4.3.15

as mulheres são as culpadas das violações

Em 2012 Jyoti Stingh, uma jovem estudante de medicina de apenas 23 anos que estava acompanhada por um rapaz, foi vítima de uma violação colectiva, levada a cabo por seis homens, num autocarro de Nova Deli. Essa jovem, que ainda foi agredida, acabou por morrer com ferimentos internos bastante graves. Agora foi feito um documentário – A Filha da Índia – que conta com declarações de Mukesh Singh, um dos homens que a violou e que foi condenado à morte.

Entrevistado, Mukesh Singh disse que a culpa da violação é da jovem. “Uma mulher decente não anda na rua às nove da noite. É muito mais responsável pela violação do que o homem”, defende, acrescentando que trabalho doméstico é que é coisa de mulher. Este “homem” explica também que a jovem não se devia ter tentado defender. “Devia ter-se mantido em silêncio e permitido a violação. Assim, teria sido depois deixada e apenas teriam batido no rapaz”, refere. Mukesh insurge-se ainda contra a pena de morte pois considera que será pior para as mulheres. “A pena de morte vai tornar as coisas ainda mais perigosas para as mulheres. Os violadores não as vão deixar como nós fizemos. Vão mata-las. Antes violavam e diziam: “deixa que ela não conta nada a ninguém.” Agora vão matar”, diz.

Depois de ler isto olhei para os calendários que tinha mais perto de mim de modo a perceber o ano em que vivo. Depois, perdi algum tempo a tentar interiorizar que é um caso que teve lugar num sítio completamente diferente da minha realidade. Mas, em nenhum momento consigo encontrar lógica, por mais pequena que seja, nas justificações deste homem que basicamente culpa a mulher de ter sido violada por seis homens. Nem que seja porque estava na rua. E depois, já que está a ser violada, só tinha é que se calar e não dar luta.

Se algum destes homens for pai de uma menina, será que é isso que deseja para a sua filha? Ou é isso que deseja para a sua mulher? Ou será que as prende em casa de modo a não existam motivos para que nenhum outro homem as queira violar apenas e só porque estão na rua às nove da noite? Este tipo de coisas, este modo de pensar é algo que ainda me choca. Que me deixa sem saber qual será o rumo que este mundo irá levar. Como é que isto ainda é possível e, para algumas mentes, completamente aceitável e justo, em 2015. Como é que se fala de uma pessoa como se fosse um mero saco de batatas. Agradeço caso alguém tenha resposta para estas coisas...

Para os interessados, A Filha da Índia, da autoria da britânica Leslee Udwin, será emitido no Dia Internacional da Mulher (8 de Março) pela BBC. Também estava previsto ser transmitido na Índia mas foi proibido. No dia seguinte será apresentado em Nova Iorque no lançamento de uma campanha mundial pela igualdade e contra a violência sexual.

32 comentários:

  1. Não encontro palavras para expressar o que sinto perante essa realidade, cada vez mais comum, na Índia...

    ResponderEliminar
  2. a mim também me choca, e devia passar mesmo na Índia, ainda que há muita gente que defende que devemos respeitar a cultura de cada país, mas neste caso é uma questão de cidadania e direitos humanos. Como é possível ?!?!?

    ResponderEliminar
  3. Li ontem estas declarações. Quase não contive o vómito...

    ResponderEliminar
  4. Nojo. É tudo o que te tenho a dizer sobre esse/s homem/ns.

    Nojo.

    ResponderEliminar
  5. Infelizmente a evolução no pensamento e atitudes ainda não chegou a todas as partes do mundo. Tenho esperança que um dia chegue, tenho esperança de que um dia em todos os países entendam que os direitos humanos existem para ser respeitados. Parece-me que esse dia não está próximo mas há-de chegar.

    B

    ResponderEliminar
  6. Essas coisas dão-me uma tremenda volta ao estômago. Mete-me nojo, mesmo. Isso de que falas sobre desejar isso para a filha ou para a mulher não se aplica na mente deles porque jamais em tempo algum mulher ou filha desse senhor seria "indecente" ao ponto de andar na rua fora de horas. Que asco desses homens.

    ResponderEliminar
  7. Não consigo compreender como o ser humano consegue ser responsável por tão atroz comportamento.
    vidademulheraos40.blogspot.com.

    ResponderEliminar
  8. Sem palavras e chocante. Ainda tão chocante.

    ResponderEliminar
  9. A minha fé na Humanidade tem dias em que se abala, muito... e lendo isto, hoje é um desses dias...

    Infelizmente isto ainda é uma realidade.. e não é só em localizações distantes e realidades fora da nossa. Este acontecimento foi longe, mas há outros que não o são...

    Infelizmente cá, sim, cá em Portugal, ainda há mentalidades assim como essa, sim há. Há dentro de portas, na casa da vizinha, na casa da prima que já nem se lembrava dela por não a ver 'aos anos'... no namoro que afinal é mais uma prisão, e que ela não consegue terminar com medo das consequencias... em muitos lugares que não deveria existir...

