10.9.14

105 mil querem ir lá para dentro

Este ano candidataram-se ao ensino superior 42.408 alunos. Por outro lado, existem 105 mil candidatos para a próxima edição de Secret Story, o reality show da TVI. O que é um novo máximo para o programa que uns adoram e que outros detestam e que supostamente ninguém vê apesar de ser líder de audiências. Encontrar uma relação entre estes dois valores depende de cada pessoa. Para uns fará sentido. Para outros não terá lógica comparar estes dados. Percebo os dois pontos de vista e aceito as duas formar de encarar a situação.

Acho que é claro que existem pessoas com mais sede de fama do que com vontade de apostar na formação pessoal ou profissional. Existem pessoas que preferem cinco minutos de fama em vez de três (ou mais) anos de estudos. Existem pessoas que acham que ser famoso é uma profissão, provavelmente a melhor de todas. E estão dispostas a tudo para colocar esse marco no seu cv. São opções. São caminhos.

Aquilo que acho mais estranho é que ainda existam pessoas que vejam neste tipo de programas o futuro de uma vida. É certo que recebem algum dinheiro. É igualmente certo que vão ganhar dinheiro com presenças em discotecas. Mas é igualmente certo que pouco tempo depois surge um novo programa e uma nova fornada de pessoas com igual ambição. E esta constante reciclagem engole os mais antigos que, na esmagadora maioria dos casos, vão desaparecendo. Não sou ninguém para condenar quem quer que seja mas considero errado que um programa destes seja o futuro de uma vida em detrimento de opções mais vantajosas. Contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que participaram em reality shows e que souberam aproveitar, da melhor forma possível, a exposição mediática para preparar o futuro.

Depois, existem outros dados curiosos sobre a casa dos segredos. A começar pela existência do programa. Se existe, é porque é consumido. E não por uma minoria. Aliás, as audiências provam que o programa tem muitos fãs. Qualquer produto existe porque existem consumidores. A partir do momento em que deixem de existir, o produto desaparece. Além disso, as audiências são brutais mas aparentemente ninguém vê a Casa dos Segredos. E este talvez seja o dado mais curioso de todos.

31 comentários:

  1. Sinceramente, não percebo esta comparação... para estudar no ensino superior é preciso dinheiro...para propinas para livros, para transportes, muitas vezes para alojamento e por ai a fora... dinheiro esse que os pais não tem, portanto não podem proporcionar os filhos... É certo que casa dos segredos, não é futuro para ninguém, e quando muito dará apenas uns bons trocos em presenças nos 6 meses seguintes ao programa, porque como diz o Bruno, a seguir vem outra "fornada"... não percebo a comparação... para ir para o ensino superior, tem que se pagar... para ir para o secret story, pagam-lhes... uma miséria, muitas vezes para fazer figuras tristes mas pagam...

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    1. O teu raciocínio é o mais lógico, o que faz mais sentido e aquele em que pensei quando escrevi o texto. Mas acho que não pode ser a única explicação. Até porque sempre me fizeram confusão aqueles alunos que se queixam do preço das propinas mas que nunca faltam a uma festa, a um jantar e às viagens. Para isso, e para muitas outras coisas, existe sempre dinheiro.

      Além disso, existe a possibilidade de trabalhar durante o curso para pagar o mesmo. E nisso dou o meu exemplo que sempre trabalhei, o que me levou a fazer o curso em todos os horários possíveis e com diferentes turmas. Fui aluno nos dois horários de dia e ainda de noite. Perdi algumas coisas para não perder os estudos mas foi uma opção que tomei. E acho que também passa - não esquecendo tudo o que dizes e que é certo - por aí. Pelas opções e prioridades.

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    2. Também fui trabalhadora-estudante, percebo o que dizes, não te tiro o mérito, de modo algum, e também sei que nem todos nos sacrificamos por objectivos mas... não se encontra emprego, como há uns anos atrás e se quando se vai a uma entrevista se disser que também estuda, meio caminho andado para ser posto de parte... é injusto, mas é a verdade...

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    3. Maria,
      O sol quando nasce, nasce para todos. Feliz aquele que o aproveita!

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    4. Maria,

      Gosto destes debates e isto dava pano para mangas. É certo que o mercado está mais saturado mas ainda existem pessoas que não querem trabalho mas emprego. "Trabalhar no McDonald´s? Eu? Aquilo é uma exploração", "Fazer limpezas ou passar a ferro? Isso não é para mim", são apenas dois exemplos das coisas que algumas pessoas dizem. Este tema dava pano para mangas.

      Sandra
      Feliz de quem luta para o aproveitar.

