gostam dos jornalistas da imprensa cor-de-rosa, porque consideram que isso não lhes interessa? Ainda que o que publicam seja verdade? Ou não há verdades que não interessam e só servem para nos alienar?
    A mim não me interessa nada se determinado ator é homossexual, ou se dorme com todas as mulheres bonitas da praça. Interessa-me se é bom profissional, ou não. Se gosto ou não do seu trabalho. Se falar disso é publicidade, pois que seja.
    Abraço

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    1. É assim mesmo! Porque se não não tivesse interesse as pessoas não compravam. Se não tivesse interesse, os telejornais não seguiam esta linha editorial.

      Existem publicações específicas para este tipo de notícias. E as pessoas gostam das mesmas. E neste tipo de publicações existe jornalismo sério, simplesmente está adaptado ao público alvo.

      Abraço

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  2. Falo por mim, que andei um ano no curso de Jornalismo, e aprendi ainda algumas coisas: os jornalistas, são profissionais essenciais na sociedade. Mas em todos os países há jornalismo medíocre. E sim, quase nunca são bem vistos, o que é pena. Tive um professor, que foi jornalista durante imensos anos, um veterano autêntico. Contava-nos vezes sem conta as suas experiências. Passou por vários jornais e canais de televisão. Uma dessas histórias foi no inicio da sua carreira, em que entrou para um jornal, bem conhecido e popular em Portugal, e lhe pediram que inventasse algo que cativasse os leitores. É por essas e por outras, que agora só leio um jornal. Mas felizmente não me integro na massa de almas que acham os jornalistas "gente de merda".

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    1. Se é verdade que existem jornalistas que inventam coisas? É! E não existem mecânicos que inventam avarias? E informáticos que inventam problemas? Existem! Mas as pessoas não olham para todos da mesma forma.

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  3. Por amor de deus. Não há muitos jornalistas simpáticos em Portugal, não está a descrever uma realidade correcta. Há jornais que se são de esquerda, outros de direita, e "cascam" em cima de políticos, juízes, empresários, entre outras figuras. Se agora me disser que a imprensa cor-de-rosa é que tem jornalismo a sério, porque fala daqueles dois socialites que acabaram o namoro, e houve traição e a gordurazinha da apresentadora da sic... Isso é encher chouriços. E não é por achar que essas pessoas devem ou não ser protegidas, é porque a vida delas não tem impacto na minha ponto. Já as acções de Donald Trump (que agora não é uma socialite) têm impacto na vida de todo o mundo. Tal como as acções de António Costa têm impacto na vida dos portugueses. As acções da Cinha Jardim... not really. Está a ver a diferença? É incrível usar uma citação de Orwell para defender este tipo de imprensa, o homem deve rebolar na tumba.

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    1. Não estou a falar de simpatias que os jornalista não têm como missão ser simpáticos para ninguém. Se existem publicações com tendências políticas? Claro que sim! Tal como existem publicações e canais que têm os seus protegidos dos quais nunca falam mal.

      Essa ideia de que o jornalismo cor-de-rosa não é sério é um dos maiores tabus que existem. Porque o jornalismo não está segmentado por cores ou áreas. As regras são as mesmas. Mudam os temas. Há quem goste de notícias sociais e quem não goste. Mas isto não muda o jornalismo que é feito.

      Dentro do que dizes, o que importa a vida pessoal de Trump? Ou de António Costa? Ou do político francês que é acusado de ter uma relação homossexual? Isso importa para as suas carreiras?

      Eu vejo a diferença. Eu sei perceber o que é uma notícia de social, publicada numa publicação que se assume como social, e uma notícia política publicada numa publicação política. Sei distinguir as coisas, as publicações e o público alvo. Sei também perceber quando um canal televisivo vende estes produtos aos telespectadores mas fingindo ser diferente de uma publicação social. Infelizmente, e esta é a dura realidade, a maior parte das pessoas não sabe fazer essa distinção.

      PS - A frase do senhor que está a rebolar na tumba aplica-se a todas as áreas do jornalismo. Social, desporto, política, entretenimento, cultura e por aí fora.

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    2. 1º - Não falei da vida pessoal dos políticos, falei das suas acções. Por exemplo, interessa-me saber se o Carrilho bateu na mulher, mostra bem a pessoa que é e isso tem impacto na vida política. Agora pouco me interessa saber se o Marcelo tem uma namorada ou cinco. Interessa-me saber se políticos ou empresários são corruptos pois isso vai ter impacto na minha vida.
      2º - Claro que há publicações com interesses, mas o público que as lê sabe desses interesses. Eu sei que o observador é um jornal centrado muito à direita e tenho essa plena noção quando o leio. Tal como sei que o público está à esquerda. Isso não significa que os jornais fechem os olhos quando certos peões dos seus interesses erram, e quando defendem o indefensável eu deixo de os ler ponto.
      3º - Há uma grande diferença entre jornalismo de entretenimento, social, cultura e imprensa cor-de-rosa. Não acho que seja um tabu, acho que é uma imprensa absolutamente dispensável. E sei do que falo pois apesar de nunca comprar esse género de revistas, pego nelas mensalmente (no cabeleireiro, dentista, nesse tipo de lugares). E nunca, mas nunca mesmo vi um artigo numa destas revistas que pudesse ter impacto na vida das pessoas. Lá está, pouco me importa se o José Castelo Branco é super gay e é mau para os criados, se a Cinha bebeu um copo a mais ou o que quer que seja. Se é uma imprensa que se podia diferenciar das outras, pegar em assuntos polémicos e transformá-los para o público? Se podia pegar em personalidades mais controversas em Portugal - na comunidade cigana, negra, homossexual - e dar-lhes uma luz nova, mostrar que estas pessoas são essenciais à sociedade? Podia, mas não é isto que faz. Mas hey, ao menos sei que a Maya meteu silicone, yay.
      Enquanto a imprensa cor-de-rosa se basear em futilidades, em gossip, na vida privada e nas cusquices e em coisas superficiais de gente que não interessa a ninguém... É completamente dispensável. É popcorn, pronto.

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    3. O que está em causa não é aquilo que as publicações noticias mas a forma como o jornalista trabalha (ou deve trabalhar). E isso é igual em todos os tipos de jornalismo. É isto que muitas pessoas não percebem.

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