20.7.15

as pessoas tatuadas são inferiores às outras

O motivo deste texto é uma história que parece ter acontecido num país distante. Parece quase uma fábula inventada por alguém. Mas aconteceu em Portugal, em Oeiras. O protagonista é Clife Barbosa, um homem que além de ser tatuador tem tatuagens no corpo. A ele junta-se a mulher, Bruna e Mel, a filha de ambos. A esta família junta-se um colégio. Onde aparentemente as pessoas com tatuagens não são vistas com bons olhos.

Os pais inscreveram a filha num colégio para o próximo ano lectivo e foi-lhes assegurado que tinham vaga numa IPSS (Instituição Privada de Solidariedade Social). Segundo o pai tudo corria bem até ao momento em que a directora soube qual era a sua profissão. O casal foi convocado para uma reunião com uma educadora mas afinal foram recebidos pela directora. "(...) fez logo cara de nojo quando viu os meus braços", explica Clife na sua página de facebook. "pois essas tatuagens...", chegou a dizer durante a conversa.

Depois a directora perguntou aos pais se não tinham ninguém para ficar com a filha durante o primeiro ano, como por exemplo os avós. Bruna respondeu que não. "Como não?", perguntou a directora. "Então? Não aceitaram o casamento foi?", perguntou para choque do casal. Clife e Bruna receberam ainda uma proposta acima dos rendimentos apresentados de modo a que não conseguissem pagar o valor, explica Clife.

"A minha tristeza é grande por saber que ainda existem pessoas assim. Por isso é que não se anda para a frente neste país. Não é por estar tatuado que sou bandido, que me drogo e que não tenho princípios e etc. Nem isso faz de mim um mau pai, porque sou melhor pai que muitos que andam por aí e que nem 1 tatuagem têm, todos os dias mudo fraldas à minha filha, dou-lhe de comer, tomo conta dela e todos os dias vejo o lindo sorriso que ela tem a olhar para mim!", desabafa Clife Barbosa na mesma rede social.

"Estou indignada! Como é possível?! E além disso foi capaz de invadir a minha privacidade como se me conhecesse há anos a perguntar se os meus pais não ficavam com a minha filha por não ter aceite o casamento. Como é possível? Era a última pergunta que esta senhora deveria ter feito. Podia ter-me perguntado se os meus pais e os meus sogros estão a trabalhar ou se não estão cá, agora isto?! O que está a querer dizer? Que tenho um marido de merda?! Mal ela sabe que é o homem super responsável, cheio de princípios e com um carácter de louvar. Isso para não falar que é um amigo, um marido e homem que muitas gostariam de ter. Eu sou mesmo uma sortuda, porque nos dias que correm nem de vela acesa! E em relação a esta escola tenho pena dos pais que têm lá os seus filhos", explica Bruna (na publicação do marido) revelando a sua revolta com o sucedido.

(foto retirada do facebook de Clife Barbosa)

Como comecei por dizer, parece uma história vinda de um qualquer país onde abundam as notícias bizarras. Parece uma notícia de mil novecentos e qualquer coisa. Mas aconteceu em Oeiras e em 2015. E isto toca-me de forma particular porque também tenho uma tatuagem. Ou melhor, infelizmente tenho apenas uma. Já pensei em fazer mais e quando penso nisso tenho sempre em conta o local do corpo a tatuar porque esta mentalidade ainda existe. E ainda consegue ser um obstáculo em diversas situações. Neste caso específico acaba por prejudicar uma criança e uma família.

É pena que ainda se avaliem pessoas com base em coisas como roupas, penteados, tatuagens e brincos. E que se coloquem as pessoas todas nos mesmos sacos. Se tem uma tatuagem é um bandido porque em tempos viveu lá no bairro um bandido que tinha uma tatuagem. Como tal, todas as pessoas que têm tatuagens não podem ser boas. Nos dias que correm cada vez mais pessoas têm tatuagens. Tal como, e porque isto diz respeito a crianças, existem cada vez mais crianças nos colégios e escolas que são filhos de pais separados porque os casamentos não correram bem. O que não significa que sejam maus pais porque já não vivem juntos. Tal como não invalida que não saibam educar os filhos da melhor forma.

