18.1.16

qual o limite do mal que nos podem fazer?

Em tempos a Pepsi (sueca) decidiu brincar, gozar para quem preferir, com Cristiano Ronaldo numa altura em que Portugal ia defrontar a Suécia num importante jogo que daria o acesso ao Mundial. Tratava-se de um boneco, imediatamente associado ao jogador português, que estava amarrado e deitado numa linha de comboio à espera de uma locomotiva que acabasse com a sua vida. Isto criou uma gigantesca onda de indignação.

A campanha foi de responsabilidade sueca. Ou seja, a casa mãe não estava a par do que seria feito. Mais tarde a Pepsi pediu desculpa a Cristiano Ronaldo e a marca e o jogador acabaram por colaborar num projecto solidário. Entre uma coisa - a polémica - e a outra - a colaboração – teve lugar uma campanha contra a Pepsi. Parecia que em Portugal ninguém voltaria a beber Pepsi. Sem esforço nenhum, a Coca Cola acabou por ter, sem que o necessite, um grande apoio pois muitas pessoas criticavam a Pepsi a enaltecer a Coca-Cola.

Não sei se realmente alguém deixou de consumir Pepsi ou se algum comerciante deixou de vender a famosa bebida ou se tudo isto não passou de um desabafo que, na altura, ficava bem fazer online. Ou não fosse Cristiano Ronaldo um dos nossos e o nosso maior símbolo actual no que ao desporto diz respeito. Naquela altura, pelo menos nas redes sociais, quase todos tomaram as dores de Cristiano Ronaldo.

Agora a polémica é outra e envolve a Apple, marca que todos conhecem pois o que não falta por aí são iPhones (sou consumidor) e iPads, entre tantos outros gadgets. A marca, num documento enviado aos accionistas da empresa, fez uma recomendação no mínimo polémica. Basicamente, que se vote contra o aumento de diversidade nos cargos de chefia. Querem menos mulheres e menos negros em cargos de chefia (a título de curiosidade, onze dos mais altos cargos da Apple são ocupados por dez homens e uma mulher, todos brancos).

Considero que esta polémica é de uma dimensão muito maior do que aquela que foi protagonizada pela Pepsi sueca e por Cristiano Ronaldo. Mas a Apple não é uma das nossas porque não é portuguesa. Tal como as pessoas que ocupam cargos de relevo na empresa também não são dos nossos. E que se saiba não existe nenhum dos nossos, leia-se português, em lista de espera para ocupar o cargo. E a recomendação não específica mulheres portuguesas nem negros portugueses. É algo mais vasto.

Isto para chegar à questão: qual o limite do mal que nos podem fazer? Por outras palavras, a distância das coisas altera a nossa indignação? Será que irá nascer agora uma onda de indignação contra a Apple? Vão existir apelos para que as pessoas deixem de comprar iPhones? Que se desfaçam imediatamente dos gadgets que têm da marca? Ou por outro lado, a Apple está “lá ao longe” e não é preciso entrar em histerismos, leia-se deixar de usar já os aparelhos que temos?

19 comentários:

  1. Compreendo o que dizes, penso que nenhum activista dos direitos humanos se vê livre do seu I phone depois desta notícia. Podem reclamar, verdade mas não vejo grandes consequências... É a minha opinião.

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    1. Claro que não. Tal como acredito que poucas pessoas deixaram de beber Pepsi.

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  2. Não deixa de ser curioso!!! A distância faz com se dê menos importância ao assunto! Mas mais grave é o facto de que na China muita malta que trabalha em empresas ligadas à Apple em condições desumanas e que as leva muitas vezes ao suicídio e nem por isso a Apple deixa de ter vendas astronómicas nos seus equipamentos.

    Eu, fã e utilizador me confesso...

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    1. Atacar o Ronaldo é bater num dos nossos. E isso não se aplica à Apple, marca que muitos veneram.