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    5. Exatamente,
      Sol, suor e lágrimas; mas no final tão mas tão gratificante!

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  2. Ao ler estes dados, o primeiro pensamento que veio à cabeça foi: que triste país este! Para mim isto só demosntra que somos um povo que pensa no agora, no curto prazo, no imediato...

    Fico triste!

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    1. Acho que um reflexo que praticamente não pode ser negado é o da audiência brutal que tem.

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  3. É simples. Para se entrar na universidade é preciso qualificações mínimas e ter dinheiro para sustentar o estudo; para entrar na casa dos segredos, não há qualificações mínimas e ainda podes vir a ganhar dinheiro.

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    1. Como respondi no primeiro comentário, é um argumento válido e o mais lógico de todos. Não pode ser ignorado mas acho que não pode ser visto como regra geral. As tuas últimas palavras são bastante claras. Se a isso juntares fama, acho que tens os principais ingredientes que aliciam muitas pessoas que ainda pensam que aquele dinheiro e fama não se esgotam.

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  4. Tens razão quando dizes que existem pessoas que acham que ser famoso é uma profissão. Mas penso que a motivação de quem se candidata poderá não passar apenas por aí, HSB.

    Faço parte do grupo que não vê comparação possível entre os números de candidatura ao ensino superior e de candidatura à casa dos segredos, porque não é uma escolha mutuamente exclusiva: quem se candidata à casa dos segredos pode candidatar-se ao ensino superior. E se não o fazem não será por não quererem um futuro melhor, mas por a candidatura ao ensino superior implicar despender de dinheiro (em propinas) durante três anos (pelo menos), antes de ver retorno financeiro desse investimento (com sorte). Se a candidatura ao ensino superior oferecesse salário a curto-médio prazo, depois de um trabalho de apenas três meses, com certeza as candidaturas seriam mais do que são.

    Unindo a promessa de salário imediato, à crise económica no país, e ainda à super-exposição que o programa televisivo traz (e a maioria dos jovens parece adorar, julgando pelo sucesso das redes sociais) parece-me desprovido de qualquer surpresa o facto de tantos tentarem a sua sorte no programa.

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    1. Acredito nos teus argumentos e até a pouca ou nenhuma confiança no mercado profissional. Mas acho que passa mais pelos aliciantes da tal super-exposição que referes. Acho que isso ainda mexe com muita gente e isto dava pano para mangas. Mas aceito perfeitamente, e faz sentido, os custos do estudo vs benefícios da estadia na casa. Só acho que não pode ser uma regra geral.

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  5. Muito bem.
    Eu assumo que vi a última Casa dos Segredos, apenas ao domingo e nem sempre.
    E por que via?
    Para perceber até onde iam/vão a educação e os princípios destes jovens , com ânsia de vida, de sexo, de dinheiro, de fama, como muito bem escreveste, que serão os pais e os avós de amanhã deste país com tanta falta de valores.
    Se vou ver o próximo, não sei.
    Por vezes, a TV está ligada para nenhures/ ninguém. É apenas uma luz que serve de companhia.
    Beijinho

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    1. Há algo que ninguém - excepto eles - consegue explicar. E isso passa por estar fechado numa casa, onde não há espaço para estar sozinho sem ver ninguém e com pessoas de quem não se esgota. Só eles sabem o que isso faz a uma pessoa. Porém, dos bocados que vejo noto que já estão ao nível da representação quando começam com discursos do que passa lá para fora e do que as pessoas gostam de ver. É por isto que acho que a sede de fama ainda atrai muita gente.

      Beijos

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    2. Infelizmente é uma grande atracção. Maquilhada mas é.

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  6. programas de tv e reality shows não custam dinheiro aos candidatos. não é preciso pagar propinas ou mensalidades no caso das faculdades privadas. não é preciso pagar renda da casa, nem água , gás e luz. não se gasta dinheiro em transportes públicos, expressos, comboios, livros, fotocópias, mesadas, exames de 2ª e 3ª época. para depois ficarem virem cá pra fora para o desmprego ou para empregos que arranjariam sem o tempo e dinheiro investidos durante anos. num país assim, é natural que as pessoas vão ao engano.

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    1. Faz sentido o que dizes. Tal como todos os que referiram coisas semelhantes. E acho que pode passar por aí, pelo engano de achar que é o escape para uma vida de luxos.

