28.12.16

vamos todos fazer queixas

Há muito que se cria a ideia de que efectuar uma queixa é a forma mais eficaz de resolver um problema. Na teoria deveria ser assim. Na prática é algo que funciona em casos específicos. Na maioria dos casos, e com muita pena minha, efectuar uma queixa formal representa perder tempo. E em alguns casos gastar dinheiro. Depois o processo arrasta-se no tempo até ao momento em que é arquivado ou esquecido com base numa qualquer desculpa esfarrapada.

Agora incentiva-se à queixa para aqueles que não respeitam a prioridade que deve ser dada a idosos, deficientes, grávidas e pessoas com crianças ao colo. Como dizia, e bem, uma senhora de idade: “no meu tempo não era necessário nada disto porque existia educação”. E o problema reside mesmo na educação. Na falta dela. A educação já não é o que era e as pessoas estão a marimbar-se para as prioridades dos outros.

Infelizmente já usei muletas mais vezes do que aquelas que desejava. Recordo-me de coisas como ninguém me ceder o lugar num autocarro lotado. Ou de refilarem comigo que devia estar em casa em vez de estar na rua. Estes são apenas dois exemplos da educação que existe. É certo que isto agora pode ser resolvido com queixas. Mas, muito sinceramente, duvido que venha a existir a notícia de que uma queixa sobre prioridades deu efeito.

É mais ou menos como o mau trato aos animais. Que me recorde só o infeliz caso do cão Simba é que deu que falar. De resto as pessoas continuam a tratar mal os animais e tudo cai em saco roto. Tal como irá acontecer com as queixas em relação às prioridades. Até porque os processos são demorados e, em muitos casos, estão pensados de modo a proteger aqueles que são maiores, muito maiores, do que o pobre cidadão comum que faz uma queixa.

Vou dar outro exemplo. Fiz uma viagem de 300 quilómetros para ir ver um concerto. Era um festival mas só me interessava um concerto. Quando chego ao local do evento apercebo-me de que o concerto que pretendia ver estava a acabar. Estavam “meia dúzia” de pessoas a assistir ao mesmo. Achei aquilo absurdo. Pedi informações. Não fiquei contente e decidi fazer uma reclamação formal. Eu e diversas pessoas. Havia mais pessoas a querer fazer queixa do que a entrar no recinto.

Só queria uma coisa: o dinheiro dos bilhetes. Não queria que pagassem o hotel, as portagens nem o combustível. Só queria o dinheiro dos bilhetes por entender que fiz uma viagem para ver um concerto cuja hora foi alterada sem aviso prévio. Foi isto que argumentei. A resposta que tive foi a de que a banda em questão decidiu alterar a hora em cima do concerto, o que impediu um aviso em condições por parte os organizadores. Foi-me dito também que existia campismo, outros concertos e outras actividades. Basicamente defendiam que a culpa era minha por só querer ver um concerto.

Este é um exemplo de que muitas coisas estão feitas para proteger grandes nomes e grandes marcas. Mesmo existindo queixas formais. Mesmo com as pessoas a gastarem tempo e dinheiro em reclamações. Existe sempre um argumento que é válido legalmente e que serve para proteger os grandes. A solução passa apenas pelas pessoas que até têm tempo e dinheiro para gastar num processo mais sério e demorado. Mas estas pessoas são apenas uma gota no oceano. Porque a maioria das pessoas não tem tempo nem dinheiro para gastar em processos.

Voltando às prioridades. Não são necessárias queixas. É necessária educação. E a falta da mesma é que deveria dar direito a uma pena bem pesada. Existindo educação acaba a maioria dos problemas que originam queixas que na realidade não servem para nada. Servem apenas para fingir que as pessoas se importam com algo.

4 comentários:

  1. Olá :)
    Uma das cadeiras que tive na faculdade foi Direito. Há algo que o Professor disse que nunca mais esqueci: que não se legisla como prevenção, ou seja antes dos casos acontecerem, mas como resposta à necessidade criada pela falta de bom senso.
    O mecanismo formal de reclamações com os livros, os processos, etc, surgiram precisamente porque se sente de forma notória a ausência dessa educação e bom senso.
    Gosto de pensar que a maioria das situações se resolvem se endereçarmos de forma clara e serena o assunto logo na altura.
    Mas também devemos reflectir sobre o que aconteceu à educação, à empatia, etc... E é inegável que um dos motivos porque estes valores parecem dormentes, (embora não o único), é que não falta quem abuse dos mesmos. Por exemplo, quando falamos em filas, quem é que nunca notou num qualquer moroso organismo público, que não havendo necessidade de tal nem sendo prático, há famílias inteiras que se deslocam lá só para usufruírem da prioridade que a presença de uma criança dá?! (O pai ou a mãe poderiam ter ficado em casa com ela, enquanto o outro adulto ia tratar das coisas.)

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    1. O teu último parágrafo é que dá que pensar....

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  2. Pois...
    Acho que é mesmo por aí, pela educação e pelo civismo... (vou na 3ª gravidez e contam-se pelos dedos de uma mão as vezes em que me foi cedida prioridade enquanto grávida e enquanto acompanhante de criança com idade inferior a 2 anos)

    Que tenhas um excelente 2017!

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    1. O problema anda mesmo nessas coisas.

      Muitas felicidades para ti, para vocês!

      Que seja um ano extraordinário!

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