8.10.15

o mal não está nas magras nem nas gordas. o mal é outro

Uma conversa cuja temática ande em torno de mulheres e do tão comentado "corpo real" acaba quase sempre em polémica. Sendo que quase sempre existe, pelo menos na leitura das pessoas, um ataque às mulheres consideradas gordas. Por sua vez, muitas pessoas defendem que são as gordas que têm o tal corpo real e que as magras não representam mais do que uma imagem de um corpo artificial. Além disto, as pessoas, por norma, reagem a um ataque às mulheres magras com um "ok" enquanto, mais uma vez na sua generalidade, ficam muito exaltadas quando o ataque é feito às gordas. Quando na realidade o ataque deveria ser visto como igual pois tanto umas como outras têm corpos reais.

Acho que muitas destas guerras na defesa da honra dos corpos reais têm origem nas marcas que publicitam corpos. Mesmo que as marcas não tenham intenção de provocar guerras ou polémicas. Uma marca é livre de usar uma mulher magra para promover os seus produtos. Tal como é livre de recorrer a uma mulher gorda. São opções de cada marca. E isto, por si só, não deve dar origem a uma guerra. Porque vale o que vale. Não é mais do que uma estratégia de marketing. Outra coisa é a forma como as marcas decidem apresentar os corpos aos clientes. E aqui, sejam mulheres magras ou gordas, a regra é sempre a mesma: utilizar a edição de imagem, o famoso photoshop, para retocar as imagens e corrigir algumas imperfeições. E algumas pessoas não cedem à tentação que o programa representa. É mais um retoque aqui, mais um retoque ali, mais uma correcção aqui, outra ali e nem se apercebem que roubam o ar real à pessoa que está na fotografia. E um bom exemplo disto é uma foto recente que a Victoria´s Secret partilhou nas redes sociais.


De retoque em retoque esta manequim perdeu a nádega esquerda e parte do braço direito. Não sei quantas pessoas observaram esta foto antes de ser partilhada mas pelos vistos ninguém achou exagerado o retoque de imagem. A foto acabou por ser partilhada (não foi retirada) e os ataques são mais do que muitos com pessoas a indignarem-se contra a marca por passar uma imagem que consideram feia, horrível e exageradamente fora da sua realidade. Mas uma coisa é criticar o uso excessivo de edição de imagem nesta fotografia. Outra completamente diferente e sem sentido é começar a criticar as manequins. Algo que muitas pessoas fizeram naquele que é mais um capítulo na guerra gordas vs magras numa busca pelo corpo real.

Isto não é mais do que um erro de photoshop. A manequim em questão está a trabalhar e não tem culpa de nada. É paga para exibir o modelo de lingerie e para se colocar na posição que o fotógrafo e a marca desejam fotografar. E o seu corpo não deixa de ser real por causa disso. É o que é. Se alguém decide alterar a sua imagem é um problema alheio à manequim. O corpo das manequins é uma ferramenta de trabalho. Não mais do que isso. Por exemplo, no futebol só existem homens magros. Quando um ousa ter uns quilinhos a mais e alguém lhe chama gordo não existe polémica nenhuma. Aliás, todas as pessoas concordam. Por exemplo, Taarabt (para quem não sabe é um jogador marroquino que chegou este ano ao Benfica) é apelidado de gordo desde que chegou a Portugal. E nunca vi um comentário de indignação. "Gordo? O homem tem um corpo real e também pode jogar futebol", é algo que ninguém diz. E tal como as manequins, os jogadores de futebol também têm de cuidar do corpo. É a sua ferramenta de trabalho. E as leis dos mercados em que trabalham fazem com que tenham de estar dentro dos parâmetros que alguém determinou. E outra coisa que acho piada são as mulheres que criticam as manequins porque são muito magras e porque não têm corpos reais mas depois só gostam de homens magros com abdominais definidos.

