8.5.15

a minha experiência com drogas

Foi a primeira vez que fui operado. E acredito ter vivido algo que será bastante comum a quem passa pelo mesmo do que eu. Ou seja, pensar que tudo vai correr mal no bloco operatório. Como tal, a ansiedade é muita. Mais do que muita. E é substituída por uma grande camada de nervos a partir do momento em que nos dizem: “vamos descer para o bloco”, começando a empurrar a cama. Ir do sexto andar até ao primeiro foi para como se estivesse a percorrer o corredor da morte. Quanto mais me aproximava do bloco mais nervoso ficava. Acredito que isto seja muito comum, por isso é que deixam que um familiar nos acompanhe.

E se já estava nervoso, mais fiquei na minha primeira paragem. Fui recebido pela enfermeira chefe, a simpática Cristina, que me explicou o que ia acontecer. Quem a ouvisse acreditava que ia passar um bom momento. Parecia um passeio no parque. Fui mudado para a marquesa (acho que é assim que se diz) onde fui operado e levaram-me para uma sala mais fresca. Aí, voltei a ser confortado pela enfermeira Cristina. “Dúvidas?”, perguntou-me. “Só quero saber qual é a anestesia que me vão dar. É que estou muito nervoso e faz-me impressão a ideia de estar a ouvir o cirurgião a falar enquanto me opera”, disse. Sorriu e disse que ia passar o recado à equipa de anestesistas.

Depois de alguns segundos (pareceram horas) a olhar para o tecto, recebi a companhia da equipa de anestesistas. Que brincaram com o homem de 33 anos, que parecia um puto de dez, cheio de nervos. Fiz-me de forte (fui facilmente convencido) e disse que a epidural chegava e sobrava. Acalmaram-me e levaram-me para o bloco operatório. Local onde me transformei por completo. A começar pela epidural, brincando com a posição em que me colocaram. Depois, brinquei com a Drª Marta, da equipa de anestesistas que me fez companhia durante quase toda a operação. “Eu confio em si. Pelo menos enquanto tiver coxo e não puder correr atrás de si para me vingar de uma eventual mentira”, disse-lhe.

Fui deixando de sentir as pernas mas não me calei. Fiquei eufórico. Fiz perguntas sobre os aparelhos. Falei de restaurantes bons e baratos. Falei do meu trabalho. De alguns momentos do meu quotidiano. Brinquei com o suporte de silicone onde tinha a cabeça, dizendo que era um bolo de ananás e que só faltava o chá para uma festa. Recordo-me de me terem colocado algo no nariz (outra anestesia) que acabou com a euforia e me fez dormir.

Sei que entrei no bloco operatório cheio de medo e diverti-me lá dentro como se estivesse num parque de diversões. Fez-me lembrar o medo que tinha da montanha russa até que andei numa (a que tinha – ou ainda tem – mais loops na Europa) acabando por repetir imediatamente a experiência. A minha euforia era tanta que não posso reproduzir aqui tudo o que disse no bloco. Partilho apenas que me foi perguntado, em tom de brincadeira, se consumia substâncias ilícitas, ao que respondi que não.

A verdade é que a operação acabou por ser um passeio no parque. Não sei o que me foi dado além da epidural. Só sei que me deu para ficar eufórico até me deixar dormir. Tanto que, assim que saí do bloco e fui para o quarto, a minha mulher reparou que estava alterado. Tinha muito medo. Agora tenho uma história para contar aos amigos que se vão fartar de rir com aquilo que fiz e disse no bloco operatório.

15 comentários:

  1. Ah, ah, ah, ah... Vais para o Ridicoulousness

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  2. Ah, ah, ah, ah... Vais para o Ridicoulousness

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  3. Ahahah já passou, agora é recuperar junto dos miminhos da esposa :)

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  4. Só fui operada uma vez na vida e ainda era criança, não tenho muitas memórias, só me lembro de ver a minha mãe em pânico e de eu não saber porquê...Tudo correu bem, mas é sempre algo stressante para nós e para os mais chegados!

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    1. As pessoas que não estão no bloco sofrem mais com a operação. E digo isto porque já estive dos dois lados.

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  5. A anestesia pode provocar esse efeito. É normal. E o pessoal dos blocos operatórios sabem disso, embora se metam na mesma com as pessoas ;)

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  6. Explicando assim muito rápido, o corpo liberta certas hormonas (verdadeiras dorgas) que te deixam de um tal modo, que te dão essa sensação de teres acabado de fumar ceninhas para rir...

    O estado de nervos em que estavas contribuiu imenso para isso. Nunca te deu para rir num momento de stress? ;) tem tudo a ver... E não precisas de ser anestesiado ahahah

    (correção: pelo menos enquanto EStiver coxo :D)

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    1. Por acaso com nervos não me dá para rir. Mas ali, assim que entrei no bloco mudei por completo. Era digno de um vídeo de comédia :)

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