17.11.15

vale a pena ler

“Vocês não terão o meu ódio

Na noite de sexta-feira vocês acabaram com a vida de um ser excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho mas vocês não terão o meu ódio. Eu não sei quem são e não quero sabê-lo, são almas mortas. Se esse Deus pelo qual vocês matam cegamente nos fez à sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher terá sido uma ferida no seu coração.

Por isso eu não vos darei a prenda de vos odiar. Vocês procuraram-no mas responder ao ódio com a raiva seria ceder à mesma ignorância que vos fez ser quem são. Querem que eu tenha medo, que olhe para os meus concidadãos com um olhar desconfiado, que eu sacrifique a minha liberdade pela segurança. Perderam. Vamos continuar a lutar.

Eu vi-a esta manhã. Finalmente, depois de noites e dias de espera. Ela ainda estava tão bela como quando partiu na noite de sexta-feira, tão bela como quando me apaixonei perdidamente por ela há mais de doze anos. Claro que estou devastado pela dor, concedo-vos esta pequena vitória, mas será de curta duração. Eu sei que ela nos vai acompanhar a cada dia e que nos vamos reencontrar no paraíso das almas livres ao qual nunca terão acesso.

Nós somos dois, eu e o meu filho, mas somos mais fortes do que todos os exércitos do mundo. Não tenho mais tempo a dar-vos, tenho de ir ter com o Melvil que acordou da sua sesta. Ele só tem 17 meses, vai lanchar como todos os dias, depois vamos brincar como fazemos todos os dias e durante toda a sua vida este rapaz vai fazer-vos a afronta de ser feliz e livre. Porque não, vocês também nunca terão o seu ódio.”

As palavras são de Antoine Leiris e são dirigidas aos terroristas. Este homem, jornalista da France Bleu, perdeu a mulher nos recentes atentados de Paris. Tiro o meu chapéu a alguém que num momento que poucos conseguem imaginar mas que deverá ser pautado por uma dor que imagino aguda e eterna consegue falar das brincadeiras que vai protagonizar com o filho e consegue estar no extremo oposto ao ódio.

16 comentários:

  1. Fico sem palavras, e admiro a sua força, numa hora de dor tão intensa.

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  2. Já tinha lido na versão original em françês, obrigada pela versão traduzida :-). É realmente incrivel como se consegue escrever uma carta assim ainda de cabeça quente...qd o mais provavel seria querer a morte de todos os culpados. Nunca vou esquecer este texto.Um beijinho. Patricia

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    1. Este texto é uma lição de vida para tantas pessoas. Existem tantas leituras que podem ser feitas aqui.

      Beijos

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  3. Não há palavras... admiro muito este homem que escreveu aquilo que eu defendo, mas que não sei se conseguiria fazer estando na mesma situação dele.
    Temos medo, mas não o devemos mostrar, eles não podem conseguir vencer-nos pelo medo, pelo ódio, pela violência e muito menos por um deus inventado por eles, porque nenhum Deus apoia actos criminosos.

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  4. Esta carta é das coisas mais bonitas que já vi na vida. Não me lembro de alguma vez ter visto uma prova/demonstração de amor, quer pela mulher quer pelo filho, como esta. Por muito grande que seja a dor nos próximos tempos, a paz interior que vem a seguir (se lutarmos por isso) é quinhentas mil vez melhor do que a sede de vingança que não leva a lado nenhum.
    Perante os acontecimentos em Paris é mesmo esta a postura que julgo que devemos ter e é muito bom ver que até os que saíram mais lesados desta tragédia estão a conseguir perceber e demonstrar que o importante é não ter medo.

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    1. Arrepia só de ler mas tem uma força brutal e aposto que não é indiferente a nenhuma pessoa que a tenha lido.

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  5. Grande alma, grande coração, grande paz...
    Amor acima de tudo

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  6. Um grito de dor, uma dor bem latente, mas também de coragem, amor, dignidade. De perdão? Não, este Homem vai muito para além disso.
    Grandes lições de Homens grandes, para aqueles que têm a desgraça de nada ser.
    Beijinho

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    1. A parte do filho é aquela que mais me arrepia.

      beijos

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  7. Já tinha lido e de facto, tomara que o mundo tivesse mais homens como o Antoine.

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    1. Não deve ter sido nada fácil ter escrito aquilo.

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