26.10.15

"a minha carta de amor ao herói da minha vida!"

“Amor, prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir.

Sempre te admirei enquanto pessoa, pela tua determinação, pela tua sensatez e humildade, pela tua força e pela fé nas coisas em que acreditas. Mesmo antes de te lançares para o “canhão” da luta de derrube das injustiças que vivemos no nosso país admirava-te! Não é de hoje a minha admiração nem cresce diante desta tua decisão. Cresceu durante estes rápidos sete anos da nossa relação. Rápidos, porque parece que foi ontem que te conheci, parece que foi ontem que me apaixonei por ti, e mesmo diante deste momento difícil que estás a passar vejo o mesmo olhar dantes.

Quero-te presente e bem vivo para que possas transmitir esses valores bem vincados à nossa pequena Luena, o nosso raio de sol, o nosso sweet life, porque sinto-me incapaz de os passar sozinha, porque não os tenho tão vincados. Nós, eu e o nosso pequeno mas grande amor, queremos compartilhar mais momentos juntos, queremos ajudar-te na tua luta e acima de tudo recebermos o amor que é tão habitual termos.

Quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus braços, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela. Entendemos que sejas um homem de palavra e que levarás a tua palavra até ao fim, mas quero que tenhas em mente que as promessas são apenas palavras até começarem a ser cumpridas pelas nossas atitudes. Eu e a Luena esperamos que a cumpras.

Tu és o nosso herói, o exemplo de pai presente, o exemplo de marido honesto e um homem de palavra. Amamos-te muito! Da tua sempre persuasiva mulher, que conta, desta vez, persuadir-te a acabar a greve de fome, pois há uma promessa acima desta que tens mesmo de cumprir, não por mim mas pelo nosso tesouro, a Luena Almeida Beirão.”

Estas palavras são de Mónica Almeida, mulher de Luaty Beirão - o activista luso-angolano que está detido desde Junho e que cumpre o 36º dia de greve de fome – que escreveu uma carta ao marido que foi partilhada pelo jornal Expresso. Apesar do enorme impacto de todas as palavras fico imediatamente preso na primeira frase por considerar que diz tudo para esta mulher.

Enalteço a coragem, determinação e carácter de Luaty Beirão. Nos dias que correm talvez não seja fácil encontrar um jovem que enfrente uma situação destas de forma semelhante. E que tenha a lucidez de pedir as coisas que tem pedido (para além da libertação por considerar que foi ultrapassado o período de tempo da prisão preventiva) que vão desde não querer suporte artificial de vida caso os seus órgãos comecem a falhar até querer ser tratado como qualquer outro preso. Gestos que acabam por resultar numa visibilidade mediática para um problema que provavelmente passaria despercebido a todos sem estas medidas extremas. Até porque basta recordar que existem mais 14 activistas.

Por outro lado não consigo imaginar a dor de Mónica. O receio e o medo de pensar na possibilidade de a filha ficar sem pai apesar de enaltecer as qualidades do marido. Para a maioria das pessoas um dia não é mais do que 24 horas que são preenchidas com rotinas e outras actividades. Para esta mulher e para os familiares de Luaty Beirão cada minuto deve representar uma gigantesca incerteza sobre como será o minuto seguinte. Que tudo se resolva em breve.

8 comentários:

  1. Olá :)
    Já tinha lido esta carta e comoveu-me. Imaginei-me, por breves momentos, no lugar de Mónica. Também eu prefiro, em qualquer altura, um marido e não um mártir. Torço para que esta carta tenha a repercussão por ela pretendida. Luaty já é um herói, como são todas as pessoas que tentam fazer do mundo um lugar melhor. E embora esta atitude drástica da greve de fome prolongada tenha servido para chamar a atenção de media internacionais e de mais pessoas em redor do globo sobre o que se passa em Angola, espero mesmo que ele não se torne num mártir. Porque é preciso morrer para se ser mártir, e o que mundo precisa mesmo é da presença de homens bons e famílias felizes.

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    1. Felizmente ele já anunciou o final da greve de fome.

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  2. Disse tudo, meu caro. Bonita homenagem e obrigado por me dar a conhecer a carta.

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    1. É daquelas cartas que deviam estar em todo o lado.

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  3. Só tenho a dizer que Angola é um país de criminosos, e o nosso governo me envergonha. Todos os presos políticos merecem a nossa solidariedade, este homem em especial, a sua luta e determinação não tem limites.

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    1. Tudo isto é muito estranho. Vamos ver o que acontece no futuro.

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  4. Ainda bem que parou com a greve de fome!
    Sei que continuará a lutar pelos mesmos princípios!

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