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  7. Eu sou das que não vê o programa - sim, deve haver meio mundo a dizer isto - nem sei ao certo o objectivo (nem me interessa).
    Não só acho triste o nível de audiências como a discrepância dos números que referes. Há qualquer coisa de errado na nossa sociedade, quando existe uma ordem de grandeza tão díspar entre as pessoas preferem ir para um sítio não fazer nenhum, dizer barbaridades, etc. e tal e as que preferem apostar no crescimento intelectual e, quem sabe, num futuro melhor. No fundo, entre quem não quer ter trabalho e acha que tudo se consegue sem esforço e quem prefere semear.
    É o país que temos do qual, neste caso, infelizmente, eu também faço parte.

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    1. Partilho dessa forma de pensar. Do querer o fácil e sem trabalho.

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  8. Uma coisa é certa é que para se inscreverem não é preciso grande dinheiro inicial para o programa, se forem seleccionados ainda ganham alguma coisa com isso por muito passageira que seja. Os candidatos ao ensino superior faz as contas antes. Se existe dinheiro para as despesas que podem vir, se valerá a pena gastar o que se gasta (dinheiro, tempo, etc) para no fim as probabilidades de emprego não serem muitas. Eu vejo da forma que mencionei. Quantos alunos não se terão candidatado porque não têm possibilidades económicas? É que lidar com a palavra colocado mas depois não ir não deve ser fácil.
    Isto dava pano para mangas...percebo a atracção pela facilidade e percebo o querer investir na formação. Como tudo são escolhas que uma pessoa faz.

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    1. Dava mesmo pano para mangas. E por isso é que é um tema interessante. Aceito esses argumentos mas também defendo que muitas pessoas acham que estudar é caro mas alimentar outros vícios que têm nunca é caro e nunca necessitam de cortes. Entendo que passa também por opções das pessoas. Daquilo que procuram e das prioridades.

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  9. Acho que são números incomparáveis. Para a Casa dos Segredos qualquer pessoa com mais de 18 anos pode concorrer. Para o ensino superior não, porque isso acontece numa determinada fase da vida, maioritariamente aos alunos que estão a terminar o 12º ano. Claro que qualquer outra pessoa pode concorrer ao ensino superior, mas será uma minoria. Não me parece razoável comparar estes números.
    Agora, que há muita gente à procura de dinheiro fácil e de tentarem subir na vida à custa desses programas, isso há. E isso sim demonstra o nível intelectual de uma parte deste nosso povo.
    E eu sei que vai parecer cliché, mas eu não vejo esse tipo de programas. Mas quando digo que não vejo, é porque não vejo mesmo. O único que segui a sério foi o 1º Big Brother, com o Zé Maria, o Marco e a Marta, o Telmo e a Célia, etc, etc. Talvez por ser novidade, achava piada. Tudo o que veio depois disso me pareceu demasiado forçado, demasiado produzido, demasiado falso até. Bom, bom, mesmo bom, foi o Último a Sair. Isso sim foi um programa a sério. :D
    beijinho

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    1. Aceito o argumento dos custos da vida académica. Mas acho que não pode ser a explicação para tudo. Os estudos são caros mas as saídas à noite não são, os jantares também não, as idas ao futebol também não, o tabaco também não e tantas outras coisas.

      Quanto mais edições existem, pior é para a naturalidade das pessoas.

      Beijos

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  10. Não se pode fazer uma comparação dessas, quando para entrar na faculdade, a faixa etária dos candidatos é muito menor do que a daqueles que se inscrevem no Programa. Já para não falar que, muitos dos que se candidatam à casa dos segredos, têm curso superior ou estão actualmente na faculdade. O secret story é como o tony Carreira, ninguém gosta, mas todos sabem as letras das músicas. Se têm medo de serem considerados mentecaptos por verem o programa, acho q o são muito mais por fingirem que não o veem. Eu vejo e adoro. Obrigado

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    1. Posso estar errado mas a grande maioria dos concorrentes tem idade para estudar. E, por acaso, a ideia que tenho é que não têm grandes estudos. Acho que passa pela vergonha que referes. Algo que num passado recente acontecia em relação às telenovelas.

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  11. Olá,
    Existe um estudo antropológico acerca dessa vontade de exposição pública: "Mediatização da Vida Privada - O Big Brother como rito de passagem". É interessante verificar que não só nas sociedades mediatizadas esta questão existe,embora os propósitos sejam diferentes.

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    1. Deve valer a pena ler esse estudo e perceber muitas coisas.

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  12. Comparar n.º de candidaturas ao ensino superior com o n.º de candidaturas à Casa dos Segredos é comparar alhos com bugalhos!

    Não entres nessas comparações facebookianas pf :)

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    1. Aceito isso. Mas é possível fazer uma leitura dos dados mesmo não sendo directos e passando pela sede de fama vs trabalho, por exemplo :)

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