Uma das maiores (senão mesmo a maior) crises que vivemos é a de valores. E uma das coisas mais complicadas de alterar são as mentalidades. É um processo que leva gerações. E é por isso que numa altura em que muitas pessoas têm tatuagens ainda se olha de lado para quem decidiu tatuar o corpo. E continua a ser complicado - mesmo com diversas figuras nacionais e internacionais, das mais diversas áreas, a assumirem que têm tatuagens - perceber que nem todas as pessoas tatuadas são más pessoas.

28 comentários:

  1. Estamos a anos-luz de ter uma sociedade que nao julgue as aparencias.

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  2. Infelizmente é mais comum do que se imagina. Partilho um pouco da minha experiência. Vivo há cerca de 6 meses num condomínio perto de Lisboa, considerado por muitos de luxo, com várias piscinas, cortes de tenis, segurança 24h, entre outras condições. No início do verão comecei a frequentar uma das piscinas e sempre que me despia (tenho 5 tatuagens, o meu marido outras tantas e temos uma menina de 3 anos) sentia o olhar dos vizinhos, os comentários em voz baixa e mesmo em alguns momentos famílias que se iam embora assim que chegávamos. É um sentimento horrível, nunca me senti discriminada desta maneira. Sou psicóloga numa multinacional, uma privilegiada a trabalhar na minha área, o meu marido num cargo de direção e temos uma filha educada, que cumprimenta quem por ela passa é que muitas vezes recebe um silêncio do outro lado e fica danada lol. Estamos sem dúvida numa crise de valores, com mentalidades conservadoras e cada vez mais egoístas. Gostei muito do teu post. sara

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    1. Mais um excelente exemplo da forma como se olha para duas pessoas com cargos responsáveis e com carreiras importantes mas que são olhados de lado porque têm tatuagens.

      Há muitos anos, quando trabalhava numa loja de desporto e quando o penteado ainda não era moda, decidi fazer uma crista (moicano) e muitas pessoas olhavam de lado. É a sociedade que temos.

      Obrigado pela partilha da tua (vossa) história. Gostei de ler.

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  3. Estas histórias revoltam-me. Quando é que as pessoas irão perceber que não é a aparência que faz alguém melhor ou pior?! Eu não tenho tatuagens porque ainda não tive coragem de fazer porque tenho pavor a agulhas (um dia ainda vai), tenho amigos com tatuagens e tenho sem tatuagens e respeito ambos não olhando para tal. A nível físico há uma coisa que me faz muita confusão, são os alargadores, mas é não é por gostar de ver algo que vou discriminar uma pessoa, assim como não deixo de me dar com pessoas que fumam só porque não gosto do cheiro a tabaco. A base da sociedade devia ser o respeito e a aceitação e não a discriminação.

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    1. Conheço pessoas todas aprumadinhas que são uns belos baldes de...

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    2. É só aparência... fazia aqui uma lista...

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  4. E provavelmente muitas dessas pessoas serão da nossa geração... Que mentalidades tão pequeninas.

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    1. Confesso que é o que me faz mais confusão. Discriminação de gente jovem.

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  5. Estou boquiaberta!! Como é que isto é possível? Como é que alguém assim está à frente de uma instituição que educa crianças? Este país e estas atitudes envergonham-me!!
    No lugar desses pais processava a "escola" a "diretora" e toda a "gente" que os ofenderam. Ia televisão e tudo metida ao barulho.

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    1. O pior é que isto deve ser na base do diz que disse. Os pais devem ter dificuldade em levar isto para a frente, o que é pena.

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  6. Mas esses pais não fizeram nada??? Essa ditectora não é dona das IPSS!!! Eu não aceitava e ainda para mais foi vigarista, porque alterou a tabela!!!!!????? Como é possível??? Há uma escala de rendimentos, não é á vontade do freguês!!!!! Se eu tivesse Facebook dizia o que escrevi aqui a esses Pais!!!

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    1. Pelo nome do pai chegas facilmente ao facebook dele. A notícia que vi tinha mas entendi não partilhar aqui por ser uma página pessoal.