O mal não está na maioria do mercado da moda dar preferência a mulheres com corpos xpto. Tal como o mal não está no mundo do desporto masculino que só aceita homens com corpos xpto. Tal como o mal não está nas publicidades que têm por objectivo vender um determinado produto. São opções que as marcas fazem. Se querem uma mulher magra, força. Se querem um homem seminu e com o corpo definido, força. Se desejam uma mulher gorda, força. Se querem um homem com barriguinha de cerveja, força. Nada disto merece um ataque da minha parte. Tal como a foto da Victoria´s Secret merece, da minha parte, uma crítica pelo uso excessivo de photoshop e não mais do que isso. Não merece um ataque à manequim nem às manequins magras.

O problema é bem maior do que este. O problema está na mentalidade de algumas pessoas. Por exemplo, o mal está em olhar para a publicidade e em meter na cabeça que tem de se ser igual à imagem que alguém quer vender. Ou o mal está em alguém que olha para uma imagem e entende ter de atacar as pessoas que são diferentes de si. E antes de atacar as pessoas que trabalham com recurso a um corpo magro acho que existem muitos passos que devem ser dados. Como alterar a mentalidade do colega do lado que está sempre a chamar gorda e gordo às pessoas. Como alterar a mentalidade das pessoas que estão sempre a dizer que os outros devem perder peso, mesmo quando esses têm um peso saudável e se sentem bem com o corpo que têm. Ou mesmo em motivar e mostrar o caminho a alguém que assume sentir-se gordo(a) e revela vontade de mudar mas que nada faz para mudar preferindo ofender as pessoas que são como gostaria de ser. Corrigindo estes e muitos outros pequenos (mas importantes) detalhes talvez se chegue ao dia em que um corpo diferente do nosso seja apenas isso. E talvez se chegue ao dia em que se olha para uma publicidade e se pense apenas no produto e não na pessoa que o exibe. E talvez se chegue ao dia em que é possível analisar os erros de edição de uma imagem sem sentir a necessidade de ofender a pessoa que aparece na imagem (mas que não a editou) ou todas as pessoas que trabalham na mesma área da pessoa em questão.

8 comentários:

  1. "O problema está na mentalidade de algumas pessoas. Por exemplo, o mal está em olhar para a publicidade e em meter na cabeça que tem de se ser igual à imagem que alguém quer vender. "

    Sem dúvida.
    Beijinho

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  2. Posso adormecer e acordar nesse dia que imaginas?
    Não suporto a história das mulheres reais!!!

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    1. Só depende de nós lá chegar. Gosto de acreditar que pelo menos eu vivo nesse dia.

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  3. Tens toda a razão, mas parece-me que isso nunca vai mudar, pois as pessoas têm a necessidade de falar, de criticar, principalmente se for para dizer mal.

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    1. E além disso sentem a necessidade de ser igual ao outro.

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  4. Reamente, acho que tens razão (estou a tratar-te por tu..).
    A imagem de um corpo "perfeito"persegue-nos. Criou-se esta ideia e é difícil combatê-la. Vivemos cercados de publicidade onde aparecem os tais corpos perfeitos e saudáveis. Eu por exemplo, já não sou nova e tenho dois filhos adolescentes, mas também acabo por sentir essa pressão. Ou é porque tenho uma barriguinha, ou porque afinal as calças da zara já não me ficam tão bem, ou é porque se como um gelado poderei engordar...irra às vezes apetece-me mandar tudo às urtigas. Afinal os corpos ditos reais têm quilinhos a mais (e às vezes a menos), estrias, celulite, derrames nas pernas, ancas largas, flacidez...etc. Viver com tudo isto e confrontar.nos todos os dias com as imagens de corpos ditos perfeitos não é fácil. Aceitar o nosso corpo e a nossa vida é quanto a mim um passo para sermos mais serenos connosco e com os outros.
    Lua Azul

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    1. Gosto mais assim :) Obrigado!

      Todas as pessoas têm essas coisas de que falas. Mesmo aquelas pessoas que se pensa que não. Por isso é que depois meio mundo fica espantado quando as pessoas dos "corpos perfeitos" são fotografadas de forma natural. Nessa altura as pessoas finalmente percebem que são iguais a essas pessoas.

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