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  3. Gostei bastante da possível analogia entre o escândalo Pepsi e o futuro possível escândalo Apple. Penso que os incentivos à revolta em cada um dos casos são substancialmente diferentes. No caso da Pepsi o povo sentiu um atentado contra um icóne da sua cultura. No caso da Apple dificilmente se trata de discriminação. Neste caso, da Apple, é feita a recomendação de não beneficiar empregados para cargos de chefia que possam constituir uma manifestação de diversidade. Parece-me, pelo seu texto, que o que a Apple fez foi aumentar a justiça nessa corrida a esses lugares no topo da escada corporativa. Estão a lutar contra a discriminação positiva. Se assim o é, não existe qualquer injustiça. Quanto à pergunta em geral: penso que não há limites para o mal possível.

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    1. Mas é mesmo aí que pretendo chegar. O ataque ao Ronaldo leva muitas pessoas a criticar uma marca e a apelar ao fim do consumo. Uma coisa muito mais grave passe ao lados das pessoas.

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  4. Não me parece errado negar apoios a minorias para que possam chegar mais facilmente a lugares de chefia apenas por serem minorias. Isso é discriminação positiva, uma das poucas desvantagens da proteção de minorias face às maiorias, quando opressoras. :) ótimo post. Muito estimulante.

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    1. Discriminação positiva? Lol essa nunca tinha ouvido.
      O que a Apple está a dizer é que não se deve confiar em mulheres e pessoas negras para cargos de chefia por serem mulheres e pessoas negras. Discriminação vejo, positiva... nem por isso.

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    2. Também não concordo que determinado cargo de relevo seja dado a uma pessoa, seja ela quem for, apenas porque fica bem, deixando para trás pessoas mais competentes. O cargo deverá ser sempre (apesar de nem sempre ser assim) para a pessoa mais apta.

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  5. As pessoas gostam de se indignar. Mas não gostam de tomar atitudes. Certamente ninguém deixará de usar coisa alguma.

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    1. Mas se a Apple fizesse uma publicidade a atacar o Ronaldo talvez o caso mudasse de figura. Pelo menos na indignação.

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    2. Sim, isso penso que sim, pelo facto de, como já foi aqui dito, as pessoas sentirem esse ataque como mais "pessoal" aos portugueses directamente. Infelizmente, no entanto, poucas vezes passam da indignação.

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    3. Não deixo de achar curiosa essa ligação aos nossos e o distanciamento de coisas mais graves.

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  6. já parece a cerimónia dos Óscares deste ano,em que anda tudo indignado e até há ameaças de boicote(pelo menos a esposa do Will Smith não vai lá pôr os pés)porque não há ninguém de raça negra nomeado a rigorosamente nada.E parece que até querem que o Chris Rock desiste de ser o anfitrião!!!!mas se não fizeram o suficiente para serem nomeados,estão agoniados com o quê???Eh pá,não me lixem!!!!Deus queira que seja ele o apresentador,senão eu,que vejo sempre em directo,ainda tenho que gramar com o Seth Mcfarlane e outra música sobre mamas,ou aquela fufa enjoada que eu detesto.Desculpe,sem ofensa,que eu adoro fufas.

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    1. Existem polémicas sem sentido. E quando se trata de Oscares existem tantos mas tantos actores que podiam queixar-se de ficarem esquecidos porque simplesmente não gostam deles na academia.

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  7. ué????cadê o meu comentário???foi por dizer...fufa?;#

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  8. Confesso que não conhecia nenhuma das duas. Quanto à primeira, não gosto nem nunca gostei de Pepsi e é-me indiferente se "gozaram" com o Ronaldo, a Madonna ou o Manél da esquina.
    Quanto à segunda, acho que aí a questão é outra, pois falamos de descriminação e racismo, seja nos EUA na Europa ou aqui ao lado.

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    1. Mas as pessoas ligam mais à primeira do que à segunda.

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