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  7. Eu cheguei aos 40 anos sem tatuagens mas agora tenho uma, bem visível e com muito significado.
    São os nomes dos meus 4 filhos (2 vivos e 2 no céu)...E ai de quem um dia me diga algo desagradável ou menos respeitoso acerca da minha tatuagem... Não vai ficar sem resposta com certeza!
    E só uma achega... eu olho para quem tem tatuagens... mas não é para criticar ou mal-dizer. Tento ver se consigo perceber o significado das mesmas e apreciar a beleza de muitas que se vê por aí :)

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    1. Sou como tu. Adoro tatuagens e tentar perceber o que podem significar :)

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  8. Há um grande problema neste país e se calhar pelo mundo fora, mas pelo menos neste país eu sei que há porque falo com conhecimento de causa e o problema é: estarem atrasados(as)mentais em funções com possibilidade de tomar decisões, só arranjam problemas em vez de os resolverem e esta é mais uma história que o prova, essa directora é uma incapaz e este problema estende-se a tantas e tantas áreas ...

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  9. Surreal! Parece anedota, não tendo qualquer piada.
    E sim, é muito triste que ainda existam toda uma série de preconceitos...

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    1. Parece uma história de um país distante mas não é...

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  10. Isso depende muito da escola onde foi. Se forem escolas onde se paga um belo valor, por vezes aquilo é visto quase como uma importante entrevista de emprego, onde tens que ir super bem vestido.

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  11. Fiquei chocada com a notícia. Não tenho tatuagens (ainda) mas tenho cabelo colorido. E se já é o que é, imagino com ambos. As coisas vão ao ponto de ser seguida na rua por um grupo de rapazes a fazer comentários agressivos, ou por pessoas religiosas a dizer para deixar o demónio que Deus vai-me perdoar, a ser chamada de satânica, passarem por mim e gritarem-me coisas aos ouvidos (homens ADULTOS) ou até terem medo que lhes roube algo (tudo isto são coisas que me aconteceram devido ao facto de usar roupa gótica e ter cabelo colorido).

    A sociedade ainda tem muito que mudar. Muito que pensar. Quando pessoas que vão simplesmente na rua e tem de lidar com comentários agressivos de grupos de pessoas que até começam a segui-la, algo não está bem. Desde algum tempo para cá, tenho receio de andar sozinha na rua quer em Lisboa, quer ao pé de onde moro. Sinto-me mais segura a caminhar sozinha em Budapeste (não conhecendo ninguém, e conhecendo pouco o local) do que em Lisboa depois de tudo isso. Mas mesmo assim conheço casos piores do que o meu, uma amiga minha chegou mesmo a estar internada devido à carga de pancada que lhe deram, também por vestir de forma diferente, ter cabelo colorido e gostos diferentes. E também foi no nosso país. Em Inglaterra, se fizeres uma breve pesquisa, encontras casos destes (de agressões e discriminação por tatuagens ou estilos diferentes) aos molhos.

    Peço desculpa pelo testamento XD

    Bat Kisses

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    1. Não tens de pedir desculpa por nada. É bom que as pessoas tenham a coragem de revelar a sua história e que as outras leiam para que percebam a realidade em que vivemos.

      É uma realidade que ainda existe muito a mudar no que à mentalidade diz respeito. É triste mas real.

      Obrigado pela tua partilha.

      Beijos

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    2. No meu blog ( http://emonika.blogs.sapo.pt/ ) comecei a recolher algumas histórias, para além de contar as minhas. Ainda só está lá uma que não me pertence, mas é chocante pois as abominações que foram ditas saíram da boca de uma psicóloga. Infelizmente, não há muita gente que dê crédito a estas histórias pois "ai e tal estas coisas não acontecem". Depois se eu calho a contar alguma coisa e a demonstrar por a+b que é real, uma de duas coisas sucedem: ou desacreditam-me completamente e passo por maluca e exagerada, ou ficam admiradas. Infelizmente é um tipo de preconceito muito desconhecido para a maior parte das pessoas, e muitas das que conhecem acham-no completamente justificado, o que é chocante. Nenhum preconceito é justificado, ponto. Mas por causa de tanto preconceito, estou a começar a procurar uma boa peruca para usar no emprego, caso haja problemas com o meu cabelo...é triste :(

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    3. As reacções são reflexo da forma de pensar que ainda está vincada nas pessoas. Não se acredita no preconceito mas ele é real. O julgamento exagerado e errado também. São coisas que vão levar o seu tempo a mudar.

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