    Ainda há homens que dizem que 'ela foi violada porque também andava a pedi-las com aquelas roupas sensuais, se ela não queria ser atacada que se vestisse decentemente!". Isto é só um exemplo, porque para alguns o simples facto de acharem a mulher bonita é suficiente... noutros casos, basta ser mulher (para ser um pouco mais extremista)

    Como mulher sinto-me lesada quando leio estas coisas, não só porque me choca, mas também porque já passei por situações bastante humilhantes como mulher na minha vida, e a sensação de uma mulher numa situação dessas é de impotência, uma impotência de uma dimensão tão, mas tão grande que não se exterioriza, apenas se sente.

    É. Infelizmente ainda é uma realidade, em pleno séc. XXI. Que se faça alguma coisa para mudar. Não é só fazendo leis. É preciso educar, sensibilizar. Educar as mulheres para falarem, para se saberem defender em situações destas. Educar homens para que não o façam, para que possam defender as mulheres em casos destes.

    Tanto que ainda é preciso ser feito... tanto...


    Não deveria ser necessário haver o 'Dia Internacional da Mulher' e enquanto isso for uma necessidade, será preciso trabalhar para que não o seja...


    Beijinhos
    Z.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É certo que ainda existem muitas mentalidades assim. E isso é aquilo que é mais complicado de alterar.

      Beijos

      Eliminar
  10. Casos como este, para além de me deixarem bastante irritada... deixam-me bastante apreensiva ao imaginar que pode estar a repetir-se o episódio, neste instante... e há quem ache normal!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Choca-me a naturalidade com que se defende estas ideias.

      Eliminar
  11. Olá, sou uma leitora recente mas tenho mesmo de comentar este post, pois ainda ontem comentei esta barbaridade com o meu pai.
    É realmente triste e absurdo que aconteçam estas coisas nos quatro cantos do mundo em pleno século XXI. Culpar as mulheres pelas violações?!! Que mentes são estas? Será culpa da religião, tradição ou será pura maldade?
    Está na altura de começar a olhar para estes crimes com "olhos de ver" e não como "mais uma violação" em que há condenações (ou não, nalguns casos) mas a mulher morre ou fica marcada para o resto da vida!

    Obrigado pela dica do comentário, estou curiosa para ver!

    Beijos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Ana, tudo bem?

      Tudo aquilo que o homem diz é merda (e desculpa a palavra). E o mais chocante é dizer aquilo como quem diz que vai beber um copo de água.

      Beijos

      Eliminar
  12. O problema destas mentalidades (e quem me dera que existissem só em sítios longínquos, mas não) é que muita gente (inclusive algumas mulheres) continuam a achar que a mulher é inferior ao homem. Que o homem manda no mundo e na mulher. Chama-se patriarcado. Bom, claro que este caso é levado a um extremo, mas quando há um caso de violação num país desenvolvido, a maior parte das vezes (quer seja pela polícia, quer seja no tribunal) a vítima é questionada acerca da roupa que levava aquando a sua violação. Mais indiretamente culpa-se a vítima só com esta questão. É humilhante, é nojento achar que uma mulher pode ter culpa de ser violada independentemente de estar quase nua, de ser meia-noite e andar num sítio mal iluminado, de ter bebido uns copos. As mentalidades têm de mudar, não só em sítios onde os direitos das mulheres ainda mal são reconhecidos, mas em países desenvolvidos também!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um facto que muitos homens acham que as mulheres são inferiores. Mas também é verdade que muitas mulheres não se contentam em ser iguais. Têm de ser vistas como superiores aos homens. E enquanto esta guerra durar, será sempre assim. Não percebo a dificuldade em ignorar os sexos. Somos pessoas. E todos iguais.

      Eliminar
    2. Acho que não há muitas mulheres que queiram ser superiores aos homens. Queremos ganhar tanto como os homens. Queremos sair à rua e não ser assediadas. Queremos andar à noite sem ter medo de ser violadas. Queremos que a violência doméstica acabe (tanto para as mulheres como para os homens). Era bom que fossemos todos iguais, mas ainda não chegámos lá.

      Eliminar
    3. Quando as pessoas se mentalizarem da igualdade, tudo será melhor.

      Eliminar
  13. Essa justificação é tão linda como quando eu fui vítima de violência domèstica; numa das vezes em que fui agredida: "ah e tal, ela levou-me ao limite"...
    Monstros. Apenas e só isso.
    Pior, vos séculos vão passar e nada vai mudar.

    ResponderEliminar
  14. Não sei qual é o espanto vindo de um país perverso e machista,a mentalidade deles nunca muda apesar de algumas manifestações que fazem.Os asiáticos vivem sob ditadura,muito atrasada no tempo.Seria de espantar se fosse um europeu a proferir tal discurso de ódio...e mesmo que não digam nada,muita gente ainda tem cabeça de pré-histórico e depois é o falso-moralismo que se vê!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O mais complicado de mudar é a mentalidade de um povo. E isso irá prolongar-se durante muitos anos.

      Eliminar