28.9.15

o don juan largou o tchan

Apesar de felizmente ser um fenómeno em queda (não tão acentuada como desejava) ainda existem muitos preconceitos e rótulos associados à música portuguesa. Os nossos ouvidos ainda são muito críticos em relação ao que se faz por cá. Mais do que enaltecer qualidades procuram-se defeitos. É porque o cantor é não sei o quê. É porque a sonoridade é não sei o quê. É porque a letra é não sei o quê. É por tudo e mais alguma coisa.

Por outro lado, e mesmo sendo um fenómeno mais pequeno, existe uma rápida, fácil e inquestionável idolatração da música que chega de fora. Neste caso os nossos ouvidos já não são tão críticos. Os defeitos são disfarçados ou ignorados e enaltecem-se qualidades que em diversos casos ficam a dever a muito ao que temos por cá. Ninguém reclama da letra. Da sonoridade. Do que quer que seja. Um fenómeno que se aplica a muitas outras coisas “made in” longe daqui.

Com isto não quero dizer que sou apologista – porque não sou – da automática idolatração do que é nacional apenas e só porque existe esse requisito. No que à música nacional diz respeito gosto de ouvir para poder fazer uma análise comparativa em relação ao que me é oferecido, por exemplo nas rádios, onde ainda tocam, num número largamente superior, mais artistas estrangeiros do que nacionais. E onde o grupo nacional parece estar reduzido a um leque restrito de artistas cujas músicas tocam diversas vezes.

E quando comparo um trabalho nacional a um trabalho internacional não posso ignorar a máquina que está por detrás dos diferentes artistas e das diferentes realidades. Uma coisa é editar um álbum nos Estados Unidos da América e outra completamente é conseguir editar um álbum em Portugal. Tudo, desde os problemas e dificuldades até ao momento de editar um álbum, é diferente. Tudo tem uma dimensão diferente. E isto faz com que valorize ainda mais um bom trabalho português.

Por exemplo, hoje tinha na minha secretária, na redacção, Limbo, o novo álbum dos Virgem Suta. Devorei os doze temas com a gula de um puto numa loja de gomas e com a alegria de um homem que tem acesso aos bastidores do desfile da Victoria´s Secret onde poderá conviver com as manequins. E quanto mais gomas comia mais desejava comer. E quanto mais privava com as manequins mais desejava conhecer sobre as mesmas.

Tiro o meu chapéu ao Jorge Benvinda e ao Nuno Figueiredo pela qualidade deste trabalho. Talentos destes deviam ser proibidos de ficar três anos sem editar um trabalho. E vivo com o secreto desejo de que um dia músicas como aquelas feitas pelos Virgem Suta sejam partilhadas de forma viral nas redes sociais. Mais do que isso, que tenham uma presença ainda mais vincada nas rádios nacionais e que sejam idolatrados pelos portugueses com o mesmo carinho com que se idolatram artistas estrangeiros que são feitos à mesma velocidade com que se faz uma gelatina e que duram tanto tempo como um pedaço de manteiga esquecido ao sol num dos dias mais quentes do Verão. E isto aplica-se a tantos outros artistas nacionais, muitos deles com maior reconhecimento fora do seu País.

PS – Quanto ao título deste texto, para perceber é necessário clicar aqui (e vai valer a pena) pois aposto que vão ficar com as palavras na cabeça.

4 comentários:

  1. Concordo contigo é verdade. E ninguém se dá dá ao trabalho de, por exemplo, traduzir as letras das músicas americanas, é que há com cada uma, que em nada é melhor que as portuguesas, a questão é que o inglês vende mais e também acho que soa melhor ao ouvido.

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    1. Esse é um dos melhores exercícios que podem ser feitos.

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  2. A maior parte das pessoas não têm orgulho nenhum em ser português e desvalorizam o que cá é produzido. Só os estrangeiros nos dão valor. Nesse aspecto gostava que fossemos um pouco mais como os espanhóis,tão patriotas.
    E sim, cada letra dos hits internacionais que são de fazer chorar as pedras da calćada....
    Mata Hari

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    1. Existem bandas portuguesas que fazem muito sucesso fora de Portugal e que cá são quase desconhecidas. O que é